11 setembro 2011
11 de Setembro de 2011
ADAGIO Per ARCHI
Partiram vidas, em bandos
Como se tivesse findado o verão
Tombaram libertas num sopro
De um desejo de vingança e ódio
E o vazio foi-se enchendo de saudade
Na paisagem desenhada de fantasmas
Do pai
Da mãe
Do filho
Do avô
Da avó
Dos primos
Dos amigos
E ficámos nós aqui….sós
tatuados na carne e na alma
o número da besta :11-09-2001
02 agosto 2011
Tempo
Arrasta-se o tempo dentro dele
Onde outrora não se arrastava
Vazio , oco , adiantado de
Tanto adiantar que atrasou
A parecer estar no futuro
E nem pelo presente passou.
Outrora existiu um tempo rápido
escapou-se de mim
Fugiu célere e nem sequer
Olhou para trás.
Já passou, está enterrado
Morto no passado
Lá para trás.
Mas eu vivo e sou a sonhar
E guardo para sempre
Esta memória tão fugaz.
Ainda se voltasses,
Conseguisse eu fazer andar
Todo este tempo
Ai se eu fosse capaz!
Eis-me estática, parada
A olhar o nada
A pensar que também
Esse nada não me satisfaz.
Se matar o tempo, mato-me
A mim, nesta espera
Que viva ainda me trás!
Onde outrora não se arrastava
Vazio , oco , adiantado de
Tanto adiantar que atrasou
A parecer estar no futuro
E nem pelo presente passou.
Outrora existiu um tempo rápido
escapou-se de mim
Fugiu célere e nem sequer
Olhou para trás.
Já passou, está enterrado
Morto no passado
Lá para trás.
Mas eu vivo e sou a sonhar
E guardo para sempre
Esta memória tão fugaz.
Ainda se voltasses,
Conseguisse eu fazer andar
Todo este tempo
Ai se eu fosse capaz!
Eis-me estática, parada
A olhar o nada
A pensar que também
Esse nada não me satisfaz.
Se matar o tempo, mato-me
A mim, nesta espera
Que viva ainda me trás!
19 julho 2011
Falência ( do Prazer e do Amor)
Um dia acordas estranhamente lúcido e percebes que tudo o que até aí viveste foi verdadeiramente a simbiose entre sonho e pesadelo; percebes que não viveste nada , que deixaste passar a vida adormecido.
E pensas que se te deixares adormecer novamente então é que morres para sempre. Tudo isso porque acordaste a recordar. Aos abrires os olhos prendeu-se –te o olhar na moldura em cima da cómoda, aquela que conseguiu captar em tempos passados uma imagem que no presente é fantasmagórica. Teimas em agarrar-te aos fantasmas, sentes-te um fantasma que deambula sozinho, iludes-te pensando que os outros olham para ti. Nem sequer te vêem. Vais andar em círculos, ou num vai e vem sem sentido, embora penses que há sentido no teu vai e vem.
Um dia tentas dar novo sentido à vida, queres acordar de uma vez por todas, mas não consegues, queres falar e ninguém te ouve; gritas e dizes : EU ESTOU AQUI.
Há um movimento à tua volta que não entendes, fios, estranhas máquinas, écrans esverdeados ligados a ti, como se fosses um SERVIDOR. Tu és um servidor, mas algures o hardware colapsou.
Voltas novamente ao sonho, tentas mexer uma qualquer extremidade do teu corpo e não consegues. Malditos fantasmas que te olham dentro da moldura. Maldita proibição interior que dá origem a esse bloqueio inultrapassável . E pensas.... ( nisto), como ele também pensou...
Ó horror metafísico de ti!
Sentido pelo instinto, não na mente!
Vil metafísica do horror da carne,
Medo do amor...
Entre o teu corpo e o meu desejo dele
Está o abismo de seres consciente;
Pudesse-te eu amar sem que existisses
E possuir-te sem que ali estivesses!
Ah, que hábito recluso de pensar
Tão desterra o animal que ousar não ouso
O que a [besta mais vil] do mundo vil
Obra por maquinismo.
Tanto fechei à chave, aos olhos de outros,
Quanto em mim é instinto, que não sei
Com que gestos ou modos revelar
Um só instinto meu a olhos que olhem ...
.....................................................................
