24 março 2010

Rodicka Simeonescu

Aquando da imposição, pela União Soviética de um governo comunista o rei Miguel I foi forçado a abdicar e a exilar-se . Nicolae Ceauşescu tornou-se o chefe do Partido Comunista Romeno em 1965, originando a fuga de milhares de romenos dissidentes para diversas partes do mundo.
Em dois protocolos secretos, os dois governos, o nazi e comunista, efectuaram a partilha dos territórios da Europa de Leste, estabelecendo estreitas relações comerciais da maior importância para os países envolvidos.
È com este cenário por pano de fundo que Rodicka Simeonescu e o seu marido diplomata fogem para Portugal.
Rodicka Simeonescu, era senhora de grande estado e condição; quando a conheci fiquei extasiada: - olhos pretos-pretos-azeitona, enormes a fazerem lembrar duas pedras de ónix, sombreados a verde esmeralda, encimados por uma estreita linha de sobrancelha, olhar de ave de rapina- das maiores claro, daquelas com uma envergadura de asa que nos deixa a nós humanos encolhidos e a olhar de lado! Testa alta encimada por um cabelo negro asa de corvo, enormes brincos bojudos, a lançarem chispas com tanta pedraria engastada. De resto trajava com alguma elegância, clássica no vestir ao contrário dos seus gestos exuberantes, gesticulando sempre.
Fazia lembrar uma velha cigana, quase que me imaginava a estender-lhe a mão para que me lesse a sina.
- Como estás tuuuuuuuuu minha querridaaaaa amigaaaaa?
Acompanhava esta interrogação com um abrir de braços, como se viesse dar-me um abraço. E dava mesmo!
- E o nosso querridooo meninuuuu? Como estás ele?
Sempre gentil a perguntar pelo meu filho, que tinha conhecido num passeio a Reguengos de Monsaráz e que adormecera tranquilo no colo dela.
Para todos o que se cruzavam com ela, tinha sempre esta forma de falar, um português adocicado e carregados nos erres.
Dizia-se à boca calada que tinha sido amante de um Ministro no tempo do Estado Novo, quando desembarcou em Portugal, apaixonou-se e logo ele lhe montou um apartamento ali para os lados do Bairro Azul.
Mais tarde tratou de lhe conseguir um canudo que dava direito a leccionar em colégios particulares.
Sucede que faleceu o Ministro e o marido também.
Azar dos azares, nunca fez descontos para a Segurança Social, sempre com os chamados recibos verdes chegou a uma situação de quase miséria e muita penúria.
Vivia rodeada dos seus felinos e objectos de estimação, muitos deles peças de arte, provas de afecto do tal ministro que sempre a amparou.
Certo dia, ao fim da tarde, conseguiu convencer-me e leu-me a buena dicha, estendi a mão para ler minha sorte. Honestamente devo reconhecer que leu bem, disse-me coisas tão verídicas e sérias que retirei a mão assustada. Ela sorria misteriosa, entrando pelo meu olhar adentro, perscrutando-me a alma acrescentou o seguinte :
- Minha querridaaaa...
Quando o amor te acenar, segue-o ainda que por caminhos
ásperos e íngremes.
E quando suas asas te envolverem, rende-te a ele.
Ainda que a lâmina escondida sob suas asas possa feri-te.
E quando ele te falar , acredita no que ele diz,
Ainda que sua voz possa destroçar os teus sonhos,
Assim como o vento norte devasta o jardim
Pois, se o amor coroa, ele também te crucifica.
Se te ajuda a crescer, também te diminui.
Se te faz subir às alturas e acaricia seus ramos
mais tenros que tremem ao sol, também te
faz descer às raízes e abala a tua ligação com a terra.
Como os feixes de trigo, ele mantém-te íntegra.
Debulha-o até deixá-lo nu.
Transforma-o, livrando-o de sua palha.
Tritura-o, até torná-lo branco.
Amassa-o, até deixá-lo macio e, então, submeta-o ao fogo
para que se transforme em pão, no banquete sagrado de Deus.
Todas essas coisas pode o amor fazer para que tu
conheças os segredos de seu coração e, com esse
conhecimento, te tornes um fragmento do coração da VIDA.

