26 agosto 2013
28 junho 2013
DESERTO
Nos teus olhos brilham estrelas
que iluminam a curva do horizonte
a tua boca a nascente
de um riso que secou na fonte
à noite sob a lua prateada
sou deserto a arder em fogo
no meio da escuridão
no meio de quase nada
E o nada me norteia
sou semente arrastada pelo vento
aprisionada na teia
E eu sei que de nada vale
andar no mundo a viver
esta estranha servidão
que me faz não esquecer
que outrora o deserto era verde
a água sempre a correr
nascia do riso dos teus olhos
e me fazia perder.
perdia-me assim, sem saber
para onde voava a minha alma
num lugar de renascer
vendaval, pirâmide, cume
cimo do monte
fantasias
e eu sonâmbula sem te ver
mas sentido, sempre sentindo
numa eterna vibração
a paz, a harmonia
da natureza a perfeição
Eras tu, era eu
Éramos nós
para onde fomos
nem o eco se faz ouvir
no deserto, na vazio da nossa voz.
@Maria João Nunes
25 junho 2013
Salinas
De que vivo eu, afinal?
se este meu mar é apenas sal
Se tenho a alma curtida
com tanto sol a queimar
se as velas que desfraldei
são asas do meu penar
se sou peregrina na terra
para onde vai meu caminhar
cega de tanto ver
cega de tanto olhar
e desbravando o horizonte
não vejo nenhum altar
Sobra-me esta ânsia
esta visão perdida
andar à toa na vida
a sempre eterna esquecida..
se este meu mar é apenas sal
Se tenho a alma curtida
com tanto sol a queimar
se as velas que desfraldei
são asas do meu penar
se sou peregrina na terra
para onde vai meu caminhar
cega de tanto ver
cega de tanto olhar
e desbravando o horizonte
não vejo nenhum altar
Sobra-me esta ânsia
esta visão perdida
andar à toa na vida
a sempre eterna esquecida..
@Maria João Nunes
19 março 2013
Melancolia

“Quadrado de Dürer” é um Quadrado Mágico representado no canto superior direito da gravura Melancholia , obra do pintor e ilustrador alemão Albrecht Dürer.
No quotidiano que me embala
narcótico e enganador
veneno inodoro e incolor
destilo pedaços d'alma
calo silencios imensos
e nego-me setenta vezes
sete dias por semana
sem fim
e renego-me outras tantas
a não querer saber de mim
pedaço de roda dentada
engrenagem avariada
areia em grão tão polido
tantas vezes já lavada
por água e sal
pedaço de cloreto
que me faz sentir de um jeito
em que não encontro sentido
e no chão, sujo de óleo
da maquinaria infernal
brilha um pequeno nada
que mais parece um cristal
não sei se é pedra dura, perdida
se lágrima que vencida
se deixou cair ali
e tentando esconder da vida
no quotidiano que me embala
narcótico e enganador
renego, nego e aceito
a solução final
fixar apenas o olhar
naquele pequeno cristal.
15 março 2013
Fome
Lagrenee-a-estudante-de-filosofía-pintores-y-pinturas-juan-carlos-boveri
Às vezes dá-me esta fome das palavras
De as usar a sós comigo mesma
Como quem come um pedaço de pão
A alvura da folha chama por mim
Enfarinha a mesa, amacia-a
Como se fora leito alvo e puro
É nesta alvura feita desejo
Que me revejo, e neste puro ensejo
Sonho que sou maior e mais alto
Que ganho asas em cada letra que junto
E deste sonho feito fome me alimento
A mesa, a cama, a folha tudo tão alvo
E eu lá no meio perdida busco sustento.24 fevereiro 2013
Saudades
Este meu coração enlouqueceu de vez
apostado em dar cabo da razão
a pouca que me assiste e já tão débil
qual o remédio para tal loucura
pois já nem sei quem sou
nem o que de mim procura
a outra parte tão perdida
se somos dois ou três
a procurar
o que devia apenas ser um
E saudade enganadora
a fazer lembrar o que não existe
e toda esta vida feita cansaço
ah, deixem-me dormir
devolvam-me o materno regaço
e pousarei lá a cabeça
enquanto tu mãe me afagas
as tranças negras e delas
retiras todo o embaraço.
William-Adolphe Bouguereau- óleo s/tela
apostado em dar cabo da razão
a pouca que me assiste e já tão débil
qual o remédio para tal loucura
pois já nem sei quem sou
nem o que de mim procura
a outra parte tão perdida
se somos dois ou três
a procurar
o que devia apenas ser um
E saudade enganadora
a fazer lembrar o que não existe
e toda esta vida feita cansaço
ah, deixem-me dormir
devolvam-me o materno regaço
e pousarei lá a cabeça
enquanto tu mãe me afagas
as tranças negras e delas
retiras todo o embaraço.
William-Adolphe Bouguereau- óleo s/tela
18 fevereiro 2013
Pink Floyd - A saucerful of secrets (Ummagumma version)
Um sopro, uma aragem
arrepio, frio
morno, calor.
Toque recente, verde
de vagem.
Semente, veludo
passagem
e explode.
Grita, tão perto
não ouve
insiste, desliza
escuro caminho
pisa incerto
Corpo, dor
imenso deserto
Nota só
clave fechada
17 fevereiro 2013
O Barqueiro
Caronte o barqueiro de Hades
Nas águas suaves da memória rolam barcos
carregando sentimentos
desfraldam emoções brancas
parecem nuvens a branquear
o que para trás fica,
seguem vagarosas, deslizam
cisnes em forma de gotas
levam nas penas segredos eternos
ondulam pequenos toques de sal
escamas rosadas, opalinas
marcas do que não se esquece nunca
e é eterno.
