31 outubro 2011

Mulher que lê, 
c. 1890 Jacques-Émile Blanche ( França 1861-1942)
Óleo sobre tela


No minha mesa existe
Um livro pousado
Que não consigo entender
Fico-me assim a pensar
O que ele  quererá dizer

Há  nele uma  fala oculta
Que não consigo alcançar
Espero que a noite caia
E me ilumine o luar
E de olhos abertos no escuro
leio o livro devagar
as palavras são estrelas
a letras a cintilar
é tal o brilho que imana
que me sinto a cegar!
Pela manhã, adormeço
Cansada de tanto olhar
Pouso o livro no regaço
E fico-me assim a pensar.

25 outubro 2011


Ensinamentos de provérbios árabes ao som de  "Hino ao Sol".

Quero que feches os olhos
Que sintas, na brisa
No ar que te rodeia
A essência  do meu ser
Quero que feches os olhos
porque algo vai acontecer
Entra por esse túnel de luz
Ouve agora o que tenho para dizer
Não temas, nada receies
Deixa-me dar-te a mão
Deixa que te guie
Até aqui
Ao meu coração
Escuta agora o som
A melodia
O bater acelerado
Um galope desenfreado
É assim que fico
Quando te construo em poema
Quando faço de ti a minha voz ao vento
Quando abro os braços e te procuro
Com olhar lá longe
Perto do firmamento
Já dei a volta ao mundo
A procurar a metade que me dizem pertencer
Voltei ao ponto de partida
Estarei algures, regresso  certamente
Em cada promessa de dia
Em cada novo amanhecer!




22 outubro 2011

A Poesia é transpiração da Alma

(Imagem retirada da net)

Há um afrontamento em mim feito de raiva
Onda de calor, sangue e sal
Um transpirar  de impossível
Um estranho amargo
Que me deixa assim tão mal.
Se me perguntarem o porquê
Apenas direi  que não sei
Não localizo a causa
Só o efeito,  e dentro de mim
Sinto um aperto forte no peito.
Ontem nasci, já lá vai tempo
Em que tenho vindo a morrer
Talvez seja  sinal de que ainda
Tenho vida para viver.
Mas como gastar este tempo
Que me causa tamanha dor
Cada vez que em mim sobe
Esta onda de calor
Quando me invade o sonho
Impossível de realizar
Eis que transpiro a raiva
Que me oprime aqui no peito
E solto nestas palavras
A minha falta de jeito.
Estou tão incompleta
Ainda me falta tanto
Para me sentir poeta.

16 outubro 2011

Eça de Queirós:
"Nós estamos num estado comparável apenas à Grécia: a mesma pobreza, a mesma indignidade política, a mesma trapalhada económica, a mesmo baixeza de carácter, a mesma decadência de espírito. Nos livros estrangeiros, nas revistas quando se fala num país caótico e que pela sua decadência progressiva, poderá vir a ser riscado do mapa da Europa, citam-se em paralelo, a Grécia e Portugal"

(in As Farpas, 1872)
Assim sendo....
Voltámos a ser um país amordaçado
sofrido e roubado
O dia amanheceu envolto em bruma
o Povo pede o regresso do Desejado.

Haverá para aí algum D. Sebastião?
Se há, que não se faça rogado.
É a hora Senhores!
de lutar, e não deixar cair
este pedaço de terra
de Santa Maria chamado.
Mito? Pátria? País?
Este é o meu pedaço de chão,
onde um dia minha mãe me deu à luz
assim recuso para os meus filhos
a escravidão, e o roubo
deste terreno sagrado.
E porque te amo Portugal
chegou a hora Senhores
de recusar as amarras
e conservar a matriz
Contra os barões marchar!
Marchar!
E as armas são a cultura
a ousadia de querer
a vontade de um povo
que se não deixa vencer!
 

14 outubro 2011

Ó Desditosa Pátria minha amada!