Só mais tarde, muito mais tarde mesmo, soube que estes versos pertenciam a Khalil Gibran, fiquei intrigada quando, certa tarde recebi uma estranha missiva sua, a pedir-me que um dia lhe levasse camélias brancas...
Vim de lá agora, deixei-lhe o ramo de camélias tal como era seu ultimo desejo; poucas pessoas estavam para a despedida, conheci a filha e o neto já tardiamente – pena é que só depois da morte e perante esta, as pessoas se reunam, esquecendo que é no mundo dos vivos que devemos amar os outros como gostaríamos que nos amassem a nós.
Deixou-me ali um amuleto, um estranho peixe de metal, por via dos maus-olhados, conservo-o pendurado na parede. Acabei de olhar para lá e sorri.

22 março 2010

O rio da minha terra.

O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.
Quem está ao pé dele está só ao pé dele.
Alberto Caeiro

O rio corre manso à minha beira enquanto vou percorrendo com o olhar a tela pintada em tons de azul, por mestre desconhecido. Uma imensa baía emoldurada por margens que parecem fechar-se sobre si próprias e me enlaçam. Na linha do horizonte, mesmo em frente, a Arrábida coberta com véu de bruma, serena e majestosa, como uma ilusão de óptica faz repousar uma extensa linha branca de casario no sopé.
Nuvens acasteladas, brancas, densas, mescladas de azul e cinza tocam as brancas velas dos barcos que, ocasionalmente solitários, parecem tombados por uma brisa persistente que os inclina, obrigando a adormecer no leito azul do rio, beijado aqui e além pelo voo picado das aves, pescadoras clandestinas, sem licença alguma para o fazer.
Chegam-me em surdina, o barulho da urbe, apitos estridentes, buzinas, travões de carros, ambulâncias, vozes humanas, uma mistura implacável que quebra o ritmo da natureza, mas mesmo assim, sobrepõem-se o doce marulhar das águas que chapeiam monocórdicas a velha pedra calcária das margens, em incontáveis movimentos – uma agradável sensação de calmaria e de paz, uma espécie de bater de coração que nos parece embalar.
Pescadores de beira - rio, pares de namorados, juntos, quietos, apenas presos pelo olhar, pontilham a margem , perdida no imenso azul aquífero , percorrido por inconfessáveis arrepios que lhe alteram a aparência de veludo azul cristal.
Mais ao longe- não muito - numa constante ronceira o cais de ferro, pesadão e negro, geme ferozmente, engolindo os milhares de passageiros que num vai e vem frenético, em ritmo alucinante os traga dia após dia, uns regressam, outros não, algo ainda mais negro os tragou- diria, que foi a vida, talvez a morte, não sei; certo é, que estou ainda aqui ao pé do rio da minha terra, onde um dia nasci e, onde um dia também eu morrerei , quem sabe se a olhar-te assim, e assim eu me vou ficando todos os dias um pouco mais de terra, um pouco menos de água. “E eu só ao pé dele”.

