22 fevereiro 2010

A Noiva

Chamavam-lhe carinhosamente a “ Menina”, inteligente e culta a que melhor se sabia expressar, como ela não havia outra igual. Destacava-se assim entre as demais, comentavam que tinha sido educada primorosamente, talvez um pouco mimada e protegida dos males do mundo; crescera demasiado contestatária e senhora do seu nariz.
Aos domingos, depois da missa, era costume a reunião no adro da igreja, comentando as tricas e as novidades da vila e de algumas revistas que chegavam ao povoado apenas uma vez por semana. Uma algazarra dos diabos! Seguiam depois em grupos estrada fora, fazendo lembrar flores brancas na beira dos caminhos. Domingo era dia de reunião de família, da cidade vinham os irmãos trazendo pela mão os netos, louros de faces carminadas, fustigadas pelo vento e brincadeira.
Em idade casadoira, a Menina esperava confiante pelo noivo que defendia a Pátria lá pelas Áfricas, bem longe dos campos que ambos tão bem conheciam: - Os campos com cheiro a feno no pino do verão, ou as primeiras queimadas de outono, através da memória olfactiva recordava sensações inebriantes que a faziam corar e quase desfalecer.
Desde bordar o enxoval, ler um livro ou pintar um quadro era sempre a mais prendada, tinha mãos de fada – diziam!
A Menina emprestava cor à vila, ao adro, aos campos; a vida sorria-lhe em cada dia.
Certa manhã, o carteiro já ofegante, calcorreava o empedrado cinzento de basalto avançava rápido trazendo o saco ao ombro cheio de palavras sortidas – como as caixas de bolos que antigamente se vendiam.
Recebeu das suas mãos, ansiosa por notícias, um sobrescrito cor sépia, com o escudo português no canto superior esquerdo; no interior em missiva dactilografada e formal , dava conta que o noivo tinha sido ferido numa emboscada na zona de Viana, à saída de Luanda, antes de chegar a Nambuangongo.
Quedou-se , sentada na escadaria de granito; o tempo parou de imediato, suspenso sobre ela mesma, vendo-a endoidecer de saudades. Por ali ficou anos a fio, enredada, presa aos cheiros das queimadas, o aroma da primavera e do feno do verão.
Dizem as gentes locais que ainda hoje lá está olhando a curva do caminho, à espera de ver chegar o noivo.
Dentro da casa de vez em quando uma voz chama: - Mãe....!

3 comentários:

Chico de Assis disse...

Tenho passado por aquí...
Gosto de tudo que vêjo.

Muito gostaria de contar com vossa presença no lançamento do livro do escritor brasileiro Carlito Lima que ocorrerá em Lisboa no dia 1º de Março
ás 18:30 ( Dezoito horas e trinta minutos ), na livraria Ler Devagar. Lx. Factory.
Rua Rodrigues Faria 103 - Lisboa

Vêr Blog: www.blogdocarlito.blogspot.com

Um abraço quente do meu Brasil nordestino.

Petrarca disse...

No pequeno jardim ela cultivava umas plantas que davam umas flores com inúmeras pétalas pequenas e brancas e o povo da aldeia passou a chamar-lhes as sempre-noivas.

Arroba disse...

Caro Chico de Assis,
Estive no lançamento do livro "Confissões de um Capitão", do seu amigo Carlito Lima, enviei-lhe os seus cumprimentos, trocámos endreços electrónicos.
Um óptimo contador de histórias, magnifico comunicador. Creio que vocês tem uma forma doce de falar a lingua portuguesa. Ganha cor cada palavra dita assim pelo apís irmão.
Obrigada pela dica do convite.
E grata pelas suas visitas ao blog.