A porta fechou-se de mansinho atrás de si. Desceu vagarosa o lancil de pedra mármore, que emoldurava a porta de entrada da casa.
Percorreu os locais preferidos da cidade; há muito que tinha perdido as suas crenças, era como um invólucro vazio, um corpo sem rumo, perdida a esperança.
Mesmo fazendo tudo ao contrário, para não morrer lentamente, existia apenas uma linha de sentido obrigatório em direcção ao fim da vida..
Veria chegar o fim e descobria que há tempo relativo, medido pela nossa cabeça que pode ser rápido ou lento, e um tempo absoluto (medido pelos relógios) que é inexorável e nos mostra os tempos que perdemos quando fazemos as contas.
Foi tudo isso e muito mais que lhe passou pela mente, enquanto, sentada na paragem de autocarro, olhava, sem olhar, o vai e vem apressado da cidade que corria sabe-se lá para onde.
No alto da cidade, existia um miradouro que ela recordava agora; ali o tempo tinha sido rápido, não tinha parado como ela desejara, nem mesmo dentro da pequena igreja, onde interiormente uma prece tímida tinha brotado, esse tempo tinha partido à desfilada, levando consigo um outro tempo que nunca mais voltaria, mas ela não o sabia ainda.
Ocorria-lhe uma frase de Pablo Neruda :
“Morre lentamente quem evita uma paixão, quem prefere o negro sobre o branco e os pontos sobre os “is” em detrimento de um remoinho de emoções justamente as que resgatam o brilho dos olhos, sorrisos dos bocejos, corações aos tropeções e sentimentos.”
Também ela não tinha sabido evitar essa paixão, e morria na mesma , lentamente, sem brilho nos olhos, sem sorrisos e tropeções só os do pequeno coração que batia dentro de si. Um coração que pararia em breve.
Chovia no corpo enregelado, dois corações a bater num só compasso.
O amanhã não existiria para nenhum deles. O ontem tinha sido construído sobre a clandestinidade, oculta na noite, entradas e saídas na escuridão de uma qualquer curva de estrada mais sombria.
Caminhou devagar até um pequeno jardim, onde podia avistar a memória do que já não mais seria presente. Ainda conseguiu sorrir, lembrando beijos que lhe tinham sido roubados.
Abandonou-se por ali, num pequeno banco de madeira, ensopado de chuva e de tantas outras confidências feitas ao longo do tempo.
A manhã não conseguiu chegar até ela. Quando o sol nasceu já era tarde para os dois corações que pararam na madrugada gelada.
Tal como um relógio sem corda.