19 outubro 2010

Fórmula Secreta

Terei eu alguma vez ofendido a morte
Que foge de mim deste modo?
Insiste a vida em apostar
Neste sopro, réstea de fulgor
De inspiração
Se expiro é porque vivo e sinto
Ainda o bater do coração
Máquina que me consome oxigénio
E me faz rolar em auto-estrada.
Lá atrás fica o risco branco
Marca indelével da ofensa
Que faz com que fujas de mim
E me obrigues a viver.

Nas bermas amontoam-se agora
Pedaços de gente que nunca nada ofendeu
Nem tão pouco a morte.
Esta,  tratou de as levar , célere.
Enfeitam-se  com frios pedaços
De mármore, por cima das almas
Encaixotadas em branco e negro.

Ah! Mas o sol brilha em fiapos de ouro quente
Eu sinto que as minhas pálpebras  se fecham
Com doçura,
É tão bom sentir-te no meu corpo!
Cadência de inspirar e expirar, lenta
Morna,
Esta sensação de estar bem comigo e contigo
Saindo de mim, aprendi a dar-me.
E não espero nada  - fórmula secreta - 
Da vida, que ela não me queira dar.

18 outubro 2010

Declaração

"Porque os versos não são, como as gentes pensam, sentimentos ( esses têm-se cedo bastante), - são experiências. Por amor de um verso têm que se ver muitas cidades, homens e coisas, têm que se conhecer os animais, têm que se sentir como as aves voam e que se saber o gesto com que as flores se abrem de manhã. " (...) in Os Cadernos de Malte Lauris Brigge, Rainer Maria Rilke, pref e versão portuguesa de Paulo Quintela, 1955, Coimbra. 
Certifico que todas as palavras aqui escritas
Foram antes testadas,
Mesmo que a rima não rime
Que fique despedaçada
Em cada palavra que escrevo
Existe por detrás dela
A consciência plena
De um punhado de vontade
Que luta e sente
Sofre , e se dá
Em cada hora de vida
Por si própria e pelos outros
Que deixam ficar o rasto
Nas palavras aqui escritas
Certificando-me a vida
Por entre alegria e desditas
Das tais palavras que aqui deixo
Assim deste modo escritas

Alma

Alguém ontem  me disse
Que gostava mais da minha alma
D’outrora.
Fiquei a meditar, sem saber que responder
A minha alma mudou-se?
Ou mudou?
Assim como se não sente a morte
Quando vem
Alguém me matou a alma
E eu não dei por nada?
Ainda me vejo ao espelho.
Ainda lá estou.
Mas a minha alma, essa...
Nem a respiração lhe adivinho
Queria tanto ter os teus olhos aqui
Sem ter que perder os meus.
Talvez  assim a poesia fizesse sentido
E a alma não se perdesse
Num espelho embaciado de gelo.

