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08 julho 2012

O Caminho




Esgaravatando dentro de mim, à procura
Procurando-me, sem contudo encontrar
Profanando cantos obscuros, onde o riso
nunca ri. Tal como Prometeu aguilhado.
Oito longos anos a um leito amarrado.
O mesmo tempo tenho levado, procurando
Enquanto a alma num crepúsculo
Se enche de sombras viscerais e
numa estranha voragem, perco-me de todos
e a história vai-se escrevendo, inútil.
Igual a si própria e à de muitos, a ninguém aproveita.
Pois todos me desconhecem e não sabem o meu nome.
Amanhã dirão que não existi,  porque não toquei
A alma de ninguém.
Nasci do ventre de minha mãe e do caminho a percorrer
Até esse me ordenaram que deveria esquecer.

Maria João Nunes
08-07-2012

17 janeiro 2012

Um Novo Começo


Nú Feminino - Manoel Constantino 
 
Ninguém pode fazer história se não quiser arriscar a própria pele, levando até o fim a experiência da própria vida, e deixar bem claro que sua vida não é uma continuação do passado, mas um novo começo. Continuar é uma tarefa que até os animais são capazes de fazer, mas começar, inovar, é única prerrogativa do homem que o coloca acima dos animais.
Com efeito ela assim pensava e lutava para se manter à tona da dura realidade que enfrentava há já alguns anos.

Vitima de violência doméstica com requintes de tortura psicológica tinham-na levado ao seu limite máximo de resistência. Ele tinha sido militar e fez questão de aplicar nela as  práticas destinadas ao inimigo: agredia sem deixar marcas físicas.

Um dia ela fugiu.

Fugiu dele e de si própria. Deixou de o amar e pensava muitas vezes que, provavelmente nunca o teria amado – saiu de uma relação de tantos anos a pensar que não tinha sobrado nada. Esqueceu tudo o que ficou para trás.
Recomeçou.

Procurou refugio e companhia e deixou-se novamente encantar, pensando que com isso se libertaria realmente. Entregou-se , de novo, de corpo e alma. Havia  uma rosa a florir e um responsável por esse florescimento. Tinha levado tanto tempo aquele jogo de sedução.
De novo o destino lhe bateu no corpo e na alma. Recusou-se a acreditar que fosse possível tal sorte. Lembrava Jung e concordava com ele: (...) O homem que não atravessa o inferno de suas paixões, também não as supera”.
Revestiu-se de paciência, procurou refúgio em Deus, tentou perceber o que era o Amor e percebeu que finalmente amava, contra tudo e contra todos.
Sucede que  “O homem sobrevive a terremotos, epidemias, aos horrores das doenças e a todas as torturas da alma, mas a tragédia mais atormentadora de todos os tempos tem sido, é e será a tragédia da cama”. Leon Tolstói

Ela não compreendia porque é que ele fugia dela, não percebia se a ausência de desejo dele era somente por ela ou se seria por todas as mulheres em geral. Tentou perceber o pensamento e o sentir masculinos. Em vão. Sofria horrores por não conseguir sair da situação. Tornou-se obsessiva, dava tudo de si e recebia tão pouco.
Deu por ela a envelhecer antes do tempo. Deu por ela a viver a vida que era dele em que nunca conseguiu desenvolver as suas potencialidades e afectos, A tentar ser perfeita, demonstrando que tudo estava bem quando afinal não estava: os seus olhos tinham perdido o brilho, à libido tinha-a amordaçado, deixou de cuidar de si e do seu corpo, a cada dia que passava deixava de ser feminina.
Se as pessoas tivessem enchido antes a taça da vida até transbordar, e a tivessem esvaziado até a última gota, certamente seus sentimentos agora seriam outros. Tudo aquilo a que quereria  pegar fogo estava consumido, e apesar da quietude da velhice ser bem vinda para muitos, ela no seu íntimo revoltava-se porque não conseguia esquecer que só poucas pessoas são artistas da vida, e que a arte de viver é a mais sublime e a mais rara das artes.”
Ele tinha-a renegado.
Para além disso doía-lhe os olhares dele para  outras mulheres- as da faixa etária dos 30. Não compreendia, decididamente a psique masculina. Não era só ele que sofria, ela também –e calada.
Ultimamente andava  numa fase de indecisão: envelhecer calmamente ou voltar a ser quem era, cuidar de si e do seu corpo e partir de novo para a vida. Um novo começo que significava desligar-se dele e tentar esquecer o que significava amar.



22 abril 2009

As palavras de que não gosto

As palavras que não gosto
Cansam-me e esmorecem-me
Ódio, raiva e vingança
Sentimentos que entristecem
E , fico triste a pensar
Que é bem mais fácil odiar
Do que sentir em si próprio
Capacidade para amar.
Cansa-me o pousio , a rotina
Do egoísmo
A quem trás satisfação?
Incapacidade de dar
De estender a própria mão.
Medo da própria sombra
Que surge avultada e medonha
Sufocando-se em si própria
Como bicho peçonhento
Que nos transforma
Num ser medíocre e cinzento.
Cansa assim tudo na vida
Sem cor, sem verde a agitar
Bandeiras.
Corpos cheios de fragas
Sempre a interpor barreiras
E surgem as palavras
Em pústulas acobardadas
Com grilhetas amordaçadas
No perdão
Na dádiva
No sentir
Rios frescos, clareiras abertas
Onde a alma espera
Renascer intrínseca
E genuína.