15 março 2010

O comandante

Reformado da Marinha Mercante, conheceu em tempos idos a bordo de navios que transportavam mercadorias, as sete partidas do mundo, azuis águas do Pacífico, Atlântico verde e profundo, cruzou os mares enfrentando tempestades, conheceu portos e deixou em cada um deles, como todo o bom marinheiro que se preze , namoradas e inconfessáveis aventuras.
Não era um homem comum, apesar dos seus setenta e muitos anos, conservava ainda uma invejável actividade, fazia-se rodear sempre que possível de uma corte feminina, também elas já em idade provecta. Homem baixo, cabelos brancos, fazendo lembrar pela sua lentidão um cágado, mas de olhar vivo e maroto, desprendia-se-lhe um odor agri-doce enjoativo que afastava os narizes, até os menos sensíveis.
Frequentava no dia a dia um clube recreativo, fazia dele a sua segunda casa. Inúmeras exposições sobre barcos, navios, fragatas eram de sua autoria com fotos de navios pacientemente recolhidas e recortadas de calendários, revistas da especialidade tudo o mais que viesse à sua rede de comandante da marinha mercante.
Para além do gosto pelo sexo oposto, o comandante tinha verdadeiro amor pelas tartarugas, e cágados, estes uma variante portuguesa das tartarugas, inclusive chegava a baptizá-las com nomes de Ester Williams , uma estrela do cinema americano, campeã de natação e actriz num filme chamado “Escola de Sereias”, Pitágoras porque era um cágado muito esperto , especializado em triângulos rectângulos e Arquimédes, uma alusão ao principio de Arquimédes em que os cágados e as tartarugas mergulham e vêem à superfície
Aos domingos à tarde passeava as tartarugas pelos lagos da cidade e arredores; escolhia os locais menos frequentados, atravessando zonas interditas dos jardins de Queluz, um dos seus locais preferidos com lagos que possibilitavam o doce lazer das suas criaturas de estimação . Um dia arriscou-se demasiado , a tal ponto que o guarda florestal o perseguiu em passo apressado, deixando o pobre do Comandante ofegante, exaurido de tanto saltar as sebes dos relvados do palácio. Atrás de si arrastava triunfal, guardadas dentro da camisa Ester Williams e Pitágoras!
Certo dia o Comandante planeou organizar uma tertúlia musical, fazendo-se acompanhar das suas inúmeras fans; um sucesso de bilheteira! Veio inclusive anunciado em cartazes espalhados pela cidade.
Tive o privilégio de, ocasionalmente, observá-los no doce fruir da música italiana - pois está claro! Cabeças já platinadas pelo tempo cantavam melodias de outras eras, trauteavam e comentavam como era romântico, lembravam os bons velhos tempos, os bailes a bordo dos navios de cruzeiro, era ainda o Comandante um rapaz jovem e garboso. Tudo isto para já não falar da sua paixão platónica pela jovem italiana que frequentava a sociedade recreativa. Trinta anos mais nova.
Sucede que, aqui há umas semanas , misteriosamente ao velho comandante, desapareceu-lhe um disco de vinil da sua rara colecção, percorreu alucinado todas as dependências da sociedade recreativa, em busca de tal artefacto; alguém lhe disse para rezar um responso ao Santo António, talvez pudesse resultar, sucede que ninguém sabia a reza por inteiro e, assim lá se deu como perdido o disco de vinil da Amália.
Há poucos dias voltei a vê-lo novamente; dentro da camisa vermelha assomava a cabeça da Ester Whiliams, tirou-a com cuidado e pousou-a sobre a minha secretária. Fiquei parada a olhar o bicho que, também parecia fitar-me A solidão tem destas coisas, homem e animal irmanados deixam-me a pensar sobre o sentido da vida.

11 março 2010

Como se não houvesse mundo lá fora...

Pudesse eu ter um tempo diferente
Enlaçar-te assim consciente
Construir-te em mim
Poder beijar-te
Como se não houvesse mundo lá fora
E fossemos só nós
Os dois a sós.

“Mais do que sonho: comoção !
Sinto-me tonto, entontecido,
Quando, de noite, as minhas mãos
São o teu único vestido.” D.M.Ferreira

Não saber que o dia corre
E a lua foge
Esquecer que amanhece
Não sentir mais esta febre
Que em nós tudo estremece
E nos impele
A amarrar as madrugadas
A suspender os dias
Do tanto que te sei
Que já não sei
Se te inventei
Ou tu a mim

E despida ou não,
O meu corpo (em) chama
Acesa na noite
A tua mão
Que me veste
Num abraço
Aquele único
Que me deste.

“Desvio dos teus ombros o lençol,
que é feito de ternura amarrotada,
da frescura que vem depois do Sol,
quando depois do Sol não vem mais nada...”
D.M.Ferreira

09 março 2010

Toda a vida é tanto tempo...

Tem um tempo que é uma eternidade a passar. Existem momentos ( outros) que se escoam tão rápido , como flecha, como zagaia atingindo a presa., Nestes espaços, interstícios de vivência “O saber é pouca coisa para quem conhece. O saber desencanta o mistério. O conhecimento vive cara a cara com o mistério”, escreveu Almada Negreiros.
E no tempo, vivem lado a lado o conhecimento e o mistério de nós próprios e dos outros.
“Ser o próprio é uma arte onde existe toda a gente e em que raros assinam a obra-prima” ( A.Negreiros). Venho do Nada e transformo-me num único personagem do mundo sensível- o Todo - e daí, nasce o Tempo, aquele que nos une, que nos separa. Já nasço mudada, quando morrer mudarei também. Eu. Não quero sofrer a existência , quero permitir-me viver, sempre na eternidade de deixar que o tempo seja um momento que se escoa rápido, vorazmente em direcção ao Nada. É no zero que tudo se inicia.Sempre a reiniciar o disparo. Certeiro. Eterno.