16 outubro 2010

Constelações
















Fizera com que ela se Imaginasse  com corpo de animal . Há seres brutos e há criaturas brutalizadas. Existem animais e bestas. Seres humanos bestiais, sem conotação positiva e animais humanizados. Ele tinha alturas em que se bestializava de tal forma que só lhe apetecia a ela socar até à exaustão as estrelas das Híades distribuídas em forma de V e que representavam o seu nariz .
Respirou fundo, colocou no prato do cd o concerto nº2 para piano, de Chopin, esta era com certeza uma boa opção, o único bálsamo possível para tentar esquecer quem,  em tom inconsequente,  lhe dizia que a espicaçava, sem ela compreender o porquê de tamanha sorte. Sentia as farpas cravadas no dorso. Nesse momento tinha abandonado a postura de canino fiel e submisso e sentia uma estranha revolta a invadir-lhe a mente.
Na sua imaginação desferiu-lhe um golpe directamente na Aldebaran, ignorava onde ficava a outra estrela, aliás nunca tinha conseguido ver o animal em toda a sua plenitude. Sabia que estava obliterado, seccionado, cortado em partes e , tal como uma vulgar sardanisca, regenerava parte da cauda, sempre que lha cortavam. Mas não tinha coração! Estranha besta esta que possuía no alto da sua cabeça um objecto chifrudo, feito de consecutivas calcificações que dava pelo nome de Alnath tinha-a  este atingido no ponto mais vital do seu ser, estava pronta a morrer mal viessem as primeiras chuvas, emprestaria o seu corpo ao rio e seguiria margens abaixo, nem chegaria a esperar pelo equinócio da Primavera.
Decidiu enrolar-se me si própria e ficar sozinha a chorar a desdita, afinal ninguém era digno de possuir o melhor que dentro dela existia.  Os capotes abandonados na arena ensanguentados de tanta luta eram bem o exemplo que o homem não compreendia  o sofrimento que causava ao seu redor; egoísta criatura criava barreiras, e sempre que pressagiava o perigo, refugiava-se atrás de meia dúzia de tábuas de madeira.
Mas pior do que isto era a ilusão…a transferência de emoções e sentimentos para outros animais que nem sequer eram do seu clã. Ela sabia, afinal como mulher que ainda aparentava ser, que o que restava de Aldebaran, apenas se dirigia para outras constelações…lamentável…mas é assim a vida planetária de certas bestas que por cá proliferam.

15 outubro 2010

Trindades

Tu és o mistério de nós dois
Que me condicionas a ser
Existindo neste excesso
Que me vai fazer perder
Esta estranha loucura
Da forma como me sinto
Vou morrendo entediada.
Vendo deslizar as sombras
Em cada dia que finda
e as tardes ensolaradas
Que se vão tão lentamente
Vestindo  de anoitecer.


14 outubro 2010

Coisas simples

Quando alguém como eu é confrontado com o branco de uma folha de papel, sente, mesmo sem querer, a responsabilidade de a impregnar de vida. E porque nas palavras existe vida. Letra a  letra, mau grado a comparação, funciona aqui a caneta, ou o teclado, como uma estranha agulha que norteia e vai bordando com delicadeza. O trabalho final que se pretende pode resultar bem, o inverso também poderá acontecer.
É das teias da alma, das vivências, do caminho percorrido que vamos buscar o fio condutor, poderá ser material singelo, ou ( ocorre-me agora)  fio de ouro ou prata tal como aquele com que antigamente se bordavam os paramentos. Resultava sempre bem, belas peças de arte que ficaram religiosamente guardadas  nos arcazes das sacristias.
Pois tal como esses delicados paramentos, existem aqui ideias bordadas , gravadas nas mais diversas cores e que correspondem a emoções e sentimentos que guardamos na nossa matriz como seres humanos.
Hoje quero falar de gestos simples. Quero sobretudo agradecer desta forma um testemunho de amizade singela que me chegou de terras de Alcobaça, uma espécie de sinal, quem sabe um emissário de Pedro e Inês para que eu não esmoreça, que por muito que a vida seja escrita com fio de burel, haverá sempre quem nos traga uma encomenda de novelos da mais pura seda para que possamos trabalhar as letras e as palavras dessa forma quase acetinada.
Desta forma, ergo em cadinho de cristal, um delicioso néctar  que me embalou docemente  pela tarde fora,  compartilho o sorriso e as palavras, que teci com amizade, agradeço ao emissário e desejo, mais diria, antes sonho, que um dia  consiga eu bordar na folha singela de um livro o meu obrigada pela força que me transmitiu.
Nem sempre a vida faz sentido, outras sim. Gestos simples, como tal perfeitos e isentos,  são gratificantes  para quem dá e para quem recebe. Aqui fica,  não o equivalente a um lenço de namorados, mas a uma alva toalha de chá, repleta de finas iguarias, chávenas de porcelana, e bolinhos de gengibre e canela .
Obrigada Petrarca

12 outubro 2010

As tuas mãos















Olho-te sem que tu saibas
Esses rios azulados
Que passam  nas tuas mãos
Pedaços de vida marcados
Gosto de me demorar
Baixinho
Sem que tu saibas
Os meus olhos
Nessas marcas
Que tanto queria tocar
Crescem-me os olhos
A alma
A dor
O silêncio que já guardo
De te amar em desamor
Subo ainda um pouco mais
E vai pairar  meu olhar
Como águia no espaço
Na curva do teu pescoço
No desenho que aí fica
Imaginário perdido
De me deixares aninhar
Num desejo sem sentido.
Volto triste deste dia
Sempre que a tarde cai
Fico-me assim rendida
Sem poder soltar um ai.

