22 junho 2011

O Vale das Sombras




Nada garante que Kublai Kan acredite em tudo o que diz Marco Polo ao descrever-lhe as cidades que visitou nas suas missões: “As pessoas que passam pela rua não se conhecem. Ao verem-se imaginam, mil coisas, (…) os encontros que poderiam verificar-se entre elas, as conversas, as surpresas, as carícias, as ferroadas."
(In As Cidades Invisíveis, de Ítalo Calvino)
Recebi finalmente a tua carta. Foi como uma onda que,  de mar encarnado  volveu para mim.
Senti nas palavras o cheiro da maresia e li nelas uma promessa renovada de vida. E porque o homem é um ser para a liberdade, deixei-te livre e assim livre voltaste de novo, estejas tu onde estiveres, voltarás sempre .
Por ti e por mim, tento diariamente religar-me e seguir  nessa inesgotável continuidade do Amor e Fraternidade. É um caminho áspero que exige que me  transcenda.
Nessa cidade onde tu estás, com vales de penumbra que se perdem na imensidão do tempo, tempo esse que também nós vamos gastando, e perdendo, sem saber que o tempo é precioso, por só ele nos dar a oportunidade única de mergulhar na fonte da vida e do ser;  é  dessa cidade,  de onde me relatas notícias de loucos , de espoliados de afectos, de homens e mulheres que alucinam cidade onde te imagino e  te construo , experimentando a minha consciência limitada ao que apenas conheço.
Contudo consigo ainda imaginar-te percorrendo os longos vales, subindo e descendo, em sucessivos cruzamentos com outras vidas, também elas cruzadas de outras , das tais vidas que se não dão. Estranho no entanto que afirmes que a vida não é coisa