05 março 2011

Sonho


 

Gustave Courbet: Woman with a Parrot.

Quando estendo os meus dedos
Por cima do linho branco,
E teço com gestos lentos
Desenhos imaginados
Inconfessados segredos
Que não revelo a ninguém
Limito-me a mergulhar
O meu rosto no teu rasto
Que acabei de perder
Perdendo-me a mim também
Por não saber esquecer.
E fecho os olhos à vida
Deixando que o sono sonhe
Esta vontade perdida
De para ti ser alguém.

03 março 2011

Areais


Winslow Homer (1836-1910)

E vieste tu oceano
Com asas de maresia
Levaste nessa maré
Os pedaços de poesia
Fiquei eu só no areal
A contar os grãos de areia
Já que palavras não tinha
Nem contos para inventar
Já só me restam as ondas
Para nelas me embalar.












28 fevereiro 2011

Literando, literal, leito ou lado lunar



A arte da literatura é viver sem ser feliz
Pintar a vida como se fosse
A boca da meretriz.
Vermelho violáceo
Leve sabor a pistácio.
Só quem é triste diz poesia
Como se dissesse baixinho
O teu nome  maresia
Burilando nas palavras
Um cruzadismo, xadres
Uma estética inventada
Uma gota destilada
Palavra que surge à vez.
Não existe semiótica
Nem arco, vitral
Um qualquer portal
Arte nova ou mesmo gótica
Uma única verdade nua
Literatura é  fingimento
Mascar da vida, magia
Ocultando o sofrimento.

Poetas


















 Óleo sobre tela : Rapariga à janela , Iman Maleki*Havia um poeta na minha rua 
Por quem  me apaixonei
Todos os dias passava
Ao lado da  janela
Esperando que notasse
Que eu seria aquela
para quem ele escreveria
Mas o poeta  tinha olhos
Para quem o não  queria
Assim  era  um poeta
Porque também ele assim sofria
Como eu sinto por quem sente
E tem a alma vazia
E procura preenchê-la
A escrever poesia.

*Iman Maleki (Teerão, 1976 - ) é um pintor iraniano do hiper-realismo.
Desde pequeno sentiu a vocação para a pintura; graduou-se na Universidade de Arte de TeerãoMorteza Katouzian, aperfeiçoando uma minuciosa técnica de realismo quase fotográfico. Foi galardoado com o prémio William Bouguereau e o “Chairman’s Choice” na II Competição Internacional do Art Renewal Center. como desenhador e estudou com o melhor pintor hiper-realista do Irão,
Pintor neo-clássico, considerado pupilo de Sir Lawrence Alma Tadema. Gozou de muita popularidade, mas seu estilo resultou-se superado, quando do surgimento de novos estilos pictóricos, principalmente o do pintor espanhol Picasso. Adepto da pintura de Frederick Leighton, mas seu estilo era mais próximo do de Alma-Tadema, com quem compartilhava uma forte paixão pela arquitetura clássica. Expôs na Royal Academy em 1887.
Sua família desaprovava sua carreira e,em 1912, ao mudar-se para a Itália com uma de suas modelos, rompeu qualquer tipo de contato com ele. Retornou à Inglaterra em 1919, ali permanecendo até sua morte, por suicídio (asfixia por gás), em 1922. Envergonhada, sua família, acabou queimando seus documentos e fotos. Não se tem conhecimento de ter restado alguma.
Fonte : Wikipédia

24 fevereiro 2011

Vogais e Consoantes


A origem da Via Láctea - Tintoretto
Escrevo para apontar palavras
Como quem aponta uma arma
E digo ao horizonte
Que levante o céu sobre os seus ombros
Como se o jugo mais leve fosse
Aponto baionetas ao sol e transformo-o
Em negrume azulado, para lá dos sete sóis
De opaca clarividência
Para que   possa ver a luz da lua reflectida
No  frio aço estilhaçado.
Com  palavras já construi um foguetão
Pela via láctea  procuro  um poeta
Senhor de impérios  de fogo
E  de vogais incendiadas em espasmos
e consoantes sonâmbulas.