Prosa de Arroba das Palavras, Poesia de Fernando Pessoa
E pensas que se te deixares adormecer novamente então é que morres para sempre. Tudo isso porque acordaste a recordar. Aos abrires os olhos prendeu-se –te o olhar na moldura em cima da cómoda, aquela que conseguiu captar em tempos passados uma imagem que no presente é fantasmagórica. Teimas em agarrar-te aos fantasmas, sentes-te um fantasma que deambula sozinho, iludes-te pensando que os outros olham para ti. Nem sequer te vêem. Vais andar em círculos, ou num vai e vem sem sentido, embora penses que há sentido no teu vai e vem.
Um dia tentas dar novo sentido à vida, queres acordar de uma vez por todas, mas não consegues, queres falar e ninguém te ouve; gritas e dizes : EU ESTOU AQUI.
Há um movimento à tua volta que não entendes, fios, estranhas máquinas, écrans esverdeados ligados a ti, como se fosses um SERVIDOR. Tu és um servidor, mas algures o hardware colapsou.
Voltas novamente ao sonho, tentas mexer uma qualquer extremidade do teu corpo e não consegues. Malditos fantasmas que te olham dentro da moldura. Maldita proibição interior que dá origem a esse bloqueio inultrapassável . E pensas.... ( nisto), como ele também pensou...
Ó horror metafísico de ti!
Sentido pelo instinto, não na mente!
Vil metafísica do horror da carne,
Medo do amor...
Entre o teu corpo e o meu desejo dele
Está o abismo de seres consciente;
Pudesse-te eu amar sem que existisses
E possuir-te sem que ali estivesses!
Ah, que hábito recluso de pensar
Tão desterra o animal que ousar não ouso
O que a [besta mais vil] do mundo vil
Obra por maquinismo.
Tanto fechei à chave, aos olhos de outros,
Quanto em mim é instinto, que não sei
Com que gestos ou modos revelar
Um só instinto meu a olhos que olhem ...
.....................................................................
Prosa de Arroba das Palavras, Poesia de Fernando Pessoa
13 julho 2011
Memória Olfactiva
Invertendo o sentido e tentando emprestar alguma utilidade prática à realidade com que era obrigada a coabitar e já depois de devidamente licenciada em solidão, estando num período de secura poética, decidiu aventurar-se a escrever algo específico sobre os mecanismos da memória olfactiva.
Em pleno processo de pesquisa, espalhou por cima da mesa vários frascos de água de colónia, perfumes e essências que guardava religiosamente.
Devagar, um a um, foi abrindo e sentindo. Tantas memórias que por ali estavam há anos aprisionadas: a colónia de criança, a água de perfume de adolescente, o perfume de mulher e...o seu perfume. O perfume dele, aquele que ela cheirava às escondidas quando entrava numa qualquer perfumaria e, um dia comprou, só para usar , em momentos de maior solidão, pensava ela que inevitavelmente sabendo que iria fazer um Mestrado em Solidão.
Rápida e certeira a reacção olfactiva assim intimamente ligada à memória dos cheiros trouxe-lhe o despertar da saudade de tempos passados e que foram fonte de enorme prazer.
Sorriu para si mesma quando lembrou que, às escondidas, lhe tinha roubado um cachecol e durante um tempo indeterminado adormecia abraçada a ele. Curioso como restava intacto aquele banco de memórias olfactivas que dava às suas emoções, impressões de prazer e de desprazer.
Lembrou do cheiro da colónia misturada no corpo dele. Sem querer, vislumbrou-o com aquele estranho sorriso que tão bem lhe conhecia e usava em ocasiões especiais a dizer-lhe: Hoje é o último dia em que somos um....amanhã seremos apenas tu e eu, o nós deixará de existir.
Sorriu contristada ao recordar a contragosto e decidiu-se por um café Blue Mountain, afinal as memórias não acabavam ali, e o cheirinho bom do café animou-a a prosseguir; já basta o que basta e uma semana de internamento com os odores do éter e todo aquele ambiente hospitalar levaram-na a dar outro valor à vida. Só faz falta quem quer viver. Quantos aromas de flores depositadas em redor de corpos cuja alma há muito já se foi.
E vida há só mesma uma: a minha que não a tua, que não a nossa.
05 julho 2011
Esperança
Rebentou a trovoada. Atrás da serra via ao longe os clarões a aproximarem-se rapidamente trazendo atrás de si uma chuva quente a descarregar, de supetão, naquele pedaço de mundo.
Dioniso tratou de guardar as cabras e abrigou-se debaixo do varandim a ver chover.
