10 dezembro 2008

A Videira



Nem sei como nasceu ali, mas causava-me algum deleite observá-la.
A tenacidade não lhe faltava, a cada dia que passava, mais e mais enterrava as suas raízes no terreno árido, e, como se não bastasse tamanha adversidade, o vento açoitava-a noite e dia, vindo sabe-se lá muito bem de onde. Deitada na terra, aninhada debaixo da folhagem verde acastanhada, eu imaginava-me a vestir a sua pele e porque gostava de a tocar devagar com as minhas mãos, acariciar o seu tronco nodoso, coberto de rugas, como se de um rosto enpedernido de um velho pescador ou camponês, diria que mais não era, aparentemente, que um corpo inteiro, sólido, formado de sulcos profundos, com feridas marcadas pelo tempo, provocadas pelos invernias agrestes, quando os assobios de um Zéfiro em fúria surgiam fortes vindos ali do monte que ondulava suave. Zéfiro procurava Flora, a deusa que encarna toda a natureza e cujo nome se convertera na designação de todo o reino vegetal. Eu continuava escondida na terra batida; o ar seco era pronúncio de um verão em declínio. Fiquei a piscar os olhos , vendo o sol brincar com os bagos dourados, em tom de mel e verde água, outros de cor rubi, autênticas pedras preciosas encastoadas na forma de cachos gigantes, inchados, grávidos de taninos e frutose que as abelhas teimosamente vinham provar.
Um delicioso néctar dos deuses – pensei eu, observando deliciada a quietude do local. Um zumbido de abelhas, um canto de pássaros, minúsculas formigas que se moviam em carreiro, prodígio de diligência, para que o Inverno fosse farto; mais longínquo o canto da cigarra, alegadamente preguiçosa acompanhava o canto da poupa, que esvoaçou assustada à chegada do bulício de um tempo de colheita.
A magia do local fugiu para longe , com longas asas de nuvem dando lugar à vindima.
No fim do dia, milhares de bagos seriam pisados, doridamente massacrados para se transformarem em embriagante líquido de cor sanguínea,afinal tão longe do tronco severo e nodoso, da raiz que diariamente se agarra desesperada à terra que a viu crescer;quem diria que dali ressurgia Dionisio folião, trazendo loucura a quem o despreze, também ele morrendo a cada inverno e renascendo em cada primavera.

2 comentários:

Bill Stein Husenbar disse...

Nesta época natalicia, desejo um Feliz Natal recheado de momentos bons e inesqueciveis na companhia dos que mais ama. Que a alegria e a esperança se espalhe e se concretizem no coração de cada um de nós.

http://desabafos-solitarios.blogspot.com/

Arroba disse...

Muito obrigada pelo seus votos natalícios; retribuo em dobro, desejando-lhe a paz e a serenidade necessárias para ennfrentar tempos de crise e de mudança. Continuarei a lê-lo em 2009, esperando sempre que a Esperança nos reforçe os corações e o cristal da amizade brinde dentro de nós.