Louco é o  poeta que vê
Para lá  do que não é visível
Que sente exacerbado
A alma a arder no corpo
E a vida inteira suspensa.







22 fevereiro 2011

A semente da Poesia


Há em mim  um profundo silêncio
Um segredo não revelado
Uma poesia oculta
um fruto desconhecido
um fim de tarde esperado
um poema não gerado
Quando te senti entrar
Soube-me quase a destino
Impaciente e revolto
Com secreta voz
Me olhaste
E sem conseguires ver
A semente que geraste
de onde nasceu a poesia
Filha deste cruzar
a tristeza e alegria
E eu morro aqui
A olhar os barcos
A imaginar que ainda é
A tarde em que tu chegaste.
Pela mão levo comigo
Essa mão tão pequenina
Que quando me toca assim
Faz das palavras  rima.

21 fevereiro 2011

Tédio



Leda e o Cisne - Tintoretto

Quantas mais vezes terei eu ainda
De desejar-te
E desejar não ter desejo?
Quantas vezes te olharei ainda
Com olhar de volúpia castrada
Não conseguir nunca
Realizar este ensejo?
Quantas esperas faço
De mágicas centelhas sem lampejo?
Já não ouso sequer tocar-te
Tanto o medo que me invade
E chamo-me a cada vez que passa
De inútil mente e cobarde.
Os meus olhos descem sobre ti,
Como aves de rapina
Abutres em espera divina
Olhando famintos
Esses rios azulados
Que correm nas tuas mãos
Sonham carícias de serpente
E o teu olhar feito de névoa encoberta
Esse está sempre presente!
Para não falar no silêncio bizarro
Das minhas noites em branco
É que já se me secou
No leito da lua cheia
Toda a fala, todo o pranto.
E o tédio avança
Com seu manto, cobre-me o corpo
Inteiro,
Como se fosse um quebranto.
Ai quem me dera poder descansar
Pousar a cabeça e não mais pensar
Que estou eternamente proibida
De te poder amar.

Verde e Azul



Pintura de Winslow Homer
Existe um oceano verde para lá da janela aberta, confunde-se em momentos de sonho com esse mar que tanto quero. Por cima das árvores vestidas de verde voam pombas brancas, pedaços de ondas, espuma que se solta no ar e refrigera.
Quando abro as vidraças, pela manhã, guilhotinadas por pedaços de madeira em rigorosa esquadria, deparo com bagas vermelhas alcandoradas nos galhos, pasto e repasto dos melros que se banqueteiam impunes. Atordoados esvoaçam ao mínimo sinal de alarme. Cruzam-se no ar com outros emissários marítimos, porte maior, asas abertas em cruz, lançando gritos que transportam consigo para lá da beira terra.
Revejo o verde esmeralda, horizonte das tardes sedentas em que os corpos seminus buscavam entre si o êxtase por sobre a rocha vulcânica. Não sei que formas se contemplaram, não sei que escuridão desceu ali; momentos abissais , palavras que desceram com a espuma enrolada no imenso e vertiginoso azul do mar. E por lá ficaram nos negros vales submarinos.
Soltas no areal cascos de embarcações perdidas no silêncio, arrebatadas ao sonho azul que nunca chegou a voar em nós.

18 fevereiro 2011

Sobre o Mar


Quadro do pintor romântico, Joseph Mallord William Turner, nasceu em Londres, 23 de abril de 1775. Precoce, Turner, com apenas 10 anos de idade, tinha um talento que impressionava. Turner gostava de pintar paisagens, principalmente, o mar (pier, Marinas, cais), rios, cachoeiras e abismos.