Gostava de chuva. Muito mais do que da chuva gostava mesmo de presenciar os raios, que se abatiam a esmo e queimavam sem dó nem piedade, cortando em dois os sobreiros centenários.
Fazia agora um ano que se tinha refugiado na povoação, aldeia quase desconhecida no mapa; ao principio tinha sido olhado com desconfiança mas agora as gentes do lugarejo sabiam da sua história e acarinhavam-no.
Corria no povoado que durante anos tinha estado apaixonado por uma criatura – eram os próprios habitantes que lhe chamavam assim – desprovida de alma, desprovida de coração, fria como as neves da Sibéria, egocêntrica e egoísta. Tinha-se dedicado de alma e coração, abnegadamente, sem nada exigir durante quase uma década; mas chegou um tempo, um momento muito preciso em que percebeu que a continuar aquela paixão corria o risco de se transformar num farrapo. Pensou com ponderação no assunto, tinha várias saídas: o suicídio ou matar a criatura que o sugava diariamente. Optou pela última. Reuniu todas as lembranças dela: as cartas, uma madeixa de cabelo castanho dourado, os retratos, os livros que ela escreveu, algumas roupas dispersas- procurou apagar todos os vestígios da sua presença na vida dele. Guardou tudo numa caixa de papelão e, num canto afastado e longe dos olhares indiscretos fez um auto de fé. De seguida ouviu um Te-Deum, chorou copiosamente, soluçou sozinho, arrancou de si todo o desamor que ela lhe tinha dado e decidiu-se a partir dali. Findados os preparativos, fechou a casa à chave e rumou o mais longe que conseguiu. Valia mais tomar conta de um rebanho de cabras do que aturar semelhante animal, quase que sentia os chifres a aguilhoá-lo, tal a dor e o aperto que sentia no peito. A saudade ainda o não tinha largado.
Sozinho debaixo do varandim rezou e pediu aos deuses para que um raio se abatesse sobre ele. Misturou a chuva com as suas próprias lágrimas e num gesto de desespero decidiu-se a entrar dentro do curral para abraçar uma pequena cria – a primeira que ele tinha ajudado a nascer. Prometeu a si próprio que aquela nunca seria sacrificada. Chamou-lhe Esperança.
25 junho 2011
Espelho Partido
Garota em rosa em frente ao espelho- autor desconhecido.
Pousou-lhe um gafanhoto de cor verde pálido em cima da página. Sacudiu-o com um estalar de dedos ágil, procurando acertar, sem contudo molestar. Um insecto, quase do tamanho de um alfinete de dama dos mais pequenos tinha o condão de lhe desviar o gesto e o pensamento.
Há quanto tempo estava ali, de olhar pousado no texto, revendo e revendo-se a si próprio, procurando descortinar vestígios para a lógica de procedimento do homem que estava por detrás da escrita que analisava atenta e demoradamente. Já tinha lido de todas as formas possíveis e imaginárias – achava ele - acabava por terminar uma página e logo outra e mais outra e a nenhuma conclusão chegava. A não ser chegar ao fim do livro.
Em vão tentava encontrar explicação para o comportamento que no outro vinha a observar dia após dia.
Estaria doente? - Poderia mesmo estar, com toda a certeza que sim - Era uma hipótese a considerar, talvez um comportamento esquizofrénico? Sofreria de algum tipo de complexo que desconhecia? Mais uma vez procurou nos manuais que lhe atafulhavam a secretária; esta já a tornar-se pequena para suster tantos livros. Quase que se perdia neles!
Andou enredado meses a fio, até que ocasionalmente se começou a questionar: - A patologia não seria mesmo e só sua? Não encontrava explicação para o comportamento do outro, restava-lhe avaliar-se a si próprio.
Iniciou um diário, registou nele todas as suas sensações, os desejos, as emoções e sentimentos.
Raras vezes saía, isolou-se.Sem darem por isso, observador e o observado começaram, em simultâneo a viver, cada um per si, ausentes de tudo e de todos.
Pela janela aberta chegavam os ruídos da cidade invadindo a contra-gosto a casa transformada em reduto onde nada nem ninguém entrava - nada nem ninguém entrava, quase assim seria - à excepção dos tais insectos de cores. Tinha começado pelo gesto mecânico de repelir um gafanhoto, até que em momento preciso e milenar, e sempre que os dois semi-cerravam os olhos ofuscados por um sol a encher o horizonte de fagulhas amarelas, entra uma borboleta de asas de arco-íris que um deles tenta apanhar. Já não sei qual dos dois seria, com brusquidão, um deles, estendeu a mão e, quando deu pelo sucedido, o espelho estava caído no chão, estilhaçado.
