21 Maio 2012

Cor Púrpura


Quem me dera a mim outro destino.

Porque te falo de ódios, e amores, de dias cinzentos e de momentos em que o fôlego cessa.

E porque todas as horas me matam e de mim apenas nasce o cansaço.

Quem me roubou a minha solidão a troco do nada? Que ficou no lugar dela?

Sou de uma nova raça de pele cor púrpura com vestes de desejo.

Já nem espelho sou, tão embaciada em mim anda dor.

Contudo sei-te de cor de tanto te reinventar: continuas a existir em mim.

Pertenço a um estranho corpo místico, porque odeio a minha carne.

E Pai perdoa-lhes, que também eles não sabem o que  fizeram
ao matarem-me a esperança

assassinaram também o desejo.

Agora tacteio na tua alma, de olhos cegos – os teus e os meus.

Já esqueceste quando eu te disse que era tua, e contudo foi tão pouco, porque eu queria mais e mais.

Se eu fosse um perfume que impregnasse o teu imaginário e te deixasse em ti a sede

De um cio incontinente.

Mas nada disso sou, aconteço aqui e agora num supremo espasmo que desagua no mistério.

De não saber do teu desejo, de não saber de ti, de não saber de nós.

Ardo esquecida numa espécie de altar, punição de ousar o sonho

E porque te ousei amar, a ti coleccionador de nomes e de corpos.

E agora digo, com base na memória que a tua pele sabe a Verão, ao calor dos frutos amarelos, quando te beijava o corpo impaciente, quando a minha boca te envolvia em sedas, com gosto a sal das marinhas, com gosto do doce dos ananases e o halo da sombra das palmeiras, onde crescem cachos de bananas que a minha mão acaricia leve.

Tudo isso eras tu no sonho. Irrompias em pedaços de espuma e refrescavas a nova raça dos seres de cor púrpura.

13 Maio 2012

As Palavras





As palavras são como seixos que rolam
Pelo leito  turbulento dos ribeiros
Somos nós, humanos as margens
Seremos nós do mundo luzeiros
 Reflectidos nas águas cristalinas
Agarremos as palavras
Transformemos em estandarte
Bandeira das 5 quinas.
Brotam da fonte obscurecida
Quebram o limbo do silêncio
Alimentam pelo caminho
Desde a mais bela flor
Até à erva daninha
As palavras chegam à foz
Transformadas em areal
Uma areia tão fininha
A beijar solo sagrado
Deste nosso Portugal

09 Maio 2012

Meditação


"Ek Ong Kar
Sat Naam
Kartaa Purkh, Nirbhao Nirvair
Akaal Murat
Ajuni, Saibhang Guru Prasaad Jaap
Aad Sach, Jugaad Sach
Hai Bhee Sach, Nanak Ho Si Bhee Sach
Nanak Ho Si Bhee Sach"*

* texto em Sânscrito.

 
O que é a vida senão uma longa caminhada
Uma semente que se transforma em fruto
Com que destino, com que finalidade
Para se acabar em nada?
Para quê a beleza, se murcha célere
Porque nos dão quimeras
Porque nos esforçamos tanto
Se chega um momento  em que somos pó
E acabamos num qualquer canto.
A música, a pintura, a dança
De que nos servirão
Se neste caminhar há tanta servidão?.
De que serve sentir como  esteta
Se a vida  é cruel e os sonhos intersecta
Que sentido faz viver assim?
Quando somos invadidos por segundos
Que apenas uma coisa é certa
Que tu e eu seremos pó, cinza e nada
E que não haverá nova alvorada.
Serão estes versos tristes?
Não, apenas a realidade
A vida nos dá o sonho
A morte nos rouba a vida
E  sendo tudo assim tão certo
Porquê existe  tanto pó
Misturado com maldade?

Maria João Nunes ( Inédito)


05 Maio 2012

O canto do cisne



Há um canto de cisne neste meu amor
Aproxima-se o fim, já  sinto o torpor
E este negro animal assim me vai invadindo
Mesmo que seja primavera
E as andorinhas agitem o horizonte
Anunciam em vez de flores
o fim  desta quimera.
E secam-se nos meus olhos todas as fontes.
A negra sombra avança sobre mim
E cobre-me com as suas longas asas
Feitas de tempo
E porque por tanto tempo
Naveguei nas asas do sonho
e fiz de uma gaivota o meu corcel
andei de mar em mar
de navio em navio
noites sem dormir
e o sonho preso por um fio.
Há um canto de cisne neste meu amor
Um piar de fénix amortecida
E já quase em desatino e desalmada
É chegado o momento da partida.
Liberta serei já que fui cativa
De uma vida desencantada.

26 Abril 2012

As Palavras com teu Nome



Guardo aqui neste meu Eu
Um teu Eu que imaginei
Feito de saudade pura
E que já mais nada tem
Um vazio que não sabes
Que me preenche o espaço
Cuja imensidão  eu sei.
Não ouso sequer pronunciar
As palavras com teu nome
 E nesta  solidão que me queima
Escondo  secreto  o sonho
Que  a sós acalentei
Guardo aqui neste meu Eu
Um teu Eu que imaginei.

14 Abril 2012

Revolta



Q
ue guerra é esta onde o sangue coagula nas veias
Onde os estômagos encaroçam
E as fartas cabeleiras já não ondulam ao vento
Semearam-se no último vendaval
Em praça pública, quando o vento assobiou
Por entre o barro cozido dos telhados.
Que guerra é esta que assola o meu país?
Onde foi parar o meu berço, a minha matriz?
Morrerei indigente, já não terei nem ouro nem prata
Para ter direito ao lugar último
Morada térrea e justa.
Que guerra é esta que me faz ficar de negra cor
Que me tinge a alma de desamor
Que faz de nós abelhas sem colmeia
Buracos ocos e esconsos, onde não há mel , só dor.
Levantam-se as ondas do rio, lavando o paço,
Pedido a S.Bento que de porta aberta varra todo o vento
E com ele os negros mamíferos que nos sugam
O nosso sangue  retalhado em coágulos.
Onde está o ideário português?
Em que berço nasceram os salvadores da Lusitânia?
Onde se escondem eles, na vermelha fornalha
Cadinho da luta que irromperá algures
E um grito de rebelião está calado, à espera
Que o duro carcinoma seja intervencionado
Para que Portugal seja de novo libertado.
Precisa-se de povo com educação, valores
E esperança.
Só assim se levantará de novo a nação!