Hoje conto-te daquele mar que trás em si
Todas as sombras do mundo.
Cachos de azul profundo


Que nascem e morrem
No leve arco das ondas
São mil volutas, que num instante
Se detêm leves e airosas
Irrompem em cataclismos
Tragando para dentro de si tantas bocas queixosas
Consegue este mar beijar o céu, baixo e enegrecido
Arranca o sol do horizonte
Apaga-lhe o braseiro e leva-o
Para dentro desse imenso azul enraivecido
Com dentes de branca espuma cinzelados
Há uma caravela à deriva
Existem bosques de navios encantados
Misterioso triângulo que nos rouba
O sono, a vida e nos trás amaldiçoados.
O meu nome é azul, azul do mar a bramir
O verde na escuridão, negro verde sempre a pedir
que mergulhes no mar que trás em si todas as sombras.
Mergulha e sente devagar, nunca percas a consciência
De que nunca será nosso o mar.

17 fevereiro 2011

Musas

A Musa Euterpe 1752-Francois Boucher

Porque é que só me chamam Musa
E me condenam a não ser apenas mulher?
Porque fico eu aqui sozinha, entronizada
Como se fosse uma santa de um altar qualquer?

Foi Deus ou o Diabo que me condenou
A ser a mais solitária das mulheres
A resignar-me sem sentir, sem saber
Onde está aquele que me amou?

Porque me falas tu dela sempre?
Porque está o retrato dela
Tão vivo na memória , tão presente?

Estarei condenada assim eternamente?
Já me chamam Dona Musa por aí
Que condão tenho eu, que desconheço
A minha vida é uma viagem sem regresso?
Espécie de ampulheta sempre a inverter
A areia que conta as horas que padeço?

Ah , não me chames Musa, chama-me antes mulher
E leva-me para a tua cama, enrolar os lençóis de linho
Não me peças para os fiar, pede-me antes para neles
O teu corpo poder beijar.

15 fevereiro 2011

Resposta a um comentário anónimo e cobarde

A poesia não precisa de rimar para fazer sentido.
Viver só sente quem não despreza o ter vivido
Pois para aqueles que não vivem e nada sentem
É como se a vida nunca tivesse acontecido.

Moleza de espírito impressionante
“Inofensividade” que revela
Torna-se assim irritante
Quem opina, ele ou ela….
E plena de brutalidade sim,
Quem só reconhecer sabe
O brutal que é não saber
Um factor in-ofensivo
A mim não ofende quem quer.
Quanto à falta de moralidade
Conceito abstracto pelo meio
Volto a escrever só não sente
Quem da vida tem receio.
Quanto aos poemas omissos
Cada um vê o que quer
Lê e retira ilações
Eu apenas escrevo de acordo
Com as minhas disposições.
Sou livre de ir e vir, sou como uma pena ao vento
Se choro , rio ou sorrio,
Se faço da poesia passatempo
É comigo, e só comigo
E penas volto a dizer,
leva-as o vento também
Tal como as palavras vãs, ocas e desprovidas
De qualquer forma de sentir
Cada um faça o que quer
Dono do seu porvir.
"- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe"

A propósito de ter citado José Régio: aí vai...o Cântico Negro


Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,E nunca vou por ali...


A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...


Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...


Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...


Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.


Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!


José Régio in Poemas de Deus e do Diabo

13 fevereiro 2011

Caudal


Joseph Mallord William Turner (Londres, 23 de Abril de 1775 - Chelsea, 19 de Dezembro de 1851)
E lá está outra vez a folha branca
A desafiar esta raiva
Que brota rude no leito
grito rouco na garganta
Que sufoca e sai estreito
Este caudal de solidão
Esta forma de ser louca
A que sempre me sujeito.
As palavras ficam presas
E não me saem da boca
Tão cheias de incertezas
morrem dentro do peito.
E fico-me assim a olhar-te
No silêncio destas frases
A sentir o impossível
A imaginar o tudo
O que seríamos capazes
E não fomos nunca,
Tu não foste , e eu não sou
Estas palavras já gastas
A que eu tinha direito
E que o tempo já levou.
Resta-me a noite escura
Com aquela luz ao fundo
Que me está sempre a chamar
De segundo a segundo.
Um dia vou, juro que parto.
Para me poder libertar.