02 março 2010

"DEIXEI-TE O SORRISO EM CASA"mais um livro de António Santos.





A partir de dia 10 de Março, estará disponível este "sorriso" magnífico em qualquer livraria do País. Faço votos que, seja um sucesso de vendas, e que a boa crítica literária lhe dê os créditos que tanto merece. António Santos tem apresentado ao longo da sua vida um trabalho sério e profissional.
Desta feita, e uma vez mais, assumiu novo compromisso para com a escrita literária . Seguramente valerá a pena ser lido, apreciado e sobretudo acarinhado. Tanto se escreve neste país, nem sempre com qualidade; - este não é o caso! Aconselho-vos vivamente este "sorriso".

PRÉMIOS/DISTINÇÕES
Sete de Ouro/1987
Melhor autor e realizador de Rádio com o programa “As Noites Longas do FM Estéreo”.
Troféu Nova Gente/1984
Melhor apresentador de Rádio com o programa “As Noites Longas do FM Estéreo”.
Troféu Verbo/1985
Melhor divulgador de livros,na Comunicação Social,no programa Jornalinho”.
Troféu de Prata
Rádio Clube de Moçambique/1971:Pelos programas “Cabine Dois”, “Nova Dimensão”,reportagens e noticiários;
Nomeações para o Sete de Ouro:
1984, 1985 e 1986 - para melhor autor de televisão, programa “Jornalinho”
1989, 1990 e 1991 - para melhor jornalista/apresentador de televisão,programa“Domingo Desportivo”.
1982, 1983, 1984, 1985, 1986 e 1987 - para melhor autor,realizador, e apresentador de Rádio, programa “As Noites Longas do FM Estéro".
Nomeação pelo jornal “A Capital”:
Um dos dez melhores programas de Rádio da década de 80 - “As Noites Longas do FM Estéreo”.

28 fevereiro 2010

Noite


Johann Heinrich Füssli;" O Pesadelo"; 1781.


Pássaros riscavam a noite em tons de azul escuro.
No horizonte mais próximo, o rendilhado das árvores
fazia ninho em redor dos candeeiros.
Coroas mágicas enovelavam a luz.
Fantasmas ondulantes acolhiam de ramos abertos
Asas palpitantes que se precipitavam em bandos
Procurando o melhor galho,
Para o aconchego da noite.
O traçado dos pneus deixava rasto brilhante
No asfalto negro e molhado.
Os passos surgiam silenciosos, entre o nada
e o silêncio que se instalava devagar.
A noite surgiu, enrolada no manto de névoa escura.
Num fundo de cimento, uma janela brilhava,
luz branca, coada por cristal de murano.
Era o centro do universo.
No amanhã nascerá uma nova madrugada, e os rouxinóis
cantarão a noite inteira para a celebrar.
Quando o sol surgir, os meus olhos ganharão asas
E irão pousar-te no beiral.
Estenderás a tua mão cheia de grãos de luz
E alimentarás a minha alma faminta.

23 fevereiro 2010

Não posso adiar a palavra

Não posso adiar a palavra
Sob pena
De a pena não correr
E o punho desfalecer.
Trago a dor presa na mão
Esta dor tão portuguesa
Este sentir a saudade
Que sufoca no meu peito
Anseia por liberdade.

E no bico da caneta
Como fino estilete
São rios de tinta preta
A manchar o meu corpete
Que me aperta
Que me oprime
escondido no peito
Este inútil prisioneiro
De crime será suspeito
De me fazer adiar
O sentido das palavras
Sem predicado
Nem verbo
E sem um único sujeito.