Alegoria à Pátria, às Artes, à Indústria, à Agricultura e à História de Portugal da autoria de Acácio Lino.
No centro da composição surge a Pátria, coroada por um anjo e entronizada (sem esboceto conhecido e apenas identificada pelos atributos); abaixo desta, a Agricultura (com esboceto); à esquerda, a Pintura e a Arquitectura (sem esboceto conhecido, mas identificáveis pelos atributos: paleta e compasso); em baixo, à esquerda, a Indústria (com esboceto); em baixo, à direita, a História de Portugal (com esboceto - por vezes, por desconhecimento da existência do estudo, tem sido identificada como a alegoria às Letras, por carregar um livro).

A Grécia incendiada
Nero voltou senhores!
Sobre o templo de Delfos
Já não há sonhadores.
A revolta está iminente
Há fome por entre a gente
O sol de Outubro incendeia
O mel, a urze e a alteia
A Oriente a plebe inquieta
Agita-se na oriental praia lusitana
E por mares agora esgotados
A voz surda do Direito
Jaz à beira-mar sepultada.
Não é D. Sebastião,
Não é El-Rey D. Diniz
O Lavrador
A Ibéria ameaça soçobrar
Ò Pátria teus filhos na dor.
Invocam o sangue dos avós
Ó Pátria Para onde vamos nós?

11 outubro 2011

Contos de Fadas

A vida inteira ela esperou
Pelo seu príncipe encantado
Surgiu finalmente entre a bruma
Numa qualquer esquina
De reluzente armadura vem armado
Já não o pode sentir
Tocar-lhe está proibida
O frio aço o reveste
Fruto de revezes da vida
E na couraça que o protege
Dele e dela não reza a história
Ficou-se a bela encantada
A relembrar na memória
E era uma vez um príncipe
Triste e só amargurado
Vivia numa redonda
De fino aço fechada
E de marca registada
Onde se podia ler
Já não há contos de fadas
Nem de príncipes encantados
Apenas almas perdidas
Corações acabrunhados.

05 outubro 2011

"Palavras Nossas" irá estar nas livrarias de todo o país já em Novembro ...Uma colectânea de poesia da qual eu faço parte, espero que apreciem! “Palavras Nossas” é uma obra que prima pela novidade e diversidade. Novos temas, novas abordagens, estilos diferenciados, é o que esta Antologia da Novos Poetas Portugueses tem para oferecer. Trata-se de uma autêntica “lufada de ar fresco” no panorama da poesia em Portugal. Sonhos revelados sobre a forma de poemas – e haverá melhor maneira de sonharmos acordados? Sonhos concretizados através de uma primeira publicação. Sonhos revelados e concretizados é o que “Palavras Nossas” tem para oferecer aos seus leitores. Um livro que é de todos - para todos, no nosso bom português. Entretanto, "Palavras Nossas" já tem "Página Oficial" no Facebook e convido-vos a todos a passar por lá. É aqui: https://www.facebook.com/pages/Palavras-Nossas/120696251368968

01 outubro 2011

Caixa de marfim



Tenho dentro de mim
Uma caixa de marfim
Com arte trabalhada
E forrada de violáceo cetim.
Guardei nela uma pedra preciosa
A que chamaram rubi.
Da caixa de marfim
Que tranquei a 7 chaves
Lancei ao rio o segredo
Que guardei até ao fim
Quando amortalhares o meu corpo
De linho crú e alvar
Não te esqueças do segredo
Que te disse para guardar.
Leva contigo a dita caixa de marfim
Esconde-a naquele altar
E pede à virgem por mim.

11 setembro 2011

11 de Setembro de 2011


ADAGIO Per ARCHI

Partiram vidas, em bandos
Como se tivesse findado o verão
Tombaram libertas num sopro
De um desejo de vingança e ódio
E o vazio foi-se enchendo de saudade
Na paisagem desenhada de fantasmas
Do pai
Da mãe
Do filho
Do avô
Da avó
Dos primos
Dos amigos
E ficámos nós aqui….sós
tatuados na carne e na alma
o número da besta :11-09-2001

02 agosto 2011

Tempo

Arrasta-se o tempo dentro dele
Onde outrora não se arrastava
Vazio , oco , adiantado de
Tanto adiantar que atrasou
A parecer estar no futuro
E nem pelo presente passou.
Outrora existiu um tempo rápido
escapou-se de mim
Fugiu célere e nem sequer
Olhou para trás.
Já passou, está enterrado
Morto no passado
Lá para trás.
Mas eu vivo e sou a sonhar
E guardo para sempre
Esta memória tão fugaz.
Ainda se voltasses,
Conseguisse eu fazer andar
Todo este tempo
Ai se eu fosse capaz!
Eis-me estática, parada
A olhar o nada
A pensar que também
Esse nada não me satisfaz.
Se matar o tempo, mato-me
A mim, nesta espera
Que viva ainda me trás!