06 fevereiro 2011

Maresias a solo


Agora sim que é noite escura
Quase uma madrugada pura
Feita de silêncio e calma
E me tenho só para mim
Tendo-te a ti a sonhar,
Agora sim.
Que é negro e denso o meu olhar
Feito do desejo a nascer azul
Para que possas tu
Deslizar nas marés imensas
Quando o meu corpo se transforma
Em todas as coisas intensas
Feitas de espuma e corais
longínquos mares do sul.
Agora que te espero aqui
Invento-te sonhando
Mansamente , enquanto
correm as águas fundas
Na praia desta memória.
Onde as ondas te trazem para mim
E de novo tu me voltas a habitar
És maré, barco, avião, e vens sempre
De mansinho, esse sorriso de menino
Enlaças-me devagar
E dizes-me em tom baixinho
Maria, anda ver o mar…

05 fevereiro 2011

Convite...

Por falta de tempo , não coloco aqui, agora, qualquer texto de minha autoria,mas urgia no meu espírito poder comunicar algo, ainda que através do Mestre Almada Negreiros que muito aprecio.
Deixo-lhe a ele o Mestre a tarefa de me fazer chegar através deste convite.
A Taça de Chá

O luar desmaiava mais ainda uma máscara caída nas esteiras bordadas. E os bambus ao vento e os crisântemos nos jardins e as garças no tanque, gemiam com ele a avinharem-lhe o fim. Em roda tombavam-se adormecidos os ídolos coloridos e os dragões alados. E a gueixa, porcelana transparente como a casca de um ovo da Ibis, enrodilhou-se num labirinto que nem os dragões dos deuses em dias de lágrimas. E os seus olhos rasgados, pérolas de Nankim a desmaiar-se em agua, confundiam-se cintilantes no luzidio das porcelanas.

Ele, num gesto ultimo, fechou-lhe os lábios co'as pontas dos dedos, e disse a finar-se:--Chorar não é remédio; só te peço que não me atraiçoes enquanto o meu corpo for quente. Deitou a cabeça nas esteiras e ficou. E Ela, num grito de garça, ergueu alto os braços a pedir o Céu para Ele, e a saltitar foi pelos jardins a sacudir as mãos, que todos os que passavam olharam para Ela.

Pela manhã vinham os vizinhos em bicos dos pés espreitar por entre os bambus, e todos viram acocorada a gueixa abanando o morto com um leque de marfim.


Almada Negreiros, in 'Frisos - Revista Orpheu nº1'

04 fevereiro 2011

Pausa II


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A Praia do Paraíso



Abro-te assim por entre as mãos
És areia da praia, molhada
Esboroando-se o castelo
feito à tarde, sonho de criança
que por ali passou,
adormeceu cansada.
Diz-me que foi mentira
A eternidade que guardo dentro de mim
Em antevisão tenho o tempo
De todas as coisas presentes
O devaneio enrolado na onda
Espécie de enleio
Que me faz descer
Ao fundo do abismo fervente
Um Turbilhão em trajecto
Em tons de verde, azul e sal
Arrastando-se no delírio
Na lonjura do areal.
Invoco sombras interiores
Para as confrontar
Se no fundo dos teus olhos
Ainda existe aquele mar.

27 janeiro 2011

A Poesia



Stella Bianco - “Menina de vestido rosa” - Óleo sobre tela.
A poesia não têm coerência
É impaciente.
È uma espécie de fogo fátuo
Que aparece à gente.
A poesia é filha da revolta
Tendo por madrasta a mágoa
Não se lhe conhece o pai
Criatura detestável.
A poesia despreza
Tudo o que não é belo
E consegue por si só
Fazer da maldição
O prelo
Plano liso, mármore
Onde se coloca a composição
Que a poesia dá à luz
Fruto da solidão.
Mas não queiram ser poetas
Esses seres tão singulares
Heróis de quimeras perdidas
Em busca dos sete mares
Das mais estranhas alegorias.
A poesia têm um preço
Mil anos de solidão
E sempre a alma a pairar
Pelo vazio dos dias
E pela negra escuridão
E dói, sabiam?
É como espinho cravado
Sem o poder arrancar
E a poesia é de quem
Sempre soube o que era Amar.

