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10 agosto 2010

O Ladrão de Estrelas

O Tejo tem esta noite uma gargantilha de diamantes.
Quem lha ofereceu foi a linha do horizonte, que se deitou sobre ele. Espécie de colo de novela negra, uma Auá ebúrnea.
Vaidoso,  calmo e vagabundo.
Todos o olham e não é de ninguém.
Das margens, avisto de quando em quando, um fino estilete a marca-lhe as entranhas, pequeno batel
de luz vermelha a fazer lembrar um  rubi
que desliza sereno, talvez uma ínfima gota de sangue que jorre dolorosa.
Reflexos ígneos de um Conde de Monte Cristo, uma mão de finado que se ergue  da escuridão.
Sei pela luz que passa, e que risca o firmamento,  que  alguma estrela cadente se enamorou do rio e desce rápida ao seu encontro. Outras há que brilham ainda seguras lá no cimo. Ainda  distantes, ainda longínquas. Não importa onde estejam; um dia  um tempo virá,  em que todas as estrelas do meu  infinito virão banhar-se nele e o Tejo será  um eterno luzeiro a brilhar no caminho- Solitário, vagabundo e  seguindo até à foz. Sempre de uma beleza que se fosse humana seria insuportável, guardando o brilho das pratas. É talvez por isso que ainda não sou estrela cadente. É talvez também e ainda por isso, que me assemelho mais a um fino estilete. E rasgo-te a espaços amiúde, tentando entender de que é feito o teu veludo aquífero. E continuo a não entender o porquê deste equilíbrio entre nós dois. Tu aí altivo a correres-me aos pés e eu na margem a tentar agarrar-te os sonhos que levas para o mar.

22 março 2010

O rio da minha terra.

O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.
Quem está ao pé dele está só ao pé dele.
Alberto Caeiro

O rio corre manso à minha beira enquanto vou percorrendo com o olhar a tela pintada em tons de azul, por mestre desconhecido. Uma imensa baía emoldurada por margens que parecem fechar-se sobre si próprias e me enlaçam. Na linha do horizonte, mesmo em frente, a Arrábida coberta com véu de bruma, serena e majestosa, como uma ilusão de óptica faz repousar uma extensa linha branca de casario no sopé.
Nuvens acasteladas, brancas, densas, mescladas de azul e cinza tocam as brancas velas dos barcos que, ocasionalmente solitários, parecem tombados por uma brisa persistente que os inclina, obrigando a adormecer no leito azul do rio, beijado aqui e além pelo voo picado das aves, pescadoras clandestinas, sem licença alguma para o fazer.
Chegam-me em surdina, o barulho da urbe, apitos estridentes, buzinas, travões de carros, ambulâncias, vozes humanas, uma mistura implacável que quebra o ritmo da natureza, mas mesmo assim, sobrepõem-se o doce marulhar das águas que chapeiam monocórdicas a velha pedra calcária das margens, em incontáveis movimentos – uma agradável sensação de calmaria e de paz, uma espécie de bater de coração que nos parece embalar.
Pescadores de beira - rio, pares de namorados, juntos, quietos, apenas presos pelo olhar, pontilham a margem , perdida no imenso azul aquífero , percorrido por inconfessáveis arrepios que lhe alteram a aparência de veludo azul cristal.
Mais ao longe- não muito - numa constante ronceira o cais de ferro, pesadão e negro, geme ferozmente, engolindo os milhares de passageiros que num vai e vem frenético, em ritmo alucinante os traga dia após dia, uns regressam, outros não, algo ainda mais negro os tragou- diria, que foi a vida, talvez a morte, não sei; certo é, que estou ainda aqui ao pé do rio da minha terra, onde um dia nasci e, onde um dia também eu morrerei , quem sabe se a olhar-te assim, e assim eu me vou ficando todos os dias um pouco mais de terra, um pouco menos de água. “E eu só ao pé dele”.