30 janeiro 2012

Beira rio


Tudo tão azul,
Este rio, este mar,
Que já não sei se é céu
O que alcanço com o olhar.

Pasmo emudecida
Em contemplação pela vida
E detenho-me com espanto
Ao reparar na imensidão
Que sem ter fim ou principio
Compreende este bailar
Das aves que riscam o céu
dos barcos a navegar
E neste meu devaneio
Acompanho com o olhar
Até onde a vista alcança
lá longe a curva da ponte 
onde nasce a esperança.


24 janeiro 2012

VERTIGEM


Autor desconhecido - Foto retirada da net
A vertigem que sinto 
quando em ti pousa o meu olhar
E sonho imaginando,
Ou  imaginando sonhar
Que te possuo e como se fosses  de veludo
Envolvendo-me a alma  e em  tudo
sinto esta estranha sinestesia
Esta vibração que me deixa endoidecida
Quando as tuas mãos nas minhas
E os dedos oscilando com mestria
Me fazem tremer este insólito sentir
Que sobe ao cume mais alto
Desígnio de um obscuro provir
Que do mais profundo de mim brota
E mais e mais me faz fluir.
Abandono-me assim à fantasia
De te imaginar sonhando
Enfeitiçando-me o prazer
De na minha boca ter o gosto
Deste gozo que por tanto subir
Cai abrupto e falido
Exangue e elanguescido
Adormecendo-me amante
Desenhando-me no rosto
Um quebranto a sorrir

Pablo Alborán - Desencuentro


No puedo seguir
buscando tu aroma en el viento
no puedo mentir
y ocultar lo que siento

Intento vivir sufriendo bajo este silencio y de nuevo por ti
me hundo en un infierno
no era prisionero de tus
labios y ahora que estas lejos yo te deseo como el aire
del baile de tu cuerpo

Puedes olvidar mi nombre
puedes olvidar mis besos
pero en el aire permanece
mi voz y mi recuerdo.

Sufriendo por ti me pierdo en un mar de dudas
me mata este dolor, me ahoga mis lagrimas
en dudas mi mar es cada noche mi cuerpo y mi alba haces
lloras mis ojos haces que pierda la calma

No era prisionero de tus labios y ahora que estás lejos
Te deseo como el aire del baile de tu cuerpo
no era prisionero de tus labios y ahora que estas lejos
Yo te deseo como el aire del baile de tu cuerpo

Puedes olvidar mi nombre
Puedes olvidar mis besos
Pero en el aire permanece
mi voz y mi recuerdo

17 janeiro 2012

Um Novo Começo


Nú Feminino - Manoel Constantino 
 
Ninguém pode fazer história se não quiser arriscar a própria pele, levando até o fim a experiência da própria vida, e deixar bem claro que sua vida não é uma continuação do passado, mas um novo começo. Continuar é uma tarefa que até os animais são capazes de fazer, mas começar, inovar, é única prerrogativa do homem que o coloca acima dos animais.
Com efeito ela assim pensava e lutava para se manter à tona da dura realidade que enfrentava há já alguns anos.

Vitima de violência doméstica com requintes de tortura psicológica tinham-na levado ao seu limite máximo de resistência. Ele tinha sido militar e fez questão de aplicar nela as  práticas destinadas ao inimigo: agredia sem deixar marcas físicas.

Um dia ela fugiu.

Fugiu dele e de si própria. Deixou de o amar e pensava muitas vezes que, provavelmente nunca o teria amado – saiu de uma relação de tantos anos a pensar que não tinha sobrado nada. Esqueceu tudo o que ficou para trás.
Recomeçou.

