18 dezembro 2009

Vendaval

António Botto sentia
“Tenho pena desse corpo/Enrugado/E chamuscado/Na labareda sombria
Do seu sexo traiçoeiro...”


(E eu sinto assim.....porque o li)

Hoje quase que as estrelas todas
Caíram ao chão.
Era tal o vendaval
Era tal a ventania
Que as pedras da calçada
De folhagem se cobriam

Pisei-as assim, a medo
Sem me conseguir suster
Uma espécie de frémito
Um incerto caminhar

Senti, apesar de tudo
Um frágil palpitar
Não sei se era o meu coração
Ou o teu a soluçar.
Eram seguramente
Pedaços de beijos mortos
Que rolavam no caminho
A chuva caía neles
Fazendo-os chorar baixinho
E rolavam estrada abaixo
Pelas pedras do caminho.
E já não sei porquê
Porque existo
E levo o tempo todo
A pensar nisto
Andei a percorrer
Todo este tempo
Esta estrada da vida
Feita de negro xisto
Negras pedras, luzidias
Cobertas de folhas castanhas
Amarelas, doentias
Saudosas dos bosques
Onde outrora me sorrias.

Arroba

3 comentários:

Petrarca disse...

Pelos vistos foi mesmo um vendaval que se soltou!
Foram as estrelas, as folhas castanhas, os restos de beijos.
O António Botto deu o pontapé de saida e os ventos soltaram-se!
Agora não acredito que não saiba por que existe.
Pelo menos para uns belos poemas,para uma boa escrita existe.
E para muitas outras coisas.
E se o poeta goza da chamada "liberdade poética" porque razão eu não posso gozar também?
Daí, dessa liberdade, este comentário (e outros que se seguirão).

Arroba disse...

Sabe que o poeta é um fingidor...
Quanto mais não seja, existo aqui, para fazer estes jogos de palavras a que o Petrarca, gentilmente chama de "belos poemas". Quem me dera a mim, chegar ao fim de qualquer um deles e sentir por inteiro que gosto do que escrevo.
Tenho bastante curiosidade de saber qual a "máscara" que lhe permitiu a oportunidade de ler o "cartão" e, já agora de ter essa mesma oportunidade de o "apanhar" por lá :-)

Carapau disse...

Claro que o poeta é um fingidor. E cada vez mais me convenço disso. Fingir, todos fingimos mais agora mais logo. Veja só se não é fingir quando vamos a certos sítios e usamos uma máscara. Eu, por exemplo, escondo-me muitas vezes atrás do Carlos.da.Maia, quando não tenho nada a ver com ele. Logo estou a fingir.Também já vi a Arroba escondida atrás duma máscara, mas esqueci-me de qual. Daí que só essa máscara pode apanhar o Carlos e este não pode apanhar aquela. Lá. Nem sempre, mas às vezes. :-)
Bons encontros e Boas Festas!