22 fevereiro 2010

A Noiva

Chamavam-lhe carinhosamente a “ Menina”, inteligente e culta a que melhor se sabia expressar, como ela não havia outra igual. Destacava-se assim entre as demais, comentavam que tinha sido educada primorosamente, talvez um pouco mimada e protegida dos males do mundo; crescera demasiado contestatária e senhora do seu nariz.
Aos domingos, depois da missa, era costume a reunião no adro da igreja, comentando as tricas e as novidades da vila e de algumas revistas que chegavam ao povoado apenas uma vez por semana. Uma algazarra dos diabos! Seguiam depois em grupos estrada fora, fazendo lembrar flores brancas na beira dos caminhos. Domingo era dia de reunião de família, da cidade vinham os irmãos trazendo pela mão os netos, louros de faces carminadas, fustigadas pelo vento e brincadeira.
Em idade casadoira, a Menina esperava confiante pelo noivo que defendia a Pátria lá pelas Áfricas, bem longe dos campos que ambos tão bem conheciam: - Os campos com cheiro a feno no pino do verão, ou as primeiras queimadas de outono, através da memória olfactiva recordava sensações inebriantes que a faziam corar e quase desfalecer.
Desde bordar o enxoval, ler um livro ou pintar um quadro era sempre a mais prendada, tinha mãos de fada – diziam!
A Menina emprestava cor à vila, ao adro, aos campos; a vida sorria-lhe em cada dia.
Certa manhã, o carteiro já ofegante, calcorreava o empedrado cinzento de basalto avançava rápido trazendo o saco ao ombro cheio de palavras sortidas – como as caixas de bolos que antigamente se vendiam.
Recebeu das suas mãos, ansiosa por notícias, um sobrescrito cor sépia, com o escudo português no canto superior esquerdo; no interior em missiva dactilografada e formal , dava conta que o noivo tinha sido ferido numa emboscada na zona de Viana, à saída de Luanda, antes de chegar a Nambuangongo.
Quedou-se , sentada na escadaria de granito; o tempo parou de imediato, suspenso sobre ela mesma, vendo-a endoidecer de saudades. Por ali ficou anos a fio, enredada, presa aos cheiros das queimadas, o aroma da primavera e do feno do verão.
Dizem as gentes locais que ainda hoje lá está olhando a curva do caminho, à espera de ver chegar o noivo.
Dentro da casa de vez em quando uma voz chama: - Mãe....!

21 fevereiro 2010

Morrer lentamente

A porta fechou-se de mansinho atrás de si. Desceu vagarosa o lancil de pedra mármore, que emoldurava a porta de entrada da casa.
Percorreu os locais preferidos da cidade; há muito que tinha perdido as suas crenças, era como um invólucro vazio, um corpo sem rumo, perdida a esperança.
Mesmo fazendo tudo ao contrário, para não morrer lentamente, existia apenas uma linha de sentido obrigatório em direcção ao fim da vida..
Veria chegar o fim e descobria que há tempo relativo, medido pela nossa cabeça que pode ser rápido ou lento, e um tempo absoluto (medido pelos relógios) que é inexorável e nos mostra os tempos que perdemos quando fazemos as contas.
Foi tudo isso e muito mais que lhe passou pela mente, enquanto, sentada na paragem de autocarro, olhava, sem olhar, o vai e vem apressado da cidade que corria sabe-se lá para onde.
No alto da cidade, existia um miradouro que ela recordava agora; ali o tempo tinha sido rápido, não tinha parado como ela desejara, nem mesmo dentro da pequena igreja, onde interiormente uma prece tímida tinha brotado, esse tempo tinha partido à desfilada, levando consigo um outro tempo que nunca mais voltaria, mas ela não o sabia ainda.
Ocorria-lhe uma frase de Pablo Neruda :
“Morre lentamente quem evita uma paixão, quem prefere o negro sobre o branco e os pontos sobre os “is” em detrimento de um remoinho de emoções justamente as que resgatam o brilho dos olhos, sorrisos dos bocejos, corações aos tropeções e sentimentos.”
Também ela não tinha sabido evitar essa paixão, e morria na mesma , lentamente, sem brilho nos olhos, sem sorrisos e tropeções só os do pequeno coração que batia dentro de si. Um coração que pararia em breve.
Chovia no corpo enregelado, dois corações a bater num só compasso.
O amanhã não existiria para nenhum deles. O ontem tinha sido construído sobre a clandestinidade, oculta na noite, entradas e saídas na escuridão de uma qualquer curva de estrada mais sombria.
Caminhou devagar até um pequeno jardim, onde podia avistar a memória do que já não mais seria presente. Ainda conseguiu sorrir, lembrando beijos que lhe tinham sido roubados.
Abandonou-se por ali, num pequeno banco de madeira, ensopado de chuva e de tantas outras confidências feitas ao longo do tempo.
A manhã não conseguiu chegar até ela. Quando o sol nasceu já era tarde para os dois corações que pararam na madrugada gelada.
Tal como um relógio sem corda.