O que tinha tentado capturar a borboleta, olhou os pedaços partidos no chão e ficou aterrorizado, em cada pedaço existia uma imagem multiplicada daquele que há tanto tempo observava.
Definitivamente sentia-se agora incapaz de diagnosticar a origem da patologia.
24 junho 2011
Labaredas
Inferno_autor-desconhecido_c-1510-20
Há uma fogueira a arder as horas e os dias
Consome-me incessante
E tudo deita a perder
Nesta espera que abrasa
E faz da alma labareda
Coisa simples deveria ser a Vida
Mas queima, escalda-me inteira
E faz-me sentir perdida
22 junho 2011
O Vale das Sombras
Nada garante que Kublai Kan acredite em tudo o que diz Marco Polo ao descrever-lhe as cidades que visitou nas suas missões: “As pessoas que passam pela rua não se conhecem. Ao verem-se imaginam, mil coisas, (…) os encontros que poderiam verificar-se entre elas, as conversas, as surpresas, as carícias, as ferroadas."
(In As Cidades Invisíveis, de Ítalo Calvino)
Recebi finalmente a tua carta. Foi como uma onda que, de mar encarnado volveu para mim.
Senti nas palavras o cheiro da maresia e li nelas uma promessa renovada de vida. E porque o homem é um ser para a liberdade, deixei-te livre e assim livre voltaste de novo, estejas tu onde estiveres, voltarás sempre .
Por ti e por mim, tento diariamente religar-me e seguir nessa inesgotável continuidade do Amor e Fraternidade. É um caminho áspero que exige que me transcenda.
Nessa cidade onde tu estás, com vales de penumbra que se perdem na imensidão do tempo, tempo esse que também nós vamos gastando, e perdendo, sem saber que o tempo é precioso, por só ele nos dar a oportunidade única de mergulhar na fonte da vida e do ser; é dessa cidade, de onde me relatas notícias de loucos , de espoliados de afectos, de homens e mulheres que alucinam, cidade onde te imagino e te construo , experimentando a minha consciência limitada ao que apenas conheço.
Contudo consigo ainda imaginar-te percorrendo os longos vales, subindo e descendo, em sucessivos cruzamentos com outras vidas, também elas cruzadas de outras , das tais vidas que se não dão. Estranho no entanto que afirmes que a vida não é coisa que se dê, - continuas o mesmo ao não desejares perpetuar a ausência. E porque a ausência só é sentida quando não há vida, essa vida que te recusas a gerar.
Aqui, deste lado, essa tua ausência é uma constante. No sofá continua a marca do teu corpo adormecido –lembras-te quando eu velava o teu sono , e ao acordares perguntava, ansiosa, se voltarias no dia seguinte? Respondias-me, misterioso, que virias sempre .
Mais tarde, numa outra carta escreveste que me imaginavas ali, à esquina do luar a pensar no futuro: mas o futuro é o caminho para o nada – acrescentavas tu, quando te perguntava o que era o futuro, já que nem o presente eu sentia existir, porque, nunca o foi - Presente.
No teu e meu silêncio feito de penumbras, há uma chama que brilha com esperança, emergindo neste breve oceano da Palavra que me faz redescobrir o sentido mais profundo da Vida, fazendo de ti o elo de ligação entre o sonho e a poesia.
Só assim vives, e, ao contrário do que escreves, que não habito os teus sonhos, tu habitas na minha poesia – um estado interior aberto ao imaginário, ao que é belo e ao que tento eternizar – tu !
21 junho 2011
Quarto 413
Quanto mais avançava pela vida fora, mais olhava para trás, vendo a vida por dentro, uma espécie de avesso da mesma; agarrando-se a maior parte do tempo, com desespero, às memórias que recusava partilhar. Agora num momento de verdade extrema olhava em redor e via-se aprisionado, cheio de tubos e maquinetas que lhe suportavam a vida. Havia um estranho bip no compartimento, como se uma projecção de si próprio saltasse para o écran esverdeado- aquilo era ele - ali representado num ondular, nem sempre constante. De tanto olhar acabava hipnotizado. Desviou o olhar que lhe saiu janela fora, em direcção à luz do dia.