19 julho 2011

Falência ( do Prazer e do Amor)

Um dia acordas estranhamente lúcido e percebes que tudo o que até aí viveste foi verdadeiramente a simbiose entre sonho e pesadelo; percebes que não viveste nada , que deixaste passar a vida adormecido.
E pensas que se te deixares adormecer novamente então é que morres para sempre. Tudo isso porque acordaste a recordar. Aos abrires os olhos prendeu-se –te o olhar na moldura em cima da cómoda, aquela que conseguiu captar em tempos passados uma imagem que no presente é fantasmagórica. Teimas em agarrar-te aos fantasmas, sentes-te um fantasma que deambula sozinho, iludes-te pensando que os outros olham para ti. Nem sequer te vêem. Vais andar em círculos, ou num vai e vem sem sentido, embora penses que há sentido no teu vai e vem.
Um dia tentas dar novo sentido à vida, queres acordar de uma vez por todas, mas não consegues, queres falar e ninguém te ouve; gritas e dizes : EU ESTOU AQUI.
Há um movimento à tua volta que não entendes, fios, estranhas máquinas, écrans esverdeados ligados a ti, como se fosses um SERVIDOR. Tu és um servidor, mas algures o hardware colapsou.
Voltas novamente ao sonho, tentas mexer uma qualquer extremidade do teu corpo e não consegues. Malditos fantasmas que te olham dentro da moldura. Maldita proibição interior que dá origem a esse bloqueio inultrapassável . E pensas.... ( nisto), como ele também pensou...
Ó horror metafísico de ti!
Sentido pelo instinto, não na mente!
Vil metafísica do horror da carne,
Medo do amor...
Entre o teu corpo e o meu desejo dele
Está o abismo de seres consciente;
Pudesse-te eu amar sem que existisses
E possuir-te sem que ali estivesses!
Ah, que hábito recluso de pensar
Tão desterra o animal que ousar não ouso
O que a [besta mais vil] do mundo vil
Obra por maquinismo.
Tanto fechei à chave, aos olhos de outros,
Quanto em mim é instinto, que não sei
Com que gestos ou modos revelar
Um só instinto meu a olhos que olhem ...
.....................................................................
Prosa de Arroba das Palavras, Poesia de Fernando Pessoa

13 julho 2011

Memória Olfactiva


Invertendo o sentido e tentando emprestar alguma utilidade prática à realidade com que era obrigada a coabitar e já depois de devidamente licenciada em solidão, estando num período de secura poética, decidiu aventurar-se a escrever algo específico sobre os mecanismos da memória olfactiva.
Em pleno processo de pesquisa, espalhou por cima da mesa vários frascos de água de colónia, perfumes e essências que guardava religiosamente.
Devagar, um a um, foi abrindo e sentindo. Tantas memórias que por ali estavam há anos aprisionadas: a colónia de criança, a água de perfume de adolescente, o perfume de mulher e...o seu perfume. O perfume dele, aquele que ela cheirava às escondidas quando entrava numa qualquer perfumaria e, um dia comprou, só para usar , em momentos de maior solidão, pensava ela que inevitavelmente sabendo que iria fazer um Mestrado em Solidão.
Rápida e certeira a reacção olfactiva assim intimamente ligada à memória dos cheiros trouxe-lhe o despertar da saudade de tempos passados e que foram fonte de enorme prazer.
Sorriu para si mesma quando lembrou que, às escondidas, lhe tinha roubado um cachecol e durante um tempo indeterminado adormecia abraçada a ele. Curioso como restava intacto aquele banco de memórias olfactivas que dava às suas emoções, impressões de prazer e de desprazer.
Lembrou do cheiro da colónia misturada no corpo dele. Sem querer, vislumbrou-o com aquele estranho sorriso que tão bem lhe conhecia e usava em ocasiões especiais a dizer-lhe: Hoje é o último dia em que somos um....amanhã seremos apenas tu e eu, o nós deixará de existir.
Sorriu contristada ao recordar a contragosto e decidiu-se por um café Blue Mountain, afinal as memórias não acabavam ali, e o cheirinho bom do café animou-a a prosseguir; já basta o que basta e uma semana de internamento com os odores do éter e todo aquele ambiente hospitalar levaram-na a dar outro valor à vida. Só faz falta quem quer viver. Quantos aromas de flores depositadas em redor de corpos cuja alma há muito já se foi.
E vida há só mesma uma: a minha que não a tua, que não a nossa.