17 fevereiro 2010

Vénus


Nascimento de Vénus

Colinas suaves,
macias,
Aveludadas,
cor de areia.
Esculpidas
nas minhas mãos
Lua cheia,
Luz coada
Vénus abandonada
Em monte coroado
Rosado,
ponto a ponto
Em contraponto,
Em ida e volta
Ofegante.
E nos teus olhos
O brilho de diamante
E da tua pele macia
Brotam bagas de cristal
Escorrem pelos dedos
Delírios de fantasia
Sem máscara,
com magia
Sussurrando
Com meiguice,
Com desejo
Ondulando
Já sem pejo
Mordendo
A boca
E o beijo.

15 fevereiro 2010

Rituais

No trilho das traições
Percorri, alucinada
pela vereda escura
uma longa caminhada.
Pelos quatro caminhos
Eu segui atormentada.
Nas sebes espinhosas
Oculto entre a ramagem
Negra criatura espreitava
Coração oculto
Alma turva
Olhar pardo e visceral
Negro e feio bicho
de seu instinto animal
Meio homem
Meio deus
Personificação do Mal
Enraivecido pela vida
Descarregou em mim
Todo o fel, todo amargo
Pestilência sem fim.
Envolvida num casulo
Finas teias de egoísmo
Aprisionou-me o corpo
E lançou-me no abismo.

Agora pairo, no limbo
entre o ser o não ser
vivo só por umas horas
até ao amanhecer.
Quando o sol nasce
morro eu, até ao entardecer.
É na escuridão da noite
que vou tentando viver.
um corpo feito núvem
um coração de fractal
a alma perdi-a na queda
num estranho ritual.

12 fevereiro 2010

O sofrimento é como sal que curte a alma

O sofrimento é como sal que curte a alma, torna-a numa espécie de pele macia, de toque agradável.

Impossível olhar e não deixar de ver que existem peles curtidas pelo sofrimento, pequenas mãos sofridas, corpo e alma com magro sustento.

Quereria eu escrever sobre a beleza, sobre o sol, sobre o sorriso das crianças, mas vislumbro neste mundo egoísta, tanta falta de sensibilidade e sobretudo teoria e palavras ocas espalhadas ao vento , uma espécie de adubo tóxico . Alguns chegam mesmo a invocar o nome de Deus em vão : - Deus é Pai – para os que lhe batem à porta, para os que levam à risca os seus ensinamentos. Letra morta não faz Fé!
E por falar em “bater á porta” eis que...

Hoje entrou-me um pequenino pássaro pela minha alma adentro; esverdeado, minúsculo, com um bico preto afiado, olhos negros brilhantes – duas pequeninas missangas. Para o salvar do embate contra as vidraças, tive de apanhá-lo, de o manter cativo por breves instantes . Senti o seu minúsculo coração a bater descoordenado.
Em voz baixa sussurrei: - Meu pequenito, as minhas mãos, pequenas e sofridas, não te fazem mal, prendi-te para te libertar da morte.
Transportei-o com cuidado, sentindo o calor do seu corpo assustado, depois abri a minha mão e soltei-o no sol, rumo às nuvens que passavam.
Por vezes existem almas que se cruzam, feridas nas asas, basta um pequeno gesto para que se elevem e cicatrizem os rios cor de rubi, peles curtidas pelo sofrimento.
Rugas e vincos são memórias do sal que fica impregnado nos dias das nossas vidas.
Voa pequeno pássaro!....

11 fevereiro 2010

Poesia desidratada

Morro de sede, de um absoluto
efémero, que nunca fica.
Registado e vivido,
apenas a marca, indelével
a repetição do sentido.

Seres tu Calipso e eu Circe
paradoxo estranho,
frágil e vulnerável
e o futuro a repetir
até à exaustão a memória
do que não é presente
O não seres tu,
o não ser eu.
Não sermos gente.
repetição do sentido
registado e vivido
Desidratado, seco
no silêncio prosseguindo.