Procurou refugio e companhia e deixou-se novamente encantar, pensando que com isso se libertaria realmente. Entregou-se , de novo, de corpo e alma. Havia  uma rosa a florir e um responsável por esse florescimento. Tinha levado tanto tempo aquele jogo de sedução.
De novo o destino lhe bateu no corpo e na alma. Recusou-se a acreditar que fosse possível tal sorte. Lembrava Jung e concordava com ele: (...) O homem que não atravessa o inferno de suas paixões, também não as supera”.
Revestiu-se de paciência, procurou refúgio em Deus, tentou perceber o que era o Amor e percebeu que finalmente amava, contra tudo e contra todos.
Sucede que  “O homem sobrevive a terremotos, epidemias, aos horrores das doenças e a todas as torturas da alma, mas a tragédia mais atormentadora de todos os tempos tem sido, é e será a tragédia da cama”. Leon Tolstói

Ela não compreendia porque é que ele fugia dela, não percebia se a ausência de desejo dele era somente por ela ou se seria por todas as mulheres em geral. Tentou perceber o pensamento e o sentir masculinos. Em vão. Sofria horrores por não conseguir sair da situação. Tornou-se obsessiva, dava tudo de si e recebia tão pouco.
Deu por ela a envelhecer antes do tempo. Deu por ela a viver a vida que era dele em que nunca conseguiu desenvolver as suas potencialidades e afectos, A tentar ser perfeita, demonstrando que tudo estava bem quando afinal não estava: os seus olhos tinham perdido o brilho, à libido tinha-a amordaçado, deixou de cuidar de si e do seu corpo, a cada dia que passava deixava de ser feminina.
Se as pessoas tivessem enchido antes a taça da vida até transbordar, e a tivessem esvaziado até a última gota, certamente seus sentimentos agora seriam outros. Tudo aquilo a que quereria  pegar fogo estava consumido, e apesar da quietude da velhice ser bem vinda para muitos, ela no seu íntimo revoltava-se porque não conseguia esquecer que só poucas pessoas são artistas da vida, e que a arte de viver é a mais sublime e a mais rara das artes.”
Ele tinha-a renegado.
Para além disso doía-lhe os olhares dele para  outras mulheres- as da faixa etária dos 30. Não compreendia, decididamente a psique masculina. Não era só ele que sofria, ela também –e calada.
Ultimamente andava  numa fase de indecisão: envelhecer calmamente ou voltar a ser quem era, cuidar de si e do seu corpo e partir de novo para a vida. Um novo começo que significava desligar-se dele e tentar esquecer o que significava amar.



14 janeiro 2012

Asas de Linho



 Dédalo e Ícaro

" Quando será derrubada a infinita servidão da mulher, quando ela viverá para ela e por ela, o homem, - até agora abominável -, tendo-a despedida, ela será poeta, ela também!
A mulher descobrirá o desconhecido! Seus mundos de ideias divergirão dos nossos? Ela encontrará coisas estranhas, insondáveis, repugnantes, deliciosas; nós as teremos, nós as entenderemos." Arthur Rimbaud


Um dia virá em que voarei
Com  asas de alvo linho
Que me entretenho a fiar.
Não as asas de cera,
As  de  Dedalo  tombado no mar
O  fito é fugir daqui
Deste labirinto onde existe
um monstro que me quer aniquilar,
Cabeça de touro, corpo disforme
Alma inexistente ou se a tem
Parece  não a quer revelar
Farei um castelo da nuvem mais alta
Por sol terei uma estrela
E lençóis de gaze para me tapar
E lá do alto vigiarei o sono
Dos que  não perderam a esperança
E lutam para a  realizar.


03 janeiro 2012

Tempestades



Farol da Guia. 1900.
Aguarela s/ papel. 35,5 x 39,2 cm.
Colecção particular.
Foto: Pedro Aboim Borges
A minha vida é um rio
Sempre a correr para o mar
Ecos da minha génese
Que não consigo parar.

Percorro montes e vales
Sempre a serpentear
Roubo das latadas
Cachos de uvas, jasmins
E flores de absinto.
E deixo-me embriagar
Malvasia, moscatel
Em  cálices de puro âmbar
Em leitos feitos de mel.