05 julho 2011

Esperança



Rebentou a trovoada. Atrás da serra via ao longe os clarões a aproximarem-se rapidamente trazendo atrás de si uma chuva quente a descarregar, de supetão, naquele pedaço de mundo.
Dioniso tratou de guardar as cabras e abrigou-se debaixo do varandim a ver chover.
Gostava de chuva. Muito mais do que da chuva gostava mesmo  de presenciar os raios, que se abatiam a esmo e queimavam sem dó nem piedade, cortando em dois os sobreiros centenários.
Fazia agora um ano que se tinha refugiado na povoação, aldeia quase desconhecida no mapa; ao principio tinha sido olhado com desconfiança mas agora as gentes do lugarejo sabiam da sua história e acarinhavam-no.
Corria no povoado que durante anos tinha estado apaixonado por uma criatura – eram os próprios habitantes que lhe chamavam assim – desprovida de alma, desprovida de coração, fria como as neves da Sibéria, egocêntrica e egoísta. Tinha-se  dedicado de alma e coração, abnegadamente,  sem nada exigir durante quase uma década; mas chegou um tempo, um momento muito preciso em que percebeu que a continuar aquela paixão corria o risco de se transformar num farrapo. Pensou com ponderação no assunto, tinha várias saídas: o suicídio ou matar a criatura que o sugava diariamente. Optou pela última. Reuniu todas as lembranças dela: as cartas, uma madeixa de cabelo castanho dourado, os retratos, os livros que ela escreveu, algumas roupas dispersas- procurou apagar  todos os vestígios da sua presença na vida dele. Guardou tudo numa caixa de papelão e, num canto afastado e longe dos olhares indiscretos fez um auto de fé. De seguida ouviu um Te-Deum, chorou copiosamente, soluçou sozinho, arrancou de si todo o desamor que ela lhe tinha dado e decidiu-se a partir dali. Findados os preparativos, fechou a casa à chave e rumou o mais longe que conseguiu. Valia mais tomar conta de um rebanho de cabras do que aturar semelhante animal, quase que  sentia os chifres a aguilhoá-lo, tal a dor e o aperto que sentia no peito. A saudade ainda o não tinha largado.
Sozinho debaixo do varandim rezou e pediu aos deuses para que um raio se abatesse sobre ele. Misturou a chuva com as suas próprias lágrimas e num gesto de desespero decidiu-se a entrar dentro do curral para abraçar uma pequena cria – a primeira  que ele tinha ajudado a nascer. Prometeu a si próprio que aquela nunca seria sacrificada. Chamou-lhe Esperança.