Em contrapartida à lenta reacção física, a mente girava incessante, quase que atingindo velocidade supersónica.
Se fosse hoje...ah se fosse hoje e soubesse o que sei, as coisas que eu não faria,, o que eu não teria feito!- pensava ele.
A enfermeira entrou no quarto à hora costumeira da medicação, a que ele se entregava dócil como se fosse criança. Deixava-se conduzir sem qualquer oposição e olhava-a nos olhos, talvez procurando ainda uma réstia de verdade última – olhando aqueles olhos negros , também eles habituados ao sofrimento, lembrou-se de um outro par de olhos que tinham ficado perdidos no tempo, perdição essa para que também ele tinha contribuído. E a memória fixou-se aí, inteira como se pairasse nela, na dona dos olhos negros.
Sacrificou-a em nome do egoísmo que o tinha pautado toda a vida, perdeu-se a si próprio e perdeu-a a ela. Agora já era tarde.
Desviou o olhar para o écran esverdeado e imaginou o relvado em frente ao rio.
Era lá que pairavam as suas lembranças.
20 junho 2011
No rescaldo piquenique do Continente
Há coisas que eu não entendo e, remando contra a maré, o que quer significar contra a orientação deste blogue, em que 99,9% do seu conteúdo é sobre poesia, hoje não resisti a veícular aqui, e desta forma, o meu mais completo desagrado pelo gigantesco “Piquenique do Continente”.
Começo logo por contestar e, citando a Agência Noticiosa Lusa ” A acção de sensibilização dos consumidores, sob o lema "Optem pelo consumo de leite e de carne da produção nacional" consistia na distribuição gratuita de mil litros de leite, da linha de produtos brancos do mesmo hipermercado que promove o piquenique/festa.
O descarregamento do leite foi interrompido pela polícia que ordenou a saída do veículo do local.
A ordem foi acatada pela associação que, no entanto, se retirou do local sob protesto.
Ainda assim os dirigentes da associação distribuíram algumas dezenas de litros de leite a transeuntes ou pessoas que iam para o piquenique na avenida.
A Associação Nacional de Produtores de Leite e de Carne (APLC) foi impedida de oferecer mil litros de leite junto ao Marquês de Pombal para protestar contra a venda de leite importado nas grandes superfícies.
Há algo aqui que não joga bem! Por um lado incentivam o consumo de produtos nacionais mas por outro....
Quanto à “quinta” instalada na Avenida da Liberdade, acho deplorável a ideia do local e passo enumerar :
Findo o concerto do conhecido cantor de música “pimba”, uma onda gigantesca de multidão, lançou-se avenida acima no que me pareceu-me ser uma manifestação de , na sua grande maioria, saloios ( e não querendo ofender os verdadeiros saloios) a passearem-se entre canteiros de couves , alfaces e tomates, como se estes fossem objectos estranhos vindos de um outro planeta. Saliento que, apesar da proibição e fiscalização manifestamente insuficiente para tamanha avalanche de “Portugal no seu melhor” a passagem dos “saloios” equivalia a arrancarem o mais que pudessem todos os vegetais existentes, não obstante os avisos de que tal não era permitido e que todos os produtos seria doados a instituições de solidariedade social. Em vão! O povo tem orelhas moucas! Muitos dos canteiros ficaram despidos do alecrim, da salsa, do hortelã; as alfaces eram retiradas, vindo atrás o torrão, as meloas apanhadas , mesmo verdes, as maças retiradas das árvores, a lista seria exaustiva, poucos foram os canteiros que ficaram intactos, e mesmo estes “salvaram-se” por terem perto a vigilância de firmas de segurança! No mínimo ridículo!! Até vi as batatas serem trincadas crúas , pasme-se!!!
Óbvio que nem os pobres animais escaparam do sossego e tranquilidade do meio onde foram arrancados, o que recusei determinantemente ver, uma porca com as suas crias recém-nascidas, rodeada pela bestiaria que apontava delirante, como se nunca na vida tivesse visto um suíno ao vivo e a cores. Cabras, ovelhas, patos , galinhas tudo animais extra-terrestres !Desgraçados animais!!