E vou deambulando
Até à foz deste meu rio
Onde a vida me quer levar
Espraio a minha alma  azul
Com fímbria branca a debruar
Por entre a espuma das ondas
Que te querem abraçar
E neste suave balanço
Num vai e vem sem ter fim
De sete em sete ondas
Avassala-me a saudade
Que sinto dentro de mim
Então surge a tempestade
E o mar rola furibundo
Sempre à procura de ti
Galga terra e galga pedra
Vai ao cimo e vai abaixo
Vai até ao fim do mundo
Sem nunca te encontrar
Onde foi que te perdi
Porque me deixaste afogar?



28 dezembro 2011

Eu sei, aliás, todos sabemos, que este tempo de "fim de ano" é por regra considerado festivo, com a quase sempre reunião das famílias pelo Natal e as "diversões" da passagem do ano. Por tudo isto talvez seja oportuno deixar aqui uma reflexão para 2012.


Neste “aqui” e “agora” que fazem parte da nossa caminhada terrena e  digo "nossa" porque não estou sozinha, existes tu aí desse lado – tu e eu juntos neste percurso de vida. Talvez nunca nos toquemos,e não  passemos de uma realidade apreendida a uma ou duas dimensões, não obstante  ela ser de 4; mas ambos temos consciência de uma voz interior – às vezes mais do que uma – a tal que nunca se cala e que pretende ser quem somos nós ; ( e afinal quem somos nós?), já que o nosso EU é tão efémero? Procuramos incessantemente alimentar esse efémero, seja a que preço for.
Assim nasce o desejo, sempre mais e mais, o desejo de adicionar  qualquer outra coisa ao nosso efémero EU.
E depois nasce o medo. E depois nasce a frustração. Existem sempre emoções a nascer e a morrer dentro de nós.
Acabamos por não entender que existe um  Universo  dentro de cada ser humano! E, porque ao SER, nada se pode acrescentar nem retirar – existimos assim desse modo – tão simples!
Para quê complicar?
“Olha o sol que vai nascendo/ anda ver o mar...” cantava Zeca Afonso; vem ver o mar e nele te acharás inteiro, por cada onda batida na praia entenderás a perfeição, a maravilha deste planeta chamado Terra a casa onde todos vivemos e onde TODOS deveríamos ter paz e igualdade de condições.
Por tudo isto espero aperfeiçoar-me como SER no decorrer de  2012  tendo como meta o belíssimo poema escrito por  Max Ehrmann:

Vai calmamente, entre o barulho e a pressa, e lembra-te da paz que somente existe no silêncio.

Na medida do possível, e sem te atraiçoares, tem boas relações com todas as pessoas.

Diz a tua verdade quieta e claramente. Ouve os outros, mesmo os obtusos e ignorantes. Eles também têm uma estória a contar.

Evita as pessoas ruidosas e agressivas. Elas são tormentos para o espírito.

Ao  comparares-te com os outros,  tornar-te-ás ora vaidoso, ora amargo, pois há sempre pessoas que te são inferiores ou superiores.

Goze tanto as tuas realizações quanto os teus sonhos. Mantém-te interessado naquilo que  fazes, por muito humilde que seja. Aquilo que fizeres é algo que  realmente possuis, num tempo em que tudo muda sem parar.

Pratica a prudência nos teus assuntos comerciais, pois o mundo está cheio de trapaças. Mas não deixes que isto te faça cego para as virtudes que existem. Muitas pessoas se esforçam por ideais altos. Por toda parte a vida está cheia de heroísmo.

Sê tu mesmo. Não finjas  afeição. E nem sejas cínico acerca do amor. A despeito da aridez e do desencanto, ele renasce tão teimosamente quanto a erva daninha.

Aceita com elegância o conselho dos anos, deixando graciosamente para trás os prazeres da juventude. Cria força de espírito para te  protegeres  na desgraça repentina. Não te aflijas, porém, com coisas imaginadas. Muitos temores nascem do cansaço e da solidão.

