06 setembro 2010

Pingo de mel

È  de manhã cedo, acordo com o alarido na rua.  Meto a cabeça de fora, pela pequena janela de guilhotina da cozinha. A porteira do prédio onde vivo, pensa que é dona da única figueira que existe no bairro, zela que nem cão feroz, receia que lhe roubem os figos pingo de mel que nascem durante o verão. Imagino que mal deve dormir de noite. Implico com esta figura de olhar sinistro, arredondada – como os figos -,  cabelos brancos, bata de cornucópias e chinela prateada no pé. Senta-se no banco do pequeno terraço e lê  revistas cor de rosa e azuis, outras manchadas de vermelho, falam por vezes da vida de outros figos.
Hoje de manhã decidiu embirrar com o homem que vende figos à entrada do centro comercial, este faz uma constante ronda pelas cercanias,  limpando as figueiras todas. Desta vez  apenas tinha colhido  meia dúzia de folhas da árvore. 
-         Para que quer você as folhas?
-         Ora! Para os figos ficarem mais apresentáveis, mais bem embalados, com estas folhinhas verdes , que lavo na casa de banho do centro comercial. As minhas freguesas gostam de olhar a mercadoria bem embalada.
-         Você anda-me mas é  a roubar os meus figos!!
-         Ó senhora!! Então não sabe que vou pela linha do caminho de ferro fora, quase até Braço de Prata, junto à linha, é daí que trago os figos madurinhos e bons.
     ( velha rabujenta)  - exclamou entre dentes, mas que eu ouvi,  e sorri interiormente, de cabeça esticada fora da janela de guilhotina da cozinha, enquanto observava a tentativa , desta vez gorada.
Passaram mais uns longos minutos e  assistindo eu ao combate pela posse dos frutos apetecíveis, era ver qual dos dois era mais manhoso. Já a dona da bata de cornucópias dizia que chamava a policia.
- Então chame! Os figos não são seus!
- Ó homem largue-me a porta!
Jurei que, só para chatear , nessa noite também eu iria aos figos!! Ao bater da meia-noite, eis me de prontidão, acompanhada pelo meu cão, fiel escudeiro e confidente das horas boas e menos boas, saquinho de plástico na mão. Deu-me um prazer enorme roubar os figos da porteira! Ainda bem que ela só lê revistas cor de rosa...

2 comentários:

PM disse...

Não sabe a senhora porteira o que perde em ler revistas coloridas em vez de ler certos blogues.
Ficaria a saber como lhe desaparecem os figuinhos e a saber quem é a verdadeira culpada!
Assim só nós (os que andam aqui pela blogosfera) ficamos a saber que uma distinta bloguista anda, a horas mortas, quando fechadas estão todas as portas (da porteira) "à chincha", que outra coisa não é essa arte de roubar figos, mesmo que seja só literariamente falando...

Petrarca (apreciador de figos)

Arroba disse...

Meu caríssimo amigo Petrarca, sempre atento, sempre presente. Muito lhe agradeço os seus amistosos comentários.
Quando aparece pela minha coutada para irmos às gingas??
Aqui lhe deixo publicamente o repto!
É uma honra poder contar com a sua presença!
Cumprimentos.