25 junho 2011

Espelho Partido
















Garota em rosa em frente ao espelho- autor desconhecido.
Pousou-lhe um gafanhoto de cor verde pálido em cima da página. Sacudiu-o com um estalar de dedos ágil,  procurando acertar, sem contudo  molestar. Um insecto, quase do tamanho de um alfinete de dama dos mais pequenos tinha o condão de lhe desviar o gesto e o pensamento.
Há quanto tempo estava ali, de olhar pousado no texto, revendo e revendo-se a si próprio, procurando descortinar vestígios para a lógica de procedimento do homem que estava por detrás da escrita que analisava atenta e demoradamente. Já tinha lido de todas as formas possíveis e imaginárias – achava ele - acabava por terminar uma página e logo outra e mais outra e a nenhuma conclusão chegava. A não ser chegar ao fim do livro.
Em vão tentava encontrar explicação para o comportamento que no outro vinha a observar dia após dia.
Estaria doente? - Poderia mesmo estar, com toda a certeza que sim - Era uma hipótese a considerar, talvez um comportamento esquizofrénico? Sofreria de algum tipo de complexo que desconhecia? Mais uma vez procurou nos manuais que lhe atafulhavam a secretária; esta já a tornar-se pequena para suster tantos livros. Quase que se perdia neles!
Andou enredado meses a fio, até que ocasionalmente se começou a questionar: - A patologia não seria mesmo e só sua? Não encontrava explicação para o comportamento do outro, restava-lhe avaliar-se a si próprio.
Iniciou um diário, registou nele todas as suas sensações, os desejos, as emoções e sentimentos.
Raras vezes saía, isolou-se.Sem darem por isso, observador e o observado começaram, em simultâneo a viver, cada um per si, ausentes de tudo e de todos.
Pela janela aberta chegavam os ruídos da cidade invadindo a contra-gosto a casa transformada em reduto onde nada nem ninguém entrava - nada nem ninguém entrava, quase assim seria - à excepção dos tais insectos de cores. Tinha começado pelo gesto mecânico de repelir um gafanhoto, até que em momento preciso e milenar, e sempre que os dois semi-cerravam os olhos ofuscados por um  sol a encher o horizonte de fagulhas amarelas, entra uma borboleta de asas de arco-íris que um deles tenta apanhar. Já não sei qual dos dois seria, com brusquidão, um deles, estendeu a mão e, quando deu pelo sucedido, o espelho estava caído no chão, estilhaçado.
O que tinha tentado capturar a borboleta, olhou os pedaços partidos no chão e ficou aterrorizado, em cada pedaço existia uma imagem multiplicada daquele que há tanto tempo observava.
Definitivamente sentia-se agora incapaz de diagnosticar a origem da patologia.

24 junho 2011

Labaredas



Inferno_autor-desconhecido_c-1510-20

Há uma fogueira a arder as horas  e os dias
Consome-me incessante
E tudo deita a perder
Nesta espera que abrasa
E faz da alma labareda
Coisa simples deveria ser a Vida
Mas queima, escalda-me inteira
E faz-me sentir perdida

22 junho 2011

O Vale das Sombras




Nada garante que Kublai Kan acredite em tudo o que diz Marco Polo ao descrever-lhe as cidades que visitou nas suas missões: “As pessoas que passam pela rua não se conhecem. Ao verem-se imaginam, mil coisas, (…) os encontros que poderiam verificar-se entre elas, as conversas, as surpresas, as carícias, as ferroadas."
(In As Cidades Invisíveis, de Ítalo Calvino)
Recebi finalmente a tua carta. Foi como uma onda que,  de mar encarnado  volveu para mim.
Senti nas palavras o cheiro da maresia e li nelas uma promessa renovada de vida. E porque o homem é um ser para a liberdade, deixei-te livre e assim livre voltaste de novo, estejas tu onde estiveres, voltarás sempre .
Por ti e por mim, tento diariamente religar-me e seguir  nessa inesgotável continuidade do Amor e Fraternidade. É um caminho áspero que exige que me  transcenda.
Nessa cidade onde tu estás, com vales de penumbra que se perdem na imensidão do tempo, tempo esse que também nós vamos gastando, e perdendo, sem saber que o tempo é precioso, por só ele nos dar a oportunidade única de mergulhar na fonte da vida e do ser;  é  dessa cidade,  de onde me relatas notícias de loucos , de espoliados de afectos, de homens e mulheres que alucinam cidade onde te imagino e  te construo , experimentando a minha consciência limitada ao que apenas conheço.
Contudo consigo ainda imaginar-te percorrendo os longos vales, subindo e descendo, em sucessivos cruzamentos com outras vidas, também elas cruzadas de outras , das tais vidas que se não dão. Estranho no entanto que afirmes que a vida não é coisa que se  dê, - continuas o mesmo ao não desejares perpetuar a ausência. E porque a ausência só é sentida quando não há vida, essa vida que te recusas a gerar.
Aqui, deste lado, essa tua ausência é uma constante. No  sofá continua a marca do teu corpo adormecido –lembras-te quando eu velava o teu sono , e ao acordares perguntava, ansiosa, se voltarias no dia seguinte? Respondias-me,  misterioso, que  virias sempre .
Mais tarde, numa outra carta escreveste que me  imaginavas ali, à esquina do luar  a pensar no futuro: mas o futuro é o caminho para o nada – acrescentavas tu,  quando te perguntava o que era o futuro, já que nem o presente eu sentia existir, porque,  nunca o foi - Presente.
No teu e meu silêncio feito de penumbras, há  uma chama  que brilha com  esperança, emergindo neste breve oceano da Palavra que me faz redescobrir o sentido mais profundo da Vida, fazendo de ti o elo de ligação entre o sonho e a poesia.
Só assim vives, e, ao contrário do que escreves, que não habito os teus sonhos,  tu habitas na minha poesia – um estado interior aberto ao imaginário, ao que é belo e ao que tento eternizar – tu !

