05 abril 2011

Sobre as palavras


Também às vezes tudo me parece fugir. Nada faz sentido, nada me preenche , nada me satisfaz. É nesses momentos que te procuro, que vou beber em ti , na força do teu pensamento, como se uma nascente  de  água  brotasse de ti .
Imagino que o teu toque é doce e tranquilo, o teu olhar uma janela aberta para novos mundos , a que tu me conduzes, de mão dada. Essa mão quando me toca  faz com que sinta o teu calor a enlear-se  ao meu redor. E a energia flui devagar, inebriando-me os sentidos.
Eis que sem dar por isso , de novo surge a palavra com que tanto te quero descrever:
Sonho com alvos lençóis de linho fresco e puro, uma cama  de ferro fundido  na forja do mestre alquimista.
Sonho com o aroma da cómoda de cerejeira  e  um esguio solitário que nele suporta  um cacho de lilazes . Um  soalho de madeira de  tábua corrida encerada , uma mistura provocadora de cera e cheiro de flores de primavera.
Há uma janela velada pela cortina transparente que dança com a brisa.
Há em cima da cómoda, uma moldura com dois grifos entrelaçados ao  vidro que tenta esconder com pudor o  retracto de um fantasma  que teima em não me deixar fechar os olhos, - continua a seguir –me sem dó nem piedade , até ao dia do meu fim.
É aqui que de novo me faltam as palavras. É aqui que desconstruo o meu sonho!
Vêm por favor, dá-me a tua mão e ajuda-me a  transpor este universo; existem outros mundos , outras galáxias, onde existe uma cama de ferro fundido, lençóis de linho e aroma de lilazes, leva-me através da janela aberta sem  medo  de voar  rumo ao desejo. Escreve-me devagar, letra a letra,  sente o sentido em cada gesto de as escrever, sente que em mim há o desejo de te sentir, através dessa janela da alma que juntos construímos, para lá do quarto com soalho de madeira encerada, do solitário que suporta a flor de liláz. Anda vem ,  procuremos juntos a sebe de jasmim do meu sonho, e porque amanhã é primavera, sejamos nós as primeiras andorinhas a chegar ao beiral por cima da janela aberta.

4 comentários:

Paulo V. Pereira disse...

Gostei :)

A.S. disse...

Se ouvires
o rumor do meu corpo,
aqui estou,
construindo caminhos
ao encontro
dos teus passos musicais...


Beijos meus,
AL

Petrarca disse...

Aqui está mais um exemplo de um texto poético. Já disse noutras ocasiões que a sua característica é fazer prosa poética e fazer poemas que são prosa, de tal maneira fluem com naturalidade.
Mas o que eu digo não se escreve, quero eu dizer tem pouco peso.
Como já há muito não deixava um comentário, hoje resolvi deixar testemunho da minha passagem.

Bluemoon disse...

Gostei muito do texto, seja poema ou seja prosa, não é por isso que deixa de ser bom lê-lo. Parabéns!

http://equandoanoitece.blogspot.com/