Tem  uma disciplina saudável, mas sê gentil para contigo mesmo. Tu és  um filho do universo, tanto quanto as árvores e as estrelas. Tens o direito de estar aqui. E, quer  saibas disto ou não, o facto é que o universo caminha como deve. Por isto, fica em paz com Deus, não importando como  pensas que Ele é.

A despeito da barulhenta confusão da vida, mantém-te em paz com a tua alma.

Com todos os seus enganos, labutas e sonhos não realizados, este continua a ser um belo mundo. Cuida-te. Esforça-te  por ser feliz...
BOM ANO de 2012!!

27 dezembro 2011

Boas Festas


Às vezes olho para as palavras e sinto que estou farta delas. Sempre as mesmas palavras a quererem significar o mesmo. Porque se não lhes muda o sentido e não se reinventam as ditas? Assim por exemplo:  Pátria quereria dizer uma outra coisa que ainda está para se conhecer, porque alteraram a essência, volatilizou-se. Surgiu a Branca de Neve e os anões deixaram de ser sete, para passar apenas a ser um! Tudo é um jogo, um conto, outrora de fadas, hoje de quase terror. A Branca de Neve chama-se agora Merckel  e o seu bobo da corte passou a ser francês- ao menos resta-nos a origem –será que os bobos nasceram em França?!
Hoje estou cheia de interrogações, a ponto de querer inventar novas palavras, talvez porque esteja farta do discurso sem método.
Habituaram-nos na escola a jogarmos o jogo das palavras, esqueceram-se foi de nos darem outro tipo de instruções : não vale fazer batota, poesia e prosa não jogam com determinas siglas tais como TAEG , TBN, TBAN e outras que tais.
E agora que nem as palavras valem, vulgarizou-se o sentido, até os adjectivos não são bem vindos na prosa, assim sendo para que servem? Demasiada adjectivação, demasiadas siglas desprovidas de valores ( mas como muito valor material).
Pergunto para onde rumamos? Não vale escrever aqui a palavra Amor, a maioria foge  dela como o diabo da cruz; sentimentos é coisa azeiteira dizem. A minha geração utiliza muito uma palavra : divórcio, acho eu que está tudo a desmoronar-se, mulheres para um lado , homens para outro! E o sentido das palavras gasto! É por isso, se calhar, que estamos em crise!
Assim sendo, olhem....boas entradas ( não sei muito bem onde, pois cada um entra onde pode) e boas saídas tipo "Meo go, Meo go" – o anúncio mais idiota que por aí anda!!! Até a publicidade anda pelas ruas da amargura! A propósito de saídas, sigam o conselho do nosso PM o P. Coelho que saltou directamente  do País das Maravilhas e aterrou no labirinto do Minotauro, anda às voltas a dizer-nos que já estamos atrasados, perdão falidos !Para 2012 não prevejo nada de bom - nem preciso da palavras da cartomante Maya para chegar a essa conclusão. Se calhar os Maias até tinham razão. A ver vamos! Entretanto vou-me dedicar à pesca, pode ser que no fundo do rio haja um cofre e logo  com a sorte que tenho , em vez de sargo pesco um cofre cheio de palavras novas -J Tchimmm , Tchimmm!!!

22 dezembro 2011

Desejo a todos um Santo Natal com muita Paz e Harmonia.

A imagem “https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEh7Is1E7OJ4uTmfwamX3e8oAe-OGWEnA2Sm7F82RceqwR50tCv0AYLSXDJ_LZgu4Cho3wdMgdcrYjY1_pbFT9mTeN8vUqPluL-4Y59WoFfiTQMG5dWLkhK_pmPLWH_uJc_xGg8Fww/s1600/Song+of+the+angels,+Willian+Adolph+Bouguereau.jpg” contém erros e não pode ser exibida.



