05 julho 2011

Esperança



Rebentou a trovoada. Atrás da serra via ao longe os clarões a aproximarem-se rapidamente trazendo atrás de si uma chuva quente a descarregar, de supetão, naquele pedaço de mundo.
Dioniso tratou de guardar as cabras e abrigou-se debaixo do varandim a ver chover.
Gostava de chuva. Muito mais do que da chuva gostava mesmo  de presenciar os raios, que se abatiam a esmo e queimavam sem dó nem piedade, cortando em dois os sobreiros centenários.
Fazia agora um ano que se tinha refugiado na povoação, aldeia quase desconhecida no mapa; ao principio tinha sido olhado com desconfiança mas agora as gentes do lugarejo sabiam da sua história e acarinhavam-no.
Corria no povoado que durante anos tinha estado apaixonado por uma criatura – eram os próprios habitantes que lhe chamavam assim – desprovida de alma, desprovida de coração, fria como as neves da Sibéria, egocêntrica e egoísta. Tinha-se  dedicado de alma e coração, abnegadamente,  sem nada exigir durante quase uma década; mas chegou um tempo, um momento muito preciso em que percebeu que a continuar aquela paixão corria o risco de se transformar num farrapo. Pensou com ponderação no assunto, tinha várias saídas: o suicídio ou matar a criatura que o sugava diariamente. Optou pela última. Reuniu todas as lembranças dela: as cartas, uma madeixa de cabelo castanho dourado, os retratos, os livros que ela escreveu, algumas roupas dispersas- procurou apagar  todos os vestígios da sua presença na vida dele. Guardou tudo numa caixa de papelão e, num canto afastado e longe dos olhares indiscretos fez um auto de fé. De seguida ouviu um Te-Deum, chorou copiosamente, soluçou sozinho, arrancou de si todo o desamor que ela lhe tinha dado e decidiu-se a partir dali. Findados os preparativos, fechou a casa à chave e rumou o mais longe que conseguiu. Valia mais tomar conta de um rebanho de cabras do que aturar semelhante animal, quase que  sentia os chifres a aguilhoá-lo, tal a dor e o aperto que sentia no peito. A saudade ainda o não tinha largado.
Sozinho debaixo do varandim rezou e pediu aos deuses para que um raio se abatesse sobre ele. Misturou a chuva com as suas próprias lágrimas e num gesto de desespero decidiu-se a entrar dentro do curral para abraçar uma pequena cria – a primeira  que ele tinha ajudado a nascer. Prometeu a si próprio que aquela nunca seria sacrificada. Chamou-lhe Esperança.

9 comentários:

João Raposo disse...

E a esperança, a única a restar dentro da caixa de Pandora, não será um outro mal?

Artes e escritas disse...

A esperança é a força motriz da vida. Um texto com muita sensibilidade, parabéns. Um abraço, Yayá.

Arroba disse...

Yayá, muito mais do que a esperança creio que a força motriz da vida é o Amor; afecto difícil , se assim não fosse talvez se pudesse comprar. Mas é fogo e queima :)
Obrigada pela visita.

Arroba disse...

João Raposo,
Estou inteiramente de acordo consigo.
Encontramo-nos lá pelas Horas.... gosto daquela picardia velada....
Volte sempre :)
Abraço

João Raposo disse...

Por acaso (ou talvez sem ser acaso) estamos de acordo. É o amor e não a esperança a força da vida. Mas a esperança sempre nos dá um intervalo de ilusão. Só que o intervalo, por vezes, se confunde com a vida.

Ainda a propósito do amor, há um livrinho de Erich From, "A Arte de Amar", que é, ainda hoje o que de melhor conheço escrito sobre o amor.
Abraço

Álvaro Lins disse...

Afinal a inspiração voltou!
Abraço

OceanoAzul.Sonhos disse...

Que texto intenso, muito bom!

Abraço
oa.s

ferreiralopes disse...

Li desinteressadamente e... gostei muito.

Arroba disse...

ferreiralopes, grata pelo seu interesse :)
Volte sempre !!