Tu que foges das emoções,
Dos sentimentos mais nobres
Que jogas nas palavras
As acções já de si pobres
Não ouses pensar sequer
Que vais a algum lado
O futuro te condena
A seres alguém sem passado.

E porque um povo,
Uma casa, uma pessoa
Que não saiba respeitar
E enterrar o passado
Nunca terá futuro
E viverá amargurado.


Deixa a poesia voar
Entrar livre pela janela
Faz da poesia o teu sol
Pinta a vida da cor dela.

Sorri, mesmo que chores
E que a tua alma seja
Um pedaço de cristal
Partido em mil pedaços
Abraça a poesia e diz-lhe
És a musa dos meus espaços.

* "Quando o real é incapaz de valer como tal, torna-se necessário desdobrá-lo num segundo sentido, para impedir a sua dispersão". escreveu Starobinski a propósito de Baudelaire

25 janeiro 2011

Alma ao Vento


Vincent van Gogh

Hoje sou a cidade inteira
Possuída por mil criaturas
Esventrada em passo lento
Praças abertas ao Tempo
Onde se cruzam amantes
E nos caminhos sombrios
Luz da lua aprisionada
Libertam-se os lamentos
De uma moura encantada.
Arvorada lá no alto
Ondula a minha alma ao vento
No torreão cimeiro
Da cidade em movimento
E em cada colina verde
Pontilhada de azul
Avista-se o rio imenso
A dirigir-se ao sul
Leva saudades minhas
A transpor a claridade
Brancas velas que flutuam
E partem para a eternidade


24 janeiro 2011

Diabólico


Dido observando Eneias a partir, Pintura a óleo de autor desconhecido
Descubro afinal que nada tenho de meu
A não ser esta dor fina que me faz sentir viva
Esta estranha louca à deriva
Este não meu sentir o teu
E depois?
Depois sonho ainda, com o gosto da tua boca
Em passo lento sonho
O toque da tua mão
Que me faz soltar a voz rouca
em momento de paixão
E semicerro o olhar, já de si tão quebrantado
Senhora sou de destinos vácuos
Simulacros
Corcéis alados
Anjos diabólicos.
Pactos escaldantes
Sinos, campainhas
Estas vozes rutilantes
Eternos peregrinos
Loucos amantes

21 janeiro 2011

O Grito


Munch - The day after : Exibido  no Museu Nacional da Noruega, em Oslo,  óleo sobre tela feito em 1894-95.

Ficaste assim adormecido
Em negro silêncio
Fundo animal ainda a palpitar
Enquanto o meu corpo descansa
Desse imenso velejar

Deitaste à terra a semente
E por lá ficou a germinar
Aninhou-se no casulo
De mil fios a tecer
Num vai e vêm sem parar
Acabou por perecer
Não sem antes ter gritado
Não sem antes ter vibrado
Erguendo as mãos para o céu
Para finalmente acabar
Num espasmo cor de bréu.

18 janeiro 2011

Tempestade

Sempre presente esta dor
insólita mistura ondulante
recordação poente
Misto de prazer evocado
em corpo perdido de amante

Um latejar latente
Uma solidão que invade
Na linha do horizonte
Avança sobre mim como a noite
Cai sobre o vasto poente
E não há estrela a brilhar
Que consiga por um instante
Essa memória apagar.
Obsessão surda que me possuí
Sem saber para onde ir.
Espero dia após dia
Que o tempo apague e me cale
Este delirio febril.
São assim as minhas noites
Toldadas e decadentes
Braseiro a arder na bruma
Ondas e ondas ao longe
vagas de mar sem espuma.