11 outubro 2010

Diga bom dia com....SICAL

Este mundo é, de facto, um mundo de contrastes. Diariamente constato tal facto.
Eis aqui um exemplo por mim presenciado; poderia ser um simples acto isolado, mas acontece deste modo que vos relato  nas mais variadas circunstâncias, em diversas escalas e níveis, no tempo e no espaço.
Estamos em crise, crise de valores, crise financeira, crise...crise...crise; mas não para todos!
A REDEESPAÇO, S.A, é a designação comercial para os quiosques que publicitam e vendem a conhecida marca de café SICAL onde, todos os dias  passo a determinada hora para tomar o meu café acompanhado do folhado de Chaves – pequenos vícios que me insuflam um pouco de energia pela manhã. Muitos dias, muitos meses a frequentar o mesmo local e acaba-se sempre por ter algum convívio com os empregados do estabelecimento em questão. Eu gostava de ser atendida pelo  Igor, um brasileiro de 18 anos , sempre alegre e bem disposto que sabia já de antemão qual o meu gosto ao entrar no referido espaço. Pois o Igor foi transferido para uma outra dependência , parece que do Campo Grande. De quando em vez fazem rotação dos funcionários, não sei se será para não criarem “maus” vícios, não cheguei de facto a entender. Mas vou amiúde observando , neste meu exercício rotineiro, quase tudo o que me rodeia.
Hoje pela manhã vi, com alguma discrição, não fosse o meu olhar atento, um tabuleiro de bolos e outros géneros destinados ao  consumo alimentar a irem para o lixo! Fiquei atónita e questionei, mas será que vão mesmo para o lixo??? Numa época de crise, de pobreza envergonhada, de fome que a cada dia que passa mais se faz sentir, existe por aí tanta gente que de bom grado aceitaria as ditas sobras . Quantas crianças vão de manhã para a escola sem um único pedaço de pão no estômago? Quantos velhos estão em casa apenas com uma magra côdea e um café aguado?
Desperdiça-se comida desta maneira, nem os próprios empregados a podem levar para casa, tudo ali é racionado, que eu bem vejo, a sopa tem determinada medida para ser servida ao cliente, mas se...no final do dia sobrar...deita-se fora!!
Então é assim, deste modo,  que nunca chegaremos a uma sociedade equilibrada, seja de consumo ou não! É este mais um exemplo, a uma pequena escala, de desaproveitamento dos bens e dos recursos à disposição , não equitativa, do ser humano. Não me refiro aqui à fome em África, á guerra no Iraque, aos desequilíbrios gerados pelo Homem, não preciso de sair muito fora de portas, basta estar atento e perceber que nós somos os maiores predadores existentes à superfície do planeta, Até se justificaria se, apenas matássemos para comer; mas não – matamos por prazer e desrespeitamos tudo e todos ao nosso redor. A cada dia que passa,  desaparece mais e mais a noção de que os valores e princípios são essenciais para uma melhor qualidade de vida. Seja numa loja da SICAL, seja em outro qualquer espaço, vale tudo menos tirar olhos!