Song of the angels, Willian Adolph Bouguereau

Este Natal tenho saudades
Dos que partiram de mim
Deixaram-me a solidão
O vazio do lugar
Na mesa da consoada.
E nunca mais vão voltar.

Às vezes queria poder acreditar
Que vou encontrá-los no céu
Ou em  outro qualquer lugar
Mas o Natal não mais será o mesmo
Pois já deixei de sonhar.
E se há um Menino Deus
Que a todos veio salvar
Menino Jesus, este Natal
Leva-me contigo
Para as saudades matar.
Daqueles que já partiram
E que tanto quero abraçar.

Sou filha e hoje sou mãe
Com exemplo para dar
Mas meu Menino Jesus
Custa-me tanto ver
O vazio daquele lugar.
E para não ficar assim
Um prato a mais na consoada
Menino Jesus, se entendes não me  levar
faz com que Alguém do Teu Reino
venha à minha morada
E faz como que a minha casa
por Ti seja abençoada.




15 dezembro 2011


O banco era de madeira  daqueles verdes, de jardim, a beirar o relvado inglês,  sentada  nele, passeava o olhar pelos tons de Outono que caíam em  redor como  uma espécie de enormes flocos de neve acastanhada. Meio perdido o olhar, ensombrado por  nostalgia,   tentava encontrar significado para o vazio que sentia.
Ultimamente a ideia da morte  invadia-lhe  a mente numa fracção de segundos, deixando uma sensação esquisita  que se esforçava por afastar .
Passava a vida a  esquecer que somos seres finitos. Interrogava-se como sentiriam aqueles que, pela ordem natural das “coisas” ou pela força das circunstâncias,  mais perto desse términos estariam; que pensariam?  Será que a natureza é benévola e nos  vai desprendendo suavemente de tudo aquilo que durante a vida  conquistámos, muitas vezes com sangue , suor e lágrimas?
A  vida tinha sido uma longa  viagem de  auto descoberta através dos meandros da natureza humana mais profunda; naturalmente estava atenta  mas a insatisfação interior era tanta, que nada parecia fazer sentido: sem afectos não valia nada!
E ela que sempre esteve pronta para amar, apenas encontrou no seu caminho pessoas com  imaturidade emocional: gente com medo da vida e do sofrimento que a mesma implica e sem coragem para mudar seja o que for, a fazer lembrar casulos com crisálidas mortas. E sem sofrimento não há renovação.
Seja como for há que continuar o caminho. Levantou-se e procurou o calor de um animado centro comercial:  lá dentro sentia-se mais reconfortada e depois sempre havia o brilho das luzes e o riso das crianças a tirar fotografias no colo do Pai Natal.

13 dezembro 2011


        

Moema,* 1866

Victor Meirelles (Brasil, SC 1832- RJ 1903)

Óleo sobre tela, 129 x 199 cm

MASP – Museu de Arte de São Paulo
"Dói muito o amor no Outono porque nos é agora evidente que andámos enganados, que temos que descobrir outra estrada e que, para isso, não é fácil arranjar companhia, nem sequer interlocutores: quase todos se acomodaram ao jeito daquilo que nos deram para a gente se vestir (...)" in O Riso de Deus de António Alçada Baptista, Ed. Presença.
 