Uma voz recôndita brilha no horizonte
redonda garganta de fogo ardente
foz e destino deste barco.
Maria João Nunes (17-02-2012)
16 fevereiro 2013
Vulcão
A gente às vezes cansa-se e pára
deveria ser para pensar,
Mas não pensamos muito mais
nem tão pouco conseguimos parar
e porque toda a acção anula o pensamento
Mas, devo dizer que não consegui
nem pensar, nem parar
e as minhas mãos foram tão poucas
insuficientes neste vulcão que teima em expelir
maldita lava que me queima
maldita cratera por onde sai o pensamento
que não me deixa parar
e , olho estas minhas mãos a pensar
que nada mais tenho que faça a ligação
com o mundo. Lá fora tudo parece inerte
tudo vai jazendo numa onda de rotina
se um dia este vulcão irromper
arrastará atrás dele toda a lama
que sujou a fímbria da minha alma.
20 outubro 2012
Fogo Fátuo
Sabes porque não te olho nos olhos?
Porque o gelo do teu olhar
Embaciou as janelas da minha alma
É como se dentro de mim fosse Primavera
Sempre num eterno florescer de esperança
Mas lá fora, dentro de ti, há um imenso inverno
Um gelar de água parada no rio
Uma natureza adormecida
Um hibernar do teu ser, corpo transido de frio
Onde já não existe vida.
E mesmo assim, ainda te sinto, tão cega de amor que ando
Numa lenta combustão em que te fico esperando.
Desvio o meu olhar pelo transeunte que passa
E sendo apenas um ou todos os que na rua ou na praça
Se cruzam com este fogo, que sem verem onde está
Se o vissem apenas diriam que seria fogo fátuo
Como se eu fora apenas a sombra que liberta devagarinho
Crescendo daquela lápide que está no teu caminho.
Maria João Nunes ( 20-X-2012)
05 outubro 2012
30 setembro 2012
Seda....
(Foto retirada da net - desconheço a autoria)
O teu amor era de seda e foi escorregando nos meus ombros
Esboroada urdidura, trama tecida com afinco
Algures num tear longínquo .
O teu amor era de seda pura, sem mistura
A respeitar a etiqueta que no avesso trazia
Mesmo assim ficou puído, descendo devagarinho
Deixou-me despida e nua
O teu amor era feito de asas de borboleta,
Casulos da cor do sol, até podiam ser sóis
Levados pela corrente numa amálgama empapada
E o toque da seda em mim, uma carícia aprisionada
Escorregou dos meus ombros esvoaçou leve
e aterrou feito restolho numa poça de água na estrada.
25 setembro 2012
Obsessão
Gostava de ser livre para poder dizer que sou livre!
Mas nasci aprisionada no grito onde sobrevivo
Quando o tempo bate no mecanismo inventado
Eu não me oiço
Quando o silêncio se instala dentro de mim
Existem vozes que me falam
E eu não me entendo
Porque não sou livre, deixei-me aprisionar
Pela verdade que creio ser minha
E não tenho nada de mais a não ser
Esta estranha obsessão de continuar a gritar
Para que alguém me ouça
E me diga que eu existo!
Maria João Nunes
21 setembro 2012
Esta estranha energia metafísica que me assola
Que me invade como se fora ondas de um oceano profundo
Como se fora asas que galgando me devoram e me afastam do mundo
Estranho voo nupcial em que as palavras vivem como se cópula fosse
E me deixam encantada neste reino animal, onde a conquista se impõe
Diária e sem nenhuma trégua neste abismo colossal onde lutam forças
Quase sobrenaturais a que chamam de Bem e Mal.
Sempre este duplo sentido de uma origem desconhecida
Sempre esta vaga incerteza com que se constrói a Vida.
E este mistério da origem surge como coisa encantada
Esta estranha esperança de sedução de paraíso logo se abate
Como se fora nuvem carregada de granizo.
Fenómeno de perdição que em água se dilui, tal como o meu corpo
Assim fica, quando minha alma flui e galgando pelo espaço
Me deixa inerte e vazia como se calasse algures o som
e o coração cesse por fim o seu compasso
15 setembro 2012
11 setembro 2012
Âncoras
São todas as palavras
do mundo
Âncoras que nos
seguram à vida.
Para lá do tempo não existem as palavras
E não existe mundo sem tempo
E no tempo construo embarcações
Onde guardo todas as palavras do mundo.
Ardem as palavras quando presas dentro de nós
E forjam-se umas tantas, outras não
Revoltam-se e reviram-se e soltam-se
Vão com a maré , afundam-se
Afundam-nos.
Difundem-nos.
São as palavras do mundo
Âncoras que nos suportam
Navegando contra o silêncio,
E esta corrente que fica, este tingir
De marca d’agua com palavras,
âncoras que seguram o pensamento
E não o deixa naufragar.
Maria João Nunes
08 setembro 2012
Tanta coisa por dizer
Lua azul
Foto: ©Maria João Nunes
Foto: ©Maria João Nunes
Porque me invade a melancolia
Sempre que chega a noite e cai o dia?
Porquê à tardinha, naquela hora
Sempre morna, espero eu sem sentido
E voa o meu pensamento
Como se fora um foragido.
Para onde corre o coração?
Como se fora rio ou mar
Nestas paragens de ilusão
Onde te recriei sonhando
Que realidade era
aquela
Que tantas saudades
deixa
Tantas cartas por escrever
Tantas palavras caladas
Tanta coisa por dizer.
Neste anseio a divagar
Perde-se de mim o olhar
Foge-me a alma do corpo
É tudo água a transbordar
Maria João Nunes
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