30 setembro 2010

Retratos de Lisboa

Tardes lisboetas na zona da Baixa são um pouco o espelho da Nação. Largo de S.Domingos pejado de estudantes caloiros em praxes sem sentido, embriagados em sonhos e copos de ginginha, à mistura com emigrantes oriundos das sete partidas do mundo. Estes últimos transaccionam de tudo um pouco, (passaportes,  diamantes,  telemóveis e cartões furtados,) ao incauto que por ai se movimenta. O sol vai bafejando estas gentes, tornando-lhes a vida menos penosa, não obstante a dívida externa que diariamente aumenta,  em cerca de 100 euros por cada português aqui nascido e criado.
Chega-me  os sons da rua das Portas de Santo Antão, um grupo de quatro cabo-verdianos toca e encanta os passantes com mornas que adoçam a pedra da calçada à portuguesa; desta feita o mais jovem, filho de um dos elementos do grupo,  uns 4 anos  de existência, marca o ritmo e ginga ao som do batuque. Não deixo de sentir ternura e sorrio ao ver ao a sua espontaneidade de criança, num mundo de adultos sem  nexo aparente. No entrada  de certa instituição das redondezas, sentados nos degraus de pedra , em amena cavaqueira decorre a  conversa entre vários elementos: um "segurança", o vendedor  de castanhas  e  gelados,  (embora no mês de Setembro intercale com férias, fruto da mudança de estação, não demorará a chegada de Outubro e o cheiro da dita castanha assada), juntam-se-lhe o motorista do edifício ao lado, o construtor civil e o empregado de mesa que saiu às quatro da tarde – falam de futebol e da politiquice rafeira.
Alguns turistas  imobilizam-se em    frente ao estabelecimento da  ginginha das Portas de Santo Antão, num círculo alargado,  copo de plástico na mão, assistem atentos ao concerto improvisado distingue-se o som de “Angoláaaaa.... angoláaa”. Melodias plenas de nostalgia, alguns, parcos euros caiem nas caixas das violas, onde uma t-shirt aberta com os dizeres “Cabo Verde” convida a deixar o  contributo.
As esplanadas estão cheias de gente ociosa, desfrutando não sei que belezas arquitectónicas citadinas,  porque esta mesma  cidade continua  decrépita e suja.
Deambulando pelo Largo de S. Domingos, cruzamo-nos com gentes ligadas ao debate público, uma espécie de “Corredor do Poder” popular,  de microfone na mão com a finalidade de convidar a população a participar e a dizer de sua justiça  apresentando ideias e sugestões para melhorar a vida política do País;  há mendigos dormindo placidamente um sono que seria de justos, não fosse as injustiças da vida, obrigando a  que qualquer pedaço de chão sirva de leito.
E existem os pombos às centenas, sobrevoando tudo e todos em busca de cada migalha milimétrica, fazendo uma guerra silenciosa com os pardais da cidade.
Dia após dia a cidade vai sobrevivendo, um marulhar imenso de gentes que  entra e sai para trabalhar. A Praça D.Pedro IV , por volta das sete da noite começa a ficar vazia e à noite as ruas da Baixa tornam-se isoladas e perigosas,  abrigo de marginais, toxicodependentes  e sem-abrigo que todos os dias aumentam por aqui.Também deste lado do Rossio um grupo de músicos da América-Latina costuma animar as tardes, em frente à entrada da estação do Metropolitano, findando a tarde, fazem as malas e carregam a carrinha para outras paragens.  São estes alguns dos muitos retratos de Lisboa.

