28 junho 2013

DESERTO



Nos teus olhos brilham  estrelas
que iluminam a curva do horizonte
a tua boca a nascente
de um riso que secou na fonte
à noite sob a lua prateada
sou deserto a arder em fogo
no meio da escuridão
no meio de quase nada
E o nada me norteia
sou semente arrastada pelo vento
aprisionada na teia
E eu sei que de nada vale
andar no mundo a viver
esta estranha servidão
que me faz não esquecer
que outrora o deserto era verde
a água sempre a correr
nascia do riso dos teus olhos
e me fazia perder.
perdia-me assim, sem saber
para onde voava a minha alma
num lugar de renascer
vendaval, pirâmide, cume
cimo do monte
fantasias
e eu sonâmbula sem te ver
mas sentido, sempre sentindo
numa eterna vibração
a paz, a harmonia
da natureza a perfeição
Eras tu, era eu
Éramos nós
para onde fomos
nem o eco se faz ouvir
no deserto, na vazio da nossa voz.
@Maria João Nunes

25 junho 2013

Salinas



De que vivo eu, afinal?
se este meu mar é apenas sal
Se tenho a alma curtida
com tanto sol a queimar
se as velas que desfraldei
são asas do meu penar
se sou peregrina na terra
para onde vai meu caminhar
cega de tanto ver
cega de tanto olhar
e desbravando o horizonte
não vejo nenhum altar
Sobra-me esta ânsia
esta visão perdida
andar à toa na vida
a sempre eterna esquecida..

@Maria João Nunes

19 março 2013

Melancolia

 melancolia
 “Quadrado de Dürer”  é um Quadrado Mágico representado no canto superior direito da gravura Melancholia , obra do pintor e ilustrador alemão Albrecht Dürer.

No quotidiano que me embala
narcótico e enganador
veneno inodoro e incolor
destilo pedaços d'alma
calo silencios imensos

e nego-me setenta vezes
sete dias por semana
sem fim
e renego-me outras tantas
a não querer saber de mim

pedaço de roda dentada
engrenagem avariada
areia em grão tão polido
tantas vezes já lavada
por água e sal
pedaço de cloreto
que me faz sentir de um jeito
em que não encontro sentido

e no chão, sujo de óleo
da maquinaria infernal
brilha um pequeno nada
que mais parece um cristal

não sei se é pedra dura, perdida
se lágrima que vencida
se deixou cair ali
e tentando esconder da vida
no quotidiano que me embala
narcótico e enganador
renego, nego e aceito
a solução final
fixar apenas o olhar
naquele pequeno cristal.

 

15 março 2013

Fome


Lagrenee-a-estudante-de-filosofía-pintores-y-pinturas-juan-carlos-boveri

Às vezes dá-me esta fome das palavras
De as usar a sós comigo mesma
Como quem come um pedaço de pão
A alvura da folha chama por mim
Enfarinha a mesa, amacia-a
Como se fora leito alvo e puro
É nesta alvura feita desejo
Que me revejo, e neste puro ensejo
Sonho que sou maior e mais alto
Que ganho asas em cada letra que junto
E deste sonho feito fome me alimento
A mesa, a cama, a folha tudo tão alvo
E eu lá no meio perdida busco sustento.

24 fevereiro 2013

Saudades

Este meu coração enlouqueceu de vez
apostado em dar cabo da razão
a pouca que me assiste e já tão débil

qual o remédio para tal loucura
pois já nem sei quem sou
nem o que de mim procura
a outra parte tão perdida
se somos dois ou três
a procurar
o que devia apenas ser um
E saudade enganadora
a fazer lembrar o que não existe
e toda esta vida feita cansaço
ah, deixem-me dormir
devolvam-me o materno regaço
e pousarei lá a cabeça
enquanto tu mãe me afagas
as tranças negras e delas
retiras todo o embaraço.

William-Adolphe Bouguereau- óleo s/tela

18 fevereiro 2013

Pink Floyd - A saucerful of secrets (Ummagumma version)


Um sopro, uma aragem
arrepio, frio
morno, calor.
Toque recente, verde
de vagem.
Semente, veludo
passagem
e explode.
Grita, tão perto
não ouve
insiste, desliza
escuro caminho
pisa incerto
Corpo, dor
imenso deserto
Nota só
clave fechada

17 fevereiro 2013

O Barqueiro



Caronte o barqueiro de Hades

Nas águas suaves da memória rolam barcos
carregando  sentimentos
desfraldam emoções brancas
parecem nuvens a branquear
o que para trás fica,
seguem vagarosas, deslizam
cisnes em forma de gotas
levam nas penas segredos eternos
ondulam pequenos toques de sal
escamas rosadas, opalinas
marcas do que não se esquece nunca
e é eterno.
Uma voz recôndita brilha no horizonte
redonda garganta de fogo ardente
foz e destino deste barco.

Maria João Nunes (17-02-2012)


16 fevereiro 2013

Vulcão


A gente às vezes cansa-se e pára
deveria ser para pensar,
Mas não pensamos muito mais
nem tão pouco conseguimos parar
e porque toda a acção anula o pensamento
Mas, devo dizer que não consegui
nem pensar, nem parar
e as minhas mãos foram tão poucas
insuficientes neste vulcão que teima em expelir
maldita lava que me queima
maldita cratera por onde sai o pensamento
que não me deixa parar
e , olho estas minhas mãos a pensar
que nada mais tenho que faça a ligação
com o mundo. Lá fora tudo parece inerte
tudo vai jazendo numa onda de rotina
se um dia este vulcão irromper
arrastará atrás dele toda a lama
que sujou a fímbria da minha alma.