11 maio 2015

EXÍLIO



Sigo-te à distância, através do caminho místico da cidade. Trazes em ti lugares desconhecidos: cidades pinceladas a lápis-lazúli, rios banhados a ouro  e luares de prata cinzelada pelo melhor ourives do Universo. É por isso que te sigo, porque me deixas maravilhada como se tivesses acabado de chegar  de um conto das mil e uma noites. Porque brilhas como sete sóis.
Cheguei  fora de horas  num tempo que já não me pertencia - em que tu já não me pertences - e por mais que persista em guardar-te na memória - esta vai-se cobrindo com  véus tecidos por Lethe. É certo que resisto,  mergulho devagar,  sinto que me afundo mais e mais a cada noite que se esvai no calendário dos homens. Acabarei exilada. Vislumbro-te por entre a cortina de bruma que paira sobre a cidade. Imagino-te a cada manhã, piscando os olhos sob a luz abrupta, recomeçando uma e outra vez numa luta constante, a desviar a cortina do desejo para deixar entrar a claridade nua: a luz da realidade com que te vestes e caminhas nas artérias da urbe . Este meu esforço de rememoração confunde-se com a pesquisa do verdadeiro. Afinal , saber não é outra coisa senão lembrar-me. Não me quero esquecer das noites incendiadas nem das madrugadas com céu cor de meloa madura que me traziam no ar o teu cheiro a saber a sal e exaustos, cansados,nos corpos arqueados em espasmos de volúpia amadurecida. Era o tempo da descoberta, da entrada nos jardins do Éden. 
Resta-me perseguir-te os passos no caminho de basalto negro e branco, como se fosse a cidade inteira um imenso templo de alquimias escondidas. Exilada de mim e de ti.

1 comentário:

Rogerio G. V. Pereira disse...

"saber não é outra coisa senão lembrar-me"
e lembro-me de um exílio
que foi martírio
não esse a que te entregas
mas do outro
em tempo de trevas