29 setembro 2010

Formigas








O Metro já não é só o que era. A tradição também o não é. Nem Bruxelas é apenas uma couve, nem o metro é apenas uma unidade de comprimento.
Aliás ocorre-me dizer que são várias unidades de comprimento, neste caso estandardizado,   ligadas entre si, imagino que por uma espécie de ganchos que encaixam uns nos outros. Quem movimenta todas estas unidades é o maquinista, espécie de toupeira que saí em de x em x tempo à luz do dia para carregar as baterias.
Mas não quero falar nem das toupeiras, mas  sim,  do carreiro de formigas, animais diligentes e que a maior parte da espécie humana decidiu imitar a nível comportamental.
Assusta-me a formatação a que assisto diariamente, transformamo-nos em formigas no carreiro, num vai e vêm constante; socialmente não interagem, mas multiplicam-se em centenas de conversas abstractas através de pequenos aparelhómetros que os colocam , aparentemente, em contacto com outras formigas do clã. É esta a sociedade que o homem moderno criou: rotinas diárias através de trilhos que, observados com um certo distanciamento,  me levam a pensar que a passos largos nos afastamos do equilíbrio natural,  e do meio onde durante milhões de anos,  evoluímos, rumo a um futuro cada vez mais escravizante.
Poucas crianças se vêem no Metro, muitos imigrantes das mais diversas origens, uma amálgama de chineses, paquistaneses, indianos, negros e ciganos – sem qualquer ordem discriminatória – para além disso uma classe média, enfraquecida, derrotada, tristemente empobrecida e envelhecendo precocemente .
Obedecemos a sinais sonoros em curto espaço de tempo, respondemos ao estímulo do abrir e fechar portas; já não existem revisores e sim fiscais, que com ar ameaçador nos fazem frente em alturas inesperadas pedindo-nos o santo e a senha para continuar no carreiro das formigas. Tudo isto é vagamente Kafkiano, sociedade civil em mutação. Um dia acordamos prisioneiros de nós mesmos,  feras de circo destinado a meia dúzia de privilegiados. Longe vai o tempo dos cristãos atirados às feras. No presente momento cada um de nós é uma pequena fera encarcerada no corpo de uma formiga. Muitas juntas poderiam devorar o sistema!
Hoje vi um adolescente a cantar sozinho, acho que treinava para ir aos Ídolos, tal era a cantoria, em redor algumas formigas riam cochichavam entre membros da tribo. Hoje também vi alguém de olhos vazios perdidos sabe-se lá onde. Velhos exóticos, adultos fora de moda, trajes feios e sem qualquer gosto. Não existem aromas de conhecidas marcas de perfume. No Metro há uma atmosfera pesada e suja.
Gosto apenas de sair e entrar na estação do Saldanha, onde corre uma ligeira brisa através das palavras do Mestre Almada Negreiros, autor das restantes frases espalhadas nos painéis da estação  “Em mim se cruzaram finalmente  todos os lados da terra”que pode continuar a ler-se, no poema Rosa dos Ventos.  

23 setembro 2010

Outono

Tarde mansa de Outono. O  casario de paredes caiadas de branco a ferir a vista. Os murmúrios das gentes a povoar a cidade. Um risco de som na atmosfera. Calmaria imensa. A paz, a pacatez de um sítio onde a cada passo se nasce e se morre.
O céu coberto de pequenas nuvens de algodão. Tudo parece feito de equilíbrio.
Até o som do berbequim algures ecoa em mim  sons meus velhos conhecidos. Trazem-me o aroma dos pomares carregados de fruta madura, dos fios de água a passar na horta, cheiro de terra molhada, o zumbir das abelhas, a quinta do velho senhor que acumulava embalagens vazias ao monte. No velho solar havia uma janela que dava para o tanque onde nadavam carpas gigantes à mistura com enguias, também ali as gentes da aldeia lavavam alguma roupa, tendo por sombra os lilases que se esboroavam lentamente à medida que o verão avançava. Tardes mansas, tão diferentes das de agora. Hoje já não sou a criança de tranças negras que tecia sonhos imensos. Os contos de fadas tem uma época na nossa vida que nos fazem sentir que o mundo inteiro nasceu para nós; está ali inteiro,  apenas à espera que lhe estendamos a  mão para o tornar nosso. Uma brisa do tamanho do sobro de asas de borboleta invade-me, pequenos frios, pequenos medos. Como será o amanhã?
Recordo o aroma das uvas maduras,  formigas polvilhando o solo seco e arenoso. Ao longe o imenso brilho da prata convidava-me a adormecer na areia, sonhava eu com uma cidade assim, como a de hoje. Não contei foi com o golpe de asas e o desvio de rota das andorinhas. Há muito que partiram e levaram a minha alma com elas.