21 junho 2011

Quarto 413


Quanto mais avançava pela vida fora, mais olhava para trás, vendo a vida por dentro, uma espécie de avesso da mesma; agarrando-se a maior parte do tempo, com desespero, às memórias que recusava partilhar. Agora  num momento de verdade extrema  olhava em redor e  via-se aprisionado, cheio de tubos e maquinetas  que lhe suportavam a vida. Havia  um estranho bip no compartimento, como se uma projecção de si próprio saltasse para o écran  esverdeado- aquilo era ele - ali representado num ondular, nem sempre constante. De tanto olhar acabava hipnotizado. Desviou o olhar que lhe saiu janela fora, em direcção à luz do dia.
Em contrapartida à lenta reacção física, a mente girava incessante, quase que atingindo velocidade supersónica.
Se fosse hoje...ah se fosse hoje e soubesse o que sei, as coisas que eu não faria,, o que eu não teria feito!- pensava ele.
A enfermeira  entrou no quarto à hora costumeira da medicação, a que ele se entregava dócil como se fosse  criança. Deixava-se conduzir sem qualquer oposição e olhava-a nos olhos, talvez procurando ainda uma réstia de verdade última –  olhando aqueles olhos negros , também eles habituados ao sofrimento, lembrou-se de um outro par de olhos que tinham ficado perdidos no tempo, perdição essa para que  também ele tinha contribuído. E a memória fixou-se aí, inteira como se pairasse  nela, na dona dos olhos negros.
Sacrificou-a em nome do egoísmo que o tinha pautado toda a vida, perdeu-se a si próprio e perdeu-a a ela. Agora já era tarde.
Desviou o olhar para o écran esverdeado e imaginou o relvado em frente ao rio.
Era lá que pairavam as suas lembranças.