Ora até aqui pareço-vos estar do contra , mas não é bem assim; acho que a ideia até é boa, mas façam-no em Monsanto ou no Parque da Bela Vista!! Mas... que sejam os nosso produtores a trazerem os produtos; a e a comercializá-los e não uma grande superfície comercial como o Continente; tudo isto não passa de uma gigantesca operação de marketing muito bem orquestrada, a tal ponto que até a RTP – que deveria significar serviço público – passa um dia inteiro a transmitir em directo!!! Eu pasmo com tudo isto! Tudo somado quanto se gastou? E finalmente a quem aproveitou? Argumentam que muitas das crianças não sabem a génese dos produtos, não sabem de onde vem o frango ou a vaca... pois muito bem e papel didáctico das escolas? É que não é só distribuir Magalhães....para além de que, os pais ao educarem os filhos deveriam elucidá-los sobre o “campo” e a “cidade” sob pena de vermos meio milhão de pessoas em plena avenida de uma capital da Europa a olhar para os tomates, alfaces e cebolas, como se da primeira vez se tratasse!!!
E termino com esta constatação....aqui há uns dias atrás fui ao mencionado hipermercado, procurei pelas cenouras nacionais.... não havia...
Tenho dito!
17 junho 2011
O que é Nacional é bom
Escrevinhei um poema, que guardei no fundo da gaveta, já lá vai um bom par de anos. Supostamente não era para ser lido. Recentemente fui à procura do dito e vi que o papel tinha sido roído por algum insecto bibliófilo, não sobrou uma única letra. Com a minúcia possível e munida de lupa procurei em todas as gavetas o autor de semelhante atentado. Por fim, encontrei o dito bicho e acusei-o do crime de posse de propriedade intelectual. Eis que o malandro me transmitiu que tinha registado os direitos da poesia na Sociedade Portuguesa de Autores. Quanto ao suporte em papel alimentou-se do mesmo e procriou uma nova geração de bibliófagos: deu á luz mais outros tantos animais, que espalhados pelo mundo fora tem conseguido sobreviver à custa do papel escrito. Da próxima vez que tal suceder, em vez de atilar uma qualquer letra, cilindro-o por inteiro mesmo correndo o risco de deixar o poema sem um til.Tenho ainda uma solução final: convidar para coabitação alguns morcegos vindos ali dos lados de Mafra. Tudo isto para vos dizer que o que é nacional é bom, não só o pão da mencionada localidade, como também os morcegos que habitam o Convento, já para não referir os bibliófilos espalhados pelo continente ( e ilhas).
@ Reservados todos os Direitos de Autor
@ Reservados todos os Direitos de Autor
14 junho 2011
Caça ao Poema
O Sono de Vénus e Cupido
Estou cansada, aqui sentada
Farta de magicar, vã tentativa
De um poema modelar.
Apetece-me fugir, até tenho
A porta aberta!
Foge, levanta-te e foge
Vais ver que a alma desperta.
Oh, se fugir, não consigo
Acabar este poema,
Fica a rima incompleta.
O que será uma pena!
Anda lá, não importa!
Sai porta fora e respira
Não te esqueças, que
há gente a sonhar como tu.
Escolhe um alvo, olha-o bem
Estica o arco e atira a flecha
Solta o braço
Leve mas com segurança
Acerta-lhe no miocárdio
Logo abaixo das três camadas
De pele branca e luzidia
Não te esqueças da couraça
Que usamos todos os dias!
Quando acertares em alguém
Terás caçado o poema.
Podes agora sonhar
Como quem sonha pedaços
De renda antiga
Feitos de colchas das mães
Deita-te só, e descansa
segura dentro de ti
O poema aprisionado
Aquele que te sacia
E te mantém renovado.
12 junho 2011
O fluído misterioso
Vénus
Ando à procura do poema
Sem métrica e sem método
Desordenado e caótico
Mas que faça algum sentido
E que não seja neurótico
Ando à procura do poema
Daquele que já foi vivido.
Não quero o poema dorido
Tão pouco o poema sofrido
Quero cantar a alegria
Do poema renascido
Se alguém sentir na poesia
Esse misterioso fluído
Entenderá por si mesmo
Que a vida tem um sentido.
E que através da poema
Nada será proibido
08 junho 2011
Trago em mim todos os rios do mundo
William Turner - Ausschnitt
Esta noite o mar inundou-me os olhos
Trago em mim todos os rios do mundo
Vulcões de lava irrompem estilhaçando marés
A espuma desfaz-se no cais sob o signo do eterno
Caminho peregrina por sobre a nuvem densa
Há uma dor nova que me diz que ainda existo
Na bagagem do destino levo a bruma da memória
Já não cabe aqui dentro a tempestade
Abatem-se as fragas ao raio
Vergo-me sob o peso da luz que me cegou
E adormeço no cansaço do desejo não consumado.