Quando penso no assunto  sinto que estou a tornar-me  exímia nas minhas actuações embora saiba que é  um papel secundário. Ainda  não tinha nascido e já me estava destinado ser  personagem secundária nessa peça. E já não restam dúvidas que  a represento a preceito! Se na vida  há coisas que faço bem é, de facto,  representar este papel que me destinaram: coloco bem a voz,  tenho uma postura natural, entranho-me na pele da personagem, sempre  acompanhando com um sorriso  amável e  caloroso, tal como exige a personagem, e todos os dias vou laborando (no mesmo erro) o de fingir que eu não sou eu. Esta representação obriga a que, de cada vez que estou contigo – e tu és o meu público - não arrisco a revelar-te a imensidão dos conflitos internos – isso seria um autêntico falhanço. Há uma  epopeia em mim, uma luta gigante em que engulo palavras atrás de palavras e nunca chego a construir uma única frase com a minha real identidade.
        E tu a olhares-me como quem não me olha verdadeiramente, confortavelmente instalado nesse fauteuil. Eu, daqui, não te consigo enxergar, o brilho dos projectores cega-me por completo.  Tão pouco sei o que vês!  Verás tu  a personagem ou mulher que existe em mim? Talvez esta última  não exista. Mas quero que saibas que aquilo que eu dou é aquilo que acabo por ser, convencida da minha própria verdade ou da mentira - já não sei. E presenteio-te com esta esforçada actuação, feita com compostura e , sobretudo muita contenção – como todos os bons papéis exigem: nunca deixar emergir o nosso verdadeiro Eu.
Lá para o fim da encenação, e muitas vezes depois de já ter actuado,  ainda tenho algures a  esperança  - talvez vã - que  surja da parte dos espectadores uma daquelas estatuetas douradas ,  em forma de abraço (daqueles que em tempos existiram) – espécie de trofeu que consagre esta minha actuação. Uma estatueta com aquela que Rodin concebeu, não sobre "O Beijo" mas sobre , e acrescentou eu  sobre "O Abraço".
O tema desta personagem  que faço viver através de mim baseia-se no título  “Eu hei-de amar uma pedra” conhecida obra de Lobo Antunes. Pois é assim mesmo:  granito ou diamante,  não importa o grau de dureza , porque a personagem a quem eu dou vida  não consegue quebrar essa pedra -  encarcerada que está nas profundezas do Ser, uma obscura gruta que encerra uma jazida de diamantes – quanto trabalho até conseguir fazer dela uma peça única de joalharia. Para lá chegar não hesito em fazer da minha consciência um artífice: tornar-me ourives, sendo que essa mesma  consciência te busca e que dessa busca apenas encontra  dor, contudo sabendo-a certa e inevitável continua nessa procura frenética. Continuo deste modo a representar e tudo me parece  acabar bem….significando que um  dia nós dois seremos  pó cinza e nada! E todas as pedras do mundo se transformarão e servirão de berço para o nascimento de novas sementes .E porque só o nada poderá conter de novo o tudo.
Por agora vou retirar a maquilhagem e olhar-me no espelho – lá do outro lado outro alguém me perguntará : porque representas assim?



 *Entre as muitas histórias brasileiras, verdadeiras ou não, em que índios têm um papel importante, como guerreiros, aliados, conhecedores da mata, personagens de literatura, há grandes histórias de amor.  Dentre elas, uma em particular se firmou na  paisagem cultural brasileira: Moema. 

12 dezembro 2011

Passeios à beira rio


E porque a crise está instalada, passear na nossa cidade de máquina fotográfica em riste, captar o que ainda é de borla! Aproveitando  para vos desejar Festas Felizes.



 Apanhar o momento, que no momento seguinte. é outro: esperar que os vulcões entrem em actividade e ficar ali.....especada!

 
 









 E há lá coisa mais linda ???










07 dezembro 2011

Sobre o Amor

Saber de ti é sentir
Que a minha razão existe
E que dela nasce o amor
que a tudo e todos resiste .
Se o amor que eu te dedico
Outrora nasceu do desejo
Não se deixa agora comandar
Inunda-me por inteiro
Já não o possuo
É como rio revolto
Que tudo arrastando
À frente
Me enrola, e me asfixia
Como se fora serpente
E porque este estranho amor
Da minha razão nasceu
Logo após o nascimento
tratando de me trair
alienou o meu eu.
Roubou-me este coração
Que eu julgava possuir.
Agora que nada tenho
Nada possuo de meu
Alheada de mim mesma
E busco tudo o que é teu
Sem saber onde tu estás
Sei porque te pintam cego
encontro por fim a razão
do porquê de não ter ego.