20 junho 2011

No rescaldo piquenique do Continente


Há coisas que eu não entendo e, remando contra a maré, o que quer significar contra a orientação deste blogue, em  que 99,9% do seu conteúdo é sobre poesia,  hoje não resisti a veícular aqui, e desta forma, o meu mais completo desagrado pelo gigantesco  “Piquenique do Continente”.
Começo logo por contestar e, citando a Agência Noticiosa Lusa ” A acção de sensibilização dos consumidores, sob o lema "Optem pelo consumo de leite e de carne da produção nacional" consistia na distribuição gratuita de mil litros de leite, da linha de produtos brancos do mesmo hipermercado que promove o piquenique/festa.
O descarregamento do leite foi interrompido pela polícia que ordenou a saída do veículo do local.
A ordem foi acatada pela associação que, no entanto, se retirou do local sob protesto.
Ainda assim os dirigentes da associação distribuíram algumas dezenas de litros de leite a transeuntes ou pessoas que iam para o piquenique na avenida. 
A Associação Nacional de Produtores de Leite e de Carne (APLC) foi  impedida de oferecer mil litros de leite junto ao Marquês de Pombal para protestar contra a venda de leite importado nas grandes superfícies.
Há algo aqui que não joga bem! Por um lado incentivam o consumo de produtos nacionais mas por outro....
Quanto à “quinta” instalada na Avenida da Liberdade, acho deplorável  a ideia do local e passo  enumerar :
Findo o concerto do conhecido cantor de música “pimba”, uma onda gigantesca de multidão, lançou-se avenida acima no que me pareceu-me ser uma manifestação de , na sua grande maioria, saloios ( e não querendo ofender os verdadeiros saloios) a passearem-se entre canteiros de couves , alfaces e tomates, como se estes fossem objectos estranhos vindos de um outro planeta. Saliento que, apesar da proibição e fiscalização manifestamente insuficiente para tamanha avalanche de “Portugal no seu melhor” a passagem dos “saloios” equivalia a arrancarem o mais que pudessem todos os vegetais existentes, não obstante os avisos de que tal não era permitido e que todos os produtos seria doados a instituições de solidariedade social. Em vão! O povo tem orelhas moucas! Muitos dos canteiros ficaram despidos do alecrim, da salsa, do hortelã; as alfaces eram retiradas, vindo atrás o torrão, as meloas apanhadas , mesmo verdes, as maças retiradas das árvores, a lista seria exaustiva, poucos foram os canteiros que ficaram intactos, e mesmo estes “salvaram-se” por terem perto a  vigilância de firmas de segurança! No mínimo ridículo!! Até vi as batatas serem  trincadas crúas , pasme-se!!!
Óbvio que nem os pobres animais escaparam do sossego e tranquilidade do meio onde foram arrancados, o que recusei determinantemente ver, uma porca com as suas crias recém-nascidas, rodeada pela bestiaria  que apontava delirante, como se nunca na vida tivesse visto um suíno ao vivo e a cores. Cabras, ovelhas, patos , galinhas tudo animais extra-terrestres !Desgraçados animais!!
Ora até aqui pareço-vos estar  do contra , mas não é bem assim; acho que a ideia até  é boa, mas façam-no em Monsanto ou no Parque da Bela Vista!!  Mas... que sejam os nosso produtores a trazerem os  produtos; a  e a comercializá-los e não uma grande superfície comercial como o Continente; tudo isto não passa de uma gigantesca operação de marketing muito bem orquestrada, a tal ponto que até a RTP – que deveria significar serviço público – passa um dia inteiro a transmitir em directo!!! Eu pasmo com tudo isto! Tudo somado quanto se gastou? E finalmente a quem aproveitou? Argumentam que muitas das crianças não sabem a génese dos produtos, não sabem de onde vem o frango ou a vaca... pois muito bem e papel didáctico das escolas? É que não é só distribuir Magalhães....para além de que, os pais ao educarem os filhos deveriam elucidá-los sobre o “campo” e a “cidade” sob pena de vermos meio milhão de pessoas em plena avenida de uma capital da Europa a olhar para os tomates, alfaces e cebolas, como se da primeira vez se tratasse!!!
E termino com esta constatação....aqui há uns dias atrás fui ao mencionado hipermercado, procurei pelas cenouras nacionais.... não havia...
Tenho dito!



17 junho 2011

O que é Nacional é bom


Escrevinhei um poema, que guardei no fundo da gaveta, já lá vai um bom par de anos. Supostamente  não era para ser lido. Recentemente fui à procura do dito e vi que o papel tinha sido roído por algum insecto bibliófilo, não sobrou uma única letra.  Com  a minúcia possível e munida de lupa procurei em todas as gavetas o autor de semelhante atentado. Por fim, encontrei  o dito bicho e acusei-o do crime de posse de propriedade intelectual. Eis que o malandro me transmitiu que tinha registado os direitos da poesia na Sociedade Portuguesa de Autores. Quanto ao suporte em papel alimentou-se do mesmo e procriou uma nova geração de bibliófagos: deu á luz mais outros tantos animais, que espalhados pelo mundo fora tem conseguido sobreviver à custa do papel escrito. Da próxima vez que tal suceder, em vez de atilar uma qualquer letra, cilindro-o  por inteiro mesmo correndo o risco de deixar o poema sem um til.Tenho ainda uma solução final: convidar para coabitação alguns morcegos vindos ali dos lados de Mafra. Tudo isto para vos dizer que o que é nacional é bom, não só o pão da mencionada localidade, como também os morcegos que habitam o Convento, já para não referir os bibliófilos espalhados pelo continente ( e ilhas). 
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