O Desejo

Abel-Dominique Boyé - 1864
Há uma outra em ti que te viveu,
Que te consome ainda,
Que te ocupa cada espaço,
Cada pedaço de existência
Que te deixou nostalgia, amarga
recordação,
Que secou no teu peito
O bater do coração.
Que ciúmes sinto eu, dessa outra
com quem viveste as noites quentes
de verão, o riso do sol a bater na vidraça
A luz do luar a bater no chão.
Esse chão onde se amaram em momentos infinitos
Sempre e até à exaustão.
Agora resta-me esta garra de águia presa na garganta
A sufocar-me , a calar-me, e a dizer-me não!
Já não há sorrisos no olhar,
A cidade já não canta
E o teu perfume está distante
Já nem o posso cheirar, proibida como estou
De assim te poder amar.

Faz-me tanta impressão olhar para aquele retrato
E ver-te aprisionado às memórias do que foste
Aprisionado de facto.
Que será feito de ti? Onde te escondes agora?
Atrás desse vidro frio que guarda vigilante
As memórias de outrora?
Deixa-me tocar-te um pouco, apaziguar o desejo
Quebrar essa moldura, rasgá-la em mil pedaços
Mandá-la prá sepultura,
É lá que ela deve estar, onde estão as coisas mortas.
Sai da fotografia e vive, antes que seja tarde,
e a morte nos abra a porta.
Há em mim ainda um leve restolhar de natureza
Uma espécie de terra molhada e ardente
Coberta de folhas de Outono
À espera da Primavera para fecundar a semente
Um chão sagrado pela dor
Um campo imenso a perder de vista,
Lá longe no horizonte estás tu e ela...
Sempre ela a chamar por ti
E tu a peregrinares, sozinho pela terra imensa
À procura do que foste, corcel em trote
à desfilada, na procura, do corpo dela
Dedos de veludo ânsia de doce desvario,
E eu adivinho, quase que pressinto
Nas tuas mãos que me acenam de longe,
Um triste fim de silêncio e frio.

08 janeiro 2011

Violões e cordas de ouro e guitarrinhas de prata

"A Tocadora de Alaúde", obra barroca pintada a óleo pelo italiano Orazio Gentileschi (1563 - 1639)


Enlaça-me com a corda do violino,
dá a volta e faz um nó
Um nó cego sem ter volta
Arrasta-me pelo chão,
Num apertar convulsivo
Toca-me, faz-me subir
Nesse teu tom compassivo
Rasga-me o peito com o arco
Como se de uma seta acutilante
Fino ariel, estilete
Me deixasse suplicante
E volta, uma vez mais e outra
E ainda e só mais uma volta
Sobram só mais duas cordas
Que cruzadas no meu peito
Fazem do meu coração
Um boomerang perfeito
Atira-o para bem longe
Que não volte nunca mais
Ao solitário leito.

Pausa


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05 janeiro 2011

Fadário -


Deixei-te à pouco, entre fios delgados de saudade, à mistura com a chuva
A única que me toca com piedade.
Entre mim e aquele sem-abrigo ali deitado, na escadaria esfarrapado,
pouca diferença haverá, ambos perdemos a alma , ambos a viver a vida
Por detrás do arame farpado.
Que perdoem os que  estiveram lá,  no campo de concentração,
Algures um qualquer sitio degredado
Há por detrás das grades muito mais ânsia de liberdade quando o espírito voa
Mesmo desalmado
Do que estando eu em campo livre, aberto, cheio de sol ou luar,
Mas não conseguindo despir  esta tristeza que me aprisiona
E me conduz a este fado, a este meu infinito pesar.

31 dezembro 2010

Homem do Leme - Xutos e Pontapés


http://olhares.aeiou.pt/st_foto3090447.html

Sozinho na noite
um barco ruma para onde vai.
Uma luz no escuro brilha a direito
ofusca as demais.

E mais que uma onda, mais que uma maré...
Tentaram prendê-lo impor-lhe uma fé...
Mas, vogando à vontade, rompendo a saudade,
vai quem já nada teme, vai o homem do leme...