Amar é deixar correr todos os rios do mundo em nós
Deixá-los ir, livres, soltos, para que regressem em forma de nuvem.
@Reservados todos os Direitos de Autor
Esta noite o mar inundou-me os olhos
Trago em mim todos os rios do mundo
Vulcões de lava irrompem estilhaçando marés
A espuma desfaz-se no cais sob o signo do eterno
Caminho peregrina por sobre a nuvem densa
Há uma dor nova que me diz que ainda existo
Na bagagem do destino levo a bruma da memória
Já não cabe aqui dentro a tempestade
Abatem-se as fragas ao raio
Vergo-me sob o peso da luz que me cegou
E adormeço no cansaço do desejo não consumado.
Amar é deixar correr todos os rios do mundo em nós
Deixá-los ir, livres, soltos, para que regressem em forma de nuvem.
@Reservados todos os Direitos de Autor
07 junho 2011
Fragmentos
Aniquila-me a ideia da morte e da felicidade
Tanto me destruo nesta oscilação
E o pensamento pende
Entre razão e emoção
Tenho um carrasco a vigiar
Ali na parede, entre o vão de uma janela
Dá as horas, dita-me o dia
E de noite abro as portadas
E esgueiro-me através dela.
Nesta espera angustiante
Entre morte e felicidade
Nunca sabendo quando
Quase sempre a enlouquecer
Vejo a soma dos meus dias
Num soturno entardecer.
Tanto me destruo nesta oscilação
E o pensamento pende
Entre razão e emoção
Tenho um carrasco a vigiar
Ali na parede, entre o vão de uma janela
Dá as horas, dita-me o dia
E de noite abro as portadas
E esgueiro-me através dela.
Nesta espera angustiante
Entre morte e felicidade
Nunca sabendo quando
Quase sempre a enlouquecer
Vejo a soma dos meus dias
Num soturno entardecer.
06 junho 2011
A última gota de espuma
William Turner-Fishermen at Sea
No teu corpo existem velas que fogem de mim
Com elas afastas os alvores da madrugada
E navegas à bolina
Sem nunca chegar ao fim
Na manhã aberta ao sol
Rasgam-se as trevas
Com o grito das gaivotas
Que te perseguem
Iluminas o mar com um véu de espuma
Cada vez mais longe.
Afogo-me aqui e agora
Quando deixo de ver na linha do horizonte
A última onda que te levou
A última gota de espuma
Que sorvi, sem saber contudo
Que não haverá mais mar.
Abro o poema em cada dia maldito
Nego e renego o dito
Reinvento o horizonte sem brisa
Lá ao fundo está um barco parado
E na areia da praia jaz o grito.
04 junho 2011
Esta Lisboa que eu amo.
E o paraíso existe aqui
Nas ruas da minha cidade
Nas sete colinas adormecidas
Nas mouras encantadas
Nas estórias ao luar
Nos sons da minha cidade
Há rouxinóis a cantar
Nos murmúrios, nos pregões
No suave marulhar
Há o rio a deslizar
Manso e aveludado
Leva os navios ao mar
Lisboa, menina e moça
A mais bela capital
Esta Lisboa que eu amo
Princesa de Portugal.
Nas ruas da minha cidade
Nas sete colinas adormecidas
Nas mouras encantadas
Nas estórias ao luar
Nos sons da minha cidade
Há rouxinóis a cantar
Nos murmúrios, nos pregões
No suave marulhar
Há o rio a deslizar
Manso e aveludado
Leva os navios ao mar
Lisboa, menina e moça
A mais bela capital
Esta Lisboa que eu amo
Princesa de Portugal.
03 junho 2011
Segredos
Tenho bem guardado um segredo,
De tão guardado que está
De tão secreto que é
Que já nem me lembro dele
No dia em que to contei
Jurei que esqueceria
Guardado dentro de mim
Prometi que não diria.
Mas como posso eu viver
Cerceada de mistério
Sem nunca poder dizer
O que guardo aqui no peito
Este amor de caso sério
E de tão serio que é
Que me vai custar a vida
Amar-te assim em segredo
E sentir-me tão perdida.
.
De tão guardado que está
De tão secreto que é
Que já nem me lembro dele
No dia em que to contei
Jurei que esqueceria
Guardado dentro de mim
Prometi que não diria.
