16 dezembro 2010

O nome das palavras

        
   








A Criação do Mundo - Michelangelo
No inicio, ou deveria dizer no principio, ( e porque nem todos os princípios são inicios) deram-me um nome estranho, não sabia eu naquela altura o que significava ter nome, fui aprendendo ao longo da vida , primeiro as letras e, depois sim, eis que um dia dei por mim a escrever o meu nome. Então sonhei!
       Foi aí que aprendi de facto a sonhar. Estava orgulhosa do meu nome, e muito mais do que isso, orgulhosa de  saber e poder escrever o nome de todas as coisas e de todas as pessoas.
      Imaginei assim um universo justo, onde tudo era realmente o que parecia. Nada como a mulher de César, que  na altura nem conhecia. Hoje continuo a não saber quem verdadeiramente  foi Pompeia Sula, não só porque já partiu, passou a fronteira para um outro espaço , sei lá eu bem onde , quimera, ilusão, oceano de infinitas finitudes. Sei apenas que se deveria sentia sozinha.  Mas agora  não me interessa nada disso! Tantos outros depois dela já partiram, e falta muito pouco para também eu deixar este lugar onde aprendi a escrever  o meu nome. Tenho cá uma ideia que, possivelmente,  até irei conhecer a mulher de César e outras mais que aguardam por mim.
      Encontrei na poesia a nascente de uma água cristalina, rio de palavras a escoarem-se em tumulto, chegando  doridas à foz; muitos  de vós poderão nunca entender, isto apesar de saberem ler e escrever os vossos nomes. Nunca me compreenderão, porque não basta saber escrever, é preciso sentir também o que se escreve, e é só sentindo através das palavras que nos escorrem lestas da mão que conseguireis provar ao mundo o facto de estardes  vivos, que não morrestes ainda. Muitos dir-me-ão que não precisam de provar nada ao mundo! Mentira! – respondo eu irada - sabendo que todos nós precisamos de provar, quanto mais não seja que estamos vivos. E não me venham dizer que só têm de provar a vós próprios o motivo da vossa existência. Isolados e sós dos outros nenhum de nós existe ! Fenecemos qual vegetal  na horta, sem o precioso líquido que nos encharca as raízes e alimenta o caule.
      Outros há, que nasceram e foram morrendo devagar, aos poucos, com um travo amargo a escorrer pelas comissuras dos lábios. Acontece a esses tais que produzem uma escrita surda, oca, desprovida de recheio. Não escrevo para carpir mágoas, escrevo porque aprendi no meu nome o sabor de uma causa maior, provar a mim mesma que afinal o Amor também pode existir a partir de  mim  só - sem a necessidade premente de correspondência.
     Um segredo compartilhado : - Amar é na sua essência querer o bem –estar do Outro, ainda que dentro de nós o caos se instale como se  um furacão  invadisse amiúde, é  no entanto, a oportunidade suprema de nos superarmos a nós próprios e de honrarmos o nome que aprendemos cedo a escrever.
Quando cada um de nós  se supera a si próprio consegue atingir desígnios divinos, homenageando o principio do Verbo.

2 comentários:

Fabio Fraga disse...

oi vim aqui visitar su blog e deixar minha marca um forte abraço

Anónimo disse...

Lady, como escreves bem!
Que desenvoltura na escrita, reflexo da excelente arrumação de ideias que mentalmente articulas e espalhas com a imprescindível ajuda do teclado!...
Pudera eu ser Tágide e inspirar-te numa "master-piece" de literatura que não se compra ao quilo nem a metro, sim, porque a essência e a arte, essas pertencem-te.
Escreve. Já te disse e repito: escreves melhor que alguns pássaros que se passeiam por entre letras publicadas... (Tu percebes)
Deixo-te um abraço. Bu-rónica