E uma vontade de rir nasce do fundo do ser.
E uma vontade de ir, correr o mundo e partir,
a vida é sempre a perder...

No fundo do mar
jazem os outros, os que lá ficaram.
Em dias cinzentos
descanso eterno lá encontraram.

E mais que uma onda, mais que uma maré...
Tentaram prendê-lo, impor-lhe uma fé...
Mas, vogando à vontade, rompendo a saudade,
vai quem já nada teme, vai o homem do leme...

E uma vontade de rir nasce do fundo do ser.
E uma vontade de ir, correr o mundo e partir,
a vida é sempre a perder...

No fundo horizonte
sopra o murmúrio para onde vai.
No fundo do tempo
foge o futuro, é tarde demais...

E uma vontade de rir nasce do fundo do ser.
E uma vontade de ir, correr o mundo e partir,
a vida é sempre a perder...

16 dezembro 2010

O nome das palavras

        
   








A Criação do Mundo - Michelangelo
No inicio, ou deveria dizer no principio, ( e porque nem todos os princípios são inicios) deram-me um nome estranho, não sabia eu naquela altura o que significava ter nome, fui aprendendo ao longo da vida , primeiro as letras e, depois sim, eis que um dia dei por mim a escrever o meu nome. Então sonhei!
       Foi aí que aprendi de facto a sonhar. Estava orgulhosa do meu nome, e muito mais do que isso, orgulhosa de  saber e poder escrever o nome de todas as coisas e de todas as pessoas.
      Imaginei assim um universo justo, onde tudo era realmente o que parecia. Nada como a mulher de César, que  na altura nem conhecia. Hoje continuo a não saber quem verdadeiramente  foi Pompeia Sula, não só porque já partiu, passou a fronteira para um outro espaço , sei lá eu bem onde , quimera, ilusão, oceano de infinitas finitudes. Sei apenas que se deveria sentia sozinha.  Mas agora  não me interessa nada disso! Tantos outros depois dela já partiram, e falta muito pouco para também eu deixar este lugar onde aprendi a escrever  o meu nome. Tenho cá uma ideia que, possivelmente,  até irei conhecer a mulher de César e outras mais que aguardam por mim.
      Encontrei na poesia a nascente de uma água cristalina, rio de palavras a escoarem-se em tumulto, chegando  doridas à foz; muitos  de vós poderão nunca entender, isto apesar de saberem ler e escrever os vossos nomes. Nunca me compreenderão, porque não basta saber escrever, é preciso sentir também o que se escreve, e é só sentindo através das palavras que nos escorrem lestas da mão que conseguireis provar ao mundo o facto de estardes  vivos, que não morrestes ainda. Muitos dir-me-ão que não precisam de provar nada ao mundo! Mentira! – respondo eu irada - sabendo que todos nós precisamos de provar, quanto mais não seja que estamos vivos. E não me venham dizer que só têm de provar a vós próprios o motivo da vossa existência. Isolados e sós dos outros nenhum de nós existe ! Fenecemos qual vegetal  na horta, sem o precioso líquido que nos encharca as raízes e alimenta o caule.
      Outros há, que nasceram e foram morrendo devagar, aos poucos, com um travo amargo a escorrer pelas comissuras dos lábios. Acontece a esses tais que produzem uma escrita surda, oca, desprovida de recheio. Não escrevo para carpir mágoas, escrevo porque aprendi no meu nome o sabor de uma causa maior, provar a mim mesma que afinal o Amor também pode existir a partir de  mim  só - sem a necessidade premente de correspondência.
     Um segredo compartilhado : - Amar é na sua essência querer o bem –estar do Outro, ainda que dentro de nós o caos se instale como se  um furacão  invadisse amiúde, é  no entanto, a oportunidade suprema de nos superarmos a nós próprios e de honrarmos o nome que aprendemos cedo a escrever.
Quando cada um de nós  se supera a si próprio consegue atingir desígnios divinos, homenageando o principio do Verbo.