Aço

Sentindo o  aço frio da faca, da navalha, da adaga, escolho qual dos instrumentos quero.
Um deles será temperado de modo diferente,  cavando profundo sulco de agonia. Instante decisivo entre vida e morte. Pergunto-me porque é a vida tão frágil, que depende assim de uma lâmina pequena e afiada. Fronteira ténue entre o grito e o gesto. A  mão é uma arma, constato. ( também a palavra, dizem outros). Em tempo contado, certo mesmo, acrescento,  nasci humana, e  uma vez mais, o fino estilete me libertou da morte e para a vida! Seria possível nascer eu, apenas se me abocanhasses que nem animal ferido? Rasgar-me-ias nesse instante. Talvez mais valesse tal modo? Pergunto-me! Estrangular-me-ias?
Desde aí passei a gritar, oscilando entre o silêncio e o murmúrio das vagas alteradas; há quem lhe chame muitas coisas, mas o seu nome acaba por nunca ser um nome, nem tão pouco lhe chamo de ninguém.
Só eu continuo aqui a sentir-me dia a dia mais surda aos apelos, aos chamamentos ignóbeis dos outros que desejam lacerar sem o convencional frio do aço. Matem-me! Mas façam isso rápido, como quem corta o cordão umbilical; façam-me soltar o grito novo, que me insufle  uma alma inteira. A vida , essa já a conheço. Façam com que renasça na morte! É pedir muito?
Fino bisturi este que me modela o corpo, passeia-se docemente neste invólucro tépido.
Eras tu que ousavas, pobre louco, desfazer a minha vida em ti?
Muitos são os que em jeito de desgraça iminente, ousam sonhar com as certezas – lembra-te agora que os rios continuam a correr indiferentes à agonia da terra.
Assim eu vejo-te como um rio, estreita linha de água, aço destemperado sob a minha realidade que se escoa.
Vai, segue, desagua na linfa e faz-me espraiar numa imensidão de vermelhos rubis a mancharem a tua vã consciência.   

21 setembro 2010

Encanto

Não me deixaria eu desencantar se encanto não houvesse.
Quando deixar de acreditar no encanto, desencantar-me-ei. Este estranho movimento de vai-e-vem constante, se existe é porque assim sinto, entre cálculos menos certos que me vão preenchendo a soma dos meus dias. Cresço agora a um ritmo diferente, já não sou a pequena célula que luta para se multiplicar, faço de mim o possível para que dos teus gestos nasça um poema, único fruto deste despojo que é o amor.
És carne e anjo que alvoroça e alvorece  em frémito dentro deste profundo poço onde eclode o raio de luz nocturna.
E assim me vou encantando, à tua espera. Sempre!

20 setembro 2010

Desde ontem que já morri e renasci mil vezes. Neste dia em que me espero encontrar, perco-me sempre que me procuro. Andam meus olhos vendados, mal nasce o sol adormeço cega do brilho de tanta luz laranja.
Ontem eu não queria mais viver e pensei  que o melhor era mesmo fechar a cortina e deixar os outros continuarem sem mim. A vida é um eterno equívoco, metamorfose de embrião em crisálida, seguindo-se-lhe o nascimento da bela borboleta que vai fenecer breve.
Enquanto vou voando, olho aqui de cima, deste tapete  de pólen – não estás em lugar algum, tudo perece menos as ondas do oceano que  vão submergir o colorido veludo das minhas asas.
Como consigo eu possuir-te sem que te dês? Algures, nesta meia-fusão já não sei se sou eu, ou se és tu que existes.
Outros voos amanhã realizarei; serás um pedaço de tudo, carlinga, nuvem, açor, talvez até parte de mim que não sei se também existo.
E no céu, riscado de branco, passa um super sónico que agarro com a ponta dos dedos. Efémero como tudo o mais!

18 setembro 2010

Meu menino de oiro vieste até mim .

O meu amor por ti manter-se-à para além da vida e da morte - Imutável porque és parte de mim, enquanto um de nós existir, nenhum dos dois morrerá e por que tu vieste... em Setembro aninhar-te no meu coração.