26 novembro 2011

O Sistema de Manchester

Está sol lá fora.
Há coisas que me irritam, pois há; mas está sol lá fora!
Sou livre de sair, apanhar esse sol na minha mão, fechar os olhos e sentir que tenho todo o meu corpo a funcionar na perfeição – dou graças a Deus! Sou cristã, acredito que “lá fora” é a catedral onde o Deus em que tenho fé  se manifesta. Apesar de ser inverno, está sol “lá fora”!
Irritei-me e fiquei entristecida  porque na entrada do “meu” prédio - que não é meu, é do senhorio -que  tem  3 apartamentos por piso,  a multiplicar por 7 andares – havia uma cameleira carregadinha com muito mais que 20 botões de camélias vermelhas prontas a desabrochar, as flores eram dobradas; e digo havia, porque já não há! Mão humana e selvagem tratou de cortar as pernadas da árvore, inclusive arrancá-la da terra. Agora o canteiro está mais bonito! E eu adoro camélias, eu e a Margarida . Mas essa morreu tuberculosa - aposto que quem vandalizou a cameleira na entrada do “meu” prédio também terá alguma doença, será demência certamente – e porque anda tudo a ficar doido! E a Tuberculose grassa por aí. E tanto anda tudo a ficar doido que já nem se preocupam em relativizar – não há triagem como aquela nos hospitais – a de Manchester: é claro que quanto mais grave a situação clínica mais rapidamente devem ser atendidos. Ora isto deveria ser aplicado em todos as situações da nossa vida. Perguntam-me onde quero chegar ?! Já lá vou! A situação é a triagem! O que é verdadeiramente importante na nossa vida? Valerá a pena irritar-mo-nos porque a campainha da porta avariou? Ou a torneira? Pinga? Não toca? – a campainha? Bom…. Alguém me dizia que a “cozinha é o coração da casa” – quando existe uma avaria, o pinga-pinga da torneira, o esquentador que não funciona, o fogão que tem os bicos entupidos! Faz favor de ir à triagem!!! Fita verde colocaria eu no pulso dessa pessoa – não é emergente, não é urgente – é “chato” ah , pois é! O coração da casa somos nós, aliás nós somos o coração do mundo! Mas querem saber o que verdadeiramente é mais chato? É não poder ir “lá fora” pelo próprio pé, sentir o sol na cara, e ainda estar “lá fora” e não poder “ir para dentro” simplesmente porque o “ir para dentro” não existe – traduzindo : sem –abrigo, sem emprego, sem serviço nacional de saúde, sem médico de família e , pelo andar da carruagem, sem salário! Isto pela triagem de Manchester é uma fita vermelha no pulso, um AVC ! E como hoje é sábado e o sol brilha lá fora, vou sair e dar valor às pequenas coisas, que são muito maiores do que nós julgamos – e até que sabemos disso, mas temos tendência a esquecer – de vez em quando levamos um abanão , quando vemos um familiar ou amigo a partir , sabe-se lá para onde – e por breves instantes temos a noção da dimensão das “coisas” . Ora minha gente, vamos lá a relativizar e a dar sentido à vida! Apliquem nas vossas curtas existências o Sistema de Manchester! Pena foi a cameleira que foi á vida! Vandalismo puro!!! É com isto que temos de viver!

24 novembro 2011

O Grito




O Grito (no original Skrik) é uma pintura do norueguês Edvard Munch, datada de 1893. A obra representa uma figura andrógina num momento de profunda angústia e desespero existencial. O pano de fundo é a doca de Oslofjord (em Oslo) ao pôr-do-Sol. O Grito é considerado como uma das obras mais importantes do movimento expressionista e adquiriu um estatuto de ícone cultural, a par da Mona Lisa de Leonardo da Vinci.