Mas como posso eu viver
Cerceada de mistério
Sem nunca poder dizer
O que guardo aqui no peito
Este amor de caso sério
E de tão serio que é
Que me vai custar a vida
Amar-te assim em segredo
E sentir-me tão perdida.
.
02 junho 2011
O pardal de Belém
Alguém lhe ligou a combinar um jantar a dois. Estava um bom fim de tarde, o Tejo a vazar ,debaixo de um imenso véu azul matizado de laranja. O calor apertava ali para os lados da estação fluvial de Belém. Era giro deixar aqui o carro e íamos de barco a Porto Brandão ou à Trafaria disse ela, mas de imediato estancou à pressão o passo que a levava em direcção à bilheteira. Reparou que no asfalto quente estava uma ave minúscula, rosada, sem vestígio de penas e, dentro da sua fragilidade piava incessantemente:- Deixa, vamos embora, já está quase morta, e é tão pequenina, que vais tu fazer com ela?
Prosseguiram o trajecto entrando na embarcação, olhavam alternadamente as duas margens do rio, captando imagens aqui e ali, guardando pedaços de um tempo ocioso , oscilando o barco e oscilando ela também ,entre bombordo e estibordo fugindo-lhe a ela o pensamento para avezita caída no chão.
Jantaram, e de regresso d repetiram o caminho feito três horas antes. Desta feita, de volta à estação fluvial de Belém
Precisamente no mesmo local, três horas depois , a ave continuava viva e a chamar pelos pais. Era noite cerrada. Num impulso, ela baixou-se, pegou-lhe com ternura, aconchegou-a na mão, ouvindo o pipilar suplicante de ajuda. Trouxe-a para casa. Na madrugada do novo dia acordou bem cedo, eram 5 e meia da manhã, procurou seguir o ritmo das aves que acordam com os primeiros alvores. Procurou alimentá-lo, continuava vivo e era decididamente um lutador!
Faltou ao emprego, pediu um dia de férias e ficou-se pela casa, perdida em tantos pensamentos, tanta reflexão sobre a fragilidade da vida, a tenacidade e sobretudo pasmava-se ela própria com a paciência que é necessária para com mil gestos criar uma tão frágil e minúscula criatura. Procurou na internet sites sobre criação de aves, comprou papa para crias na loja de animais e de 30 em 30 minutos, mais coisa menos coisa, alimentava-o. Quantos cuidados, quantos voos!
Ligou a uma amiga e disse-lhe que devia estar a ficar doida por apanhar um pardal no chão e ausentar-se do emprego. E afinal de nada serviu! A meio da tarde o pardal morreu e ela deu por si a chorar, frustrada por não o ter conseguido salvar.
Prosseguiram o trajecto entrando na embarcação, olhavam alternadamente as duas margens do rio, captando imagens aqui e ali, guardando pedaços de um tempo ocioso , oscilando o barco e oscilando ela também ,entre bombordo e estibordo fugindo-lhe a ela o pensamento para avezita caída no chão.
Jantaram, e de regresso d repetiram o caminho feito três horas antes. Desta feita, de volta à estação fluvial de Belém
Precisamente no mesmo local, três horas depois , a ave continuava viva e a chamar pelos pais. Era noite cerrada. Num impulso, ela baixou-se, pegou-lhe com ternura, aconchegou-a na mão, ouvindo o pipilar suplicante de ajuda. Trouxe-a para casa. Na madrugada do novo dia acordou bem cedo, eram 5 e meia da manhã, procurou seguir o ritmo das aves que acordam com os primeiros alvores. Procurou alimentá-lo, continuava vivo e era decididamente um lutador!
Faltou ao emprego, pediu um dia de férias e ficou-se pela casa, perdida em tantos pensamentos, tanta reflexão sobre a fragilidade da vida, a tenacidade e sobretudo pasmava-se ela própria com a paciência que é necessária para com mil gestos criar uma tão frágil e minúscula criatura. Procurou na internet sites sobre criação de aves, comprou papa para crias na loja de animais e de 30 em 30 minutos, mais coisa menos coisa, alimentava-o. Quantos cuidados, quantos voos!
Ligou a uma amiga e disse-lhe que devia estar a ficar doida por apanhar um pardal no chão e ausentar-se do emprego. E afinal de nada serviu! A meio da tarde o pardal morreu e ela deu por si a chorar, frustrada por não o ter conseguido salvar.
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