14 dezembro 2010

V Império



Ousei sonhar-te um dia
D.Sebastião envolto em bruma
Mal sabia eu , que não mais
Sairias  da penumbra!
Por mais interstícios de sol
Que no arrabalde doirem
Os cachos de uvas negras
Transformando-as em néctar
Nunca  ó rei poderás substituir
Esse calor , espécie de alquimia
Que a tudo empresta a cor
O mel e o poder  esvair-se
Bago a bago
Nesta dor.

Quem ousou cometer tamanho crime
De te esconder de ti
Como não arranjaste  caminho
Para poderes chegar aqui?
Chamar-te-ás Sebastião, outro
nome , todos os nomes
Que caibam neste canto
Reino da saudade
quinto do Império
Que virá um dia
Em glória
Erguer da bruma
Os que se foram libertando
De todos os impérios
Terrenos, imperiosos
No sentir das gentes
Que sol a sol
Ousaram porfiar
Cegaram um dia
De olhos postos no mar
Ainda hoje lá estão
Transmutados no velho
do Restelo guardando a entrada da barra
qual comandante na proa
qual tocador com mestria
nas cordas de uma guitarra
que vai tangendo na dor
profecias de Bandarra!







12 dezembro 2010

Dança - Berlioz


Espécie de vendaval, esta ária
Que me cerca, que me envolve
Num trote rápido,  certeiro
Dispara as semi-colcheias
Com mestria de arqueiro.
Lá do escuro correm céleres
Em catadupa assertiva
O mi , o sol e o dó
Em escala repetitiva
É desfile, tropel
Folhas em furacão
Vem o maestro e acena
Joga as folhas no chão
Tubas! Clarins
Rufam ainda os tambores
Ouve-se a vassourinha
A varrer os seus amores
Ritmo, pausa, silêncio
Ratatatata, tão tão
Partitura a voar
Semi-colcheias no chão.
De novo eis que se solta
Lá do fundo um passo leve
Primeiro um, depois outro
Sapatilha de cetim, enlaçada
Na passada, tábua corrida
Pax-de-deux
bailarina
em passo de  bela-adormecida.
Mas onde estará o príncipe?
Vamos todas procurar, ali na densa floresta
onde as feras nos espreitam, corram meninas
corram, ao som deste cavalgar
lá vêm a fada madrinha
a todas nos irá salvar.
Cuidado com o lobo mau
e todo o seu salivar
dentes de frio marmore
que nos querem trucidar
e o som....oiçam....
lá do cimo, céu azul...
a corda do violino
a enviar o sinal
rasgam-se os horizontes
e da cortina de núvens
em salto descomunal
Vem o rei do reino perdido
montado no seu cavalo
ao fundo ouve-se um bramido
O Bem a vencer o Mal .










10 dezembro 2010

Ausências

O Beijo”, do austríaco Gustav Klimt
Tenho ficado à espera
Daquele teu beijo
Que não veio.
Já cansada das ruas
Das casas vazias
Cansada dos motivos
Sem razão aparente
Sempre a continuar
E desde ontem que
Estou assim cheia
Deste vazio
Acalentei-o tão doce
A pensar no beijo
Sei lá , fosse como fosse!
Não chegou a vir.
E porque há coisas
Que os outros não sabem,
Nem ousam saber
Ignoram apenas
Todo este querer.
E fiquei à espera
Olhando o caminho
Ainda a percorrer.
Quem me dera que fosse
Sei lá, como é !
Andam para aí a dizer
Que o caminho se faz
Caminhando,
Mas quem não têm pernas
Como faz para andar?
E quem não têm boca?
Como vai beijar?
Todo este caminho
E ainda falta tanto
tempo, espaço
A preencher
Vida para trilhar.
Tenho ficado à espera
Daquele teu beijo
Que não veio.
Sobra o cansaço
Esta ausência imensa
Do não partilhar.
E quem não tem boca?
Como vai beijar?