E porque o silêncio também pode ser violência
Quando nos obrigam a calar
Quando não querem ouvir mais nada
Em que se  conjugue o verbo Amar.
E agora silenciada, que é como gostam
E  a reprimir o que sinto
Que mais quereis de mim ó gentes
Apenas que vos diga porque minto?
Não posso, estou amordaçada
Na boca e no coração
Fui proibida de  sentir, proibida de tocar
Resta-me não sei o quê atoarda e palavrão
É assim que me quereis ? Endurecida e cruel?
Em vez de usar caneta,  marco com estilete o papel?
Confesso que estou tentada, talvez a usar o dito
Em vez de rasgar a folha, libertar-me desse modo
De quem me obriga a calar e rasgar o maldito
Abrir-lhe um sulco profundo, e tingido de vermelho
Morra  a vociferar, aquele que me silenciou
E não me deixa ser grito.!

19 novembro 2011

O espelho

Óleo sobre tela de Lord Frederick Leighton - Light of harém (1830-1896)
Não preciso mais de espelhos
Para ver o que não está lá
A duplicidade é enganosa
Trai-nos com a realidade
Reflectida e ruinosa
O espelho do poeta
É a alma onde se miram profundezas
É lá que se busca a coragem
E se quebram as tristezas.
Assim para quê o espelho
Se a imagem não é fiel?
Há que cortar as amarras
Que nos poluem o espírito
Como se fossem fel,
amarguras não as tenho,
antes dúvidas, e mesmo assim,
quando olho no meu espelho,
não vejo nada de mim.
E se visse não olhava
com olhos de querer ver
para que o espelho não me engane
e não me faça sofrer.

14 novembro 2011

Convite

Miguel Almeida, coordenador desta colectânea, lançou-me o repto que, com gosto aceitei: Poesia divulgada aqui neste blogue, e agora publicada pela Editora Esfera do Caos. Eis o resultado : … uma agradável surpresa… … uma obra para todos os que vivem e sentem a poesia com intensidade… da qual me orgulho de fazer parte convidando a estarem presentes no dia 3 de Dezembro, pelas 17 horas, na FNAC do Colombo.

07 novembro 2011

O som dos meus passos


A minha alma esfarela-se na penumbra
Aqui nesta soleira da porta onde estou sentada
À espera, eternamente olhando o mar
Sempre com a esperança de te ver chegar.
Mas nem nos ventos, que o mar sopra, tu vens.
E neste desespero a  morder esperança
Cerro os dentes, firmo-me e digo
Não sonhes ó louca, não sonhes
Já não és criança!
 Mas olha, lá mais no fundo, na linha escura
Onde o mar acaba e o céu começa
Há uma estranha claridade, deixa que a vida se transforme
Deixa. Dá-lhe um par de asas e devolve-a à liberdade
Tens a vida presa por um fio, como se fosse balão colorido
Solta-o, deixa-o ir devagar no céu subindo
A ver a campina, a serra, o rio  e tu meu amor lá em baixo
A florir palavras mágicas, tacteando com as tuas mãos
Que eu finjo que me dizem adeus aí em baixo
E solto nas voz matinal dos pássaros
O eco do som dos meus passos.

04 novembro 2011

Morte e Vida


A morte torna-se tão certa
Quanto a vida o é
Pois é nascendo que se morre
E tudo mais é uma questão de Fé.
Pois assim sendo, como viver
Se vivendo é morrer
E tudo o mais nem sequer é.
A real(idade) é real (in)conforme a idade
Quanto mais longe da vida
Mais amar(rada) a liberdade
Menos te resta a ti ó escravo
Para com Fé morreres em Verdade.
Não ouses pensar que és livre
Verdadeira utopia
Nasces, vives e morres
Por um  passe de magia
Nem tu nem eu saberemos
Distinguir, qual a noite, qual o dia
Em que és impelido a viver
O inicio de  morte escorregando a vida
Como que por almotolia
talvez para dar lugar
a um novo (re)nascer.