29 janeiro 2010

Cartas a Um Jovem Poeta

“Só existe uma solidão. É grande e difícil de suportar. E quase todos nós conhecemos horas em que de bom grado a cederíamos a troco de qualquer convivência, por muito trivial e mesquinha que fosse; até pela simples ilusão de uma pequena coincidência com qualquer outro ser, mesmo com o primeiro que aparecesse, ainda que assim resultasse talvez menos digno. Mas acaso sejam estas, precisamente, as horas em que a solidão cresce – pois o seu desenvolvimento é doloroso como o crescimento das crianças e triste como o início da Primavera – ela, sem embargo, não deve desconcertá-lo, pois o único que, por certo, nos faz falta é isto: Solidão, grande e íntima solidão. Mergulhar em si mesmo e, durante horas e horas, não encontrar ninguém…Isto é o que importa conseguir. Estarmos sós, como estivemos sós quando éramos crianças, enquanto á nossa volta andavam os grandes de um lado para o outro, enredados em coisas que pareciam importantes e grandes, só porque eles se mostravam muito atarefados, e porque nós não entendíamos nada dos seus afazeres.
“Ora bem, se um dia os adultos acabarem por descobrir quão pobres são as suas ocupações, e como as suas profissões são vazias e falhas de qualquer nexo com a vida, porque não seguir, então, olhando todas essas coisas com os olhos da infância, como se fosse algo exterior e estranho? Porque não olhar tudo de longe, da profundidade do nosso próprio mundo, desde os extensos domínios da nossa própria solidão, que é também trabalho e dignidade e ofício?”.
(Rilke, “Cartas a Um Jovem Poeta”, sexta carta, de 23 de Dezembro de 1903)

22 janeiro 2010

Cogito, ergo sum


Vénus beijada por Cúpido - Agnolo Bronzino (1503-1572)
Se soubesse
O que gostava de saber
se gostasse do que sei
sabendo com isso
aquilo que não sei
contudo nunca soube
o som e o gosto
do Amor
Entre outras coisas
só a cor e o cheiro
da dor.
Vermelha e negra
ácida e cáustica
desconheço outro sabor.
Rasguei-me
reinventando
o que pensei
o que gostava de saber
e quando soube
apenas quis
não ser.

21 janeiro 2010

Margens

As margens do meu rio
são feitas de palavras
que aprendi a deixar ir
como se fossem fragas
tão lentas nesse partir.

Deixo-as correr, seguem
pelo leito empedrado
ora singelas e calmas
ou em tropel revoltado.

Cantam-me as águas do rio
um adeus de bruma leve
um bramir de ventania
arrastam atrás de si
a espuma da poesia.

20 janeiro 2010

Palavras


perrault_leon_jean_basile_flechas_cupido
Dizem....
Que o Poeta sente
E sente só
Quando vive
E sofre só.
E nascem
As palavras
E sobem
Com forma
De anjo
Perdido.
Nunca chegam
Nunca partem
Nunca passam
De um gesto
Sofrido.
Lento
Palavras
Com asas
De anjo
Caído.

18 janeiro 2010

Este é o meu País ( outrora marinheiros )

Cada um de nós anda fechado
Cada vez mais encerrado
Na sua torre de marfim
Eternos bastiões
De uma solidão sem fim.

São ameias e torreões
Castelos de desencantar
Terras a perder de vista
Onde não se avista o mar

Junto á costa é só ruínas
Dos pobres mortais
Que se perderam assim
Sem vilões e heroínas
Ao correr dos vendavais

Na curva do horizonte
Jaz a ponte levadiça
Eternamente fechada
Contra os muros de caliça
A cair na paliçada
Ilusão de segurança
Triste moira encantada
Que espalhas contra o vento
As cinzas do pensamento
Vives vazia e sonâmbula
A carpir o sofrimento.

11 janeiro 2010

Às vezes não me conheço
Nem a mim, nem a ti.
Existe mais medo que coragem
Nesta forma de desconhecido
Fingindo que sim.
Que para ti e para mim
Tudo faz todo o sentido.
Tanta mentira assumida
Quando a verdade era
Mais fácil de ser vivida.