17 setembro 2010

Palavras aradas

Este cansaço de tudo
esta vida tão sem rumo
este arado com que lavro
o pensamento soturno.
Porquê, perguntar-me-ão?
Nem eu vos sei responder
Apenas vou lavrando  terra
para a semente crescer.
Algures em alforge escondido
guardo um pouco de alento
quando chegar a primavera
deitarei por minhas  mãos
um pouco dessa ilusão
que a terra fará florescer.
E ganhar novo sentido.

06 setembro 2010

Pingo de mel

È  de manhã cedo, acordo com o alarido na rua.  Meto a cabeça de fora, pela pequena janela de guilhotina da cozinha. A porteira do prédio onde vivo, pensa que é dona da única figueira que existe no bairro, zela que nem cão feroz, receia que lhe roubem os figos pingo de mel que nascem durante o verão. Imagino que mal deve dormir de noite. Implico com esta figura de olhar sinistro, arredondada – como os figos -,  cabelos brancos, bata de cornucópias e chinela prateada no pé. Senta-se no banco do pequeno terraço e lê  revistas cor de rosa e azuis, outras manchadas de vermelho, falam por vezes da vida de outros figos.
Hoje de manhã decidiu embirrar com o homem que vende figos à entrada do centro comercial, este faz uma constante ronda pelas cercanias,  limpando as figueiras todas. Desta vez  apenas tinha colhido  meia dúzia de folhas da árvore. 
-         Para que quer você as folhas?
-         Ora! Para os figos ficarem mais apresentáveis, mais bem embalados, com estas folhinhas verdes , que lavo na casa de banho do centro comercial. As minhas freguesas gostam de olhar a mercadoria bem embalada.
-         Você anda-me mas é  a roubar os meus figos!!
-         Ó senhora!! Então não sabe que vou pela linha do caminho de ferro fora, quase até Braço de Prata, junto à linha, é daí que trago os figos madurinhos e bons.
     ( velha rabujenta)  - exclamou entre dentes, mas que eu ouvi,  e sorri interiormente, de cabeça esticada fora da janela de guilhotina da cozinha, enquanto observava a tentativa , desta vez gorada.
Passaram mais uns longos minutos e  assistindo eu ao combate pela posse dos frutos apetecíveis, era ver qual dos dois era mais manhoso. Já a dona da bata de cornucópias dizia que chamava a policia.
- Então chame! Os figos não são seus!
- Ó homem largue-me a porta!
Jurei que, só para chatear , nessa noite também eu iria aos figos!! Ao bater da meia-noite, eis me de prontidão, acompanhada pelo meu cão, fiel escudeiro e confidente das horas boas e menos boas, saquinho de plástico na mão. Deu-me um prazer enorme roubar os figos da porteira! Ainda bem que ela só lê revistas cor de rosa...

Marasmo

Já não sei de mim
Onde me perdi
Nesta réstia de saudade
Tanto enfado nas palavras
Que não saem a contento
Escorre-me negra a tinta
Da cor deste sentimento
Perdida me vou achando
No caminhar da pena
A fugir deste tormento
 Da ternura dos outros
Que observo em silêncio
Do toque que já não toco
Do grito que já não dou
De mulher bem comportada
Que não sente, que não tem
A quem roubaram a vida
E que não é de ninguém
Mais vale ficar calada!
Adormecer no marasmo
De viver esta existência
Com gritos mudos de pasmo.

02 setembro 2010

As palavras da Poesia










 



Calíope - Deusa da Poesia 

Quando aqui dentro me dói
Quando o silêncio me envolve
Num silêncio tumular
Peço baixinho ao anjo
Para a minha alma guardar.

Eis que nasce mais um dia
Num dourado alvorecer
Espaireço esta tristeza
Saudade que tenho tua
De nunca te poder ter.

Restam-me as palavras
Com que te estou a escrever
Faço delas a poesia
Com receio de algum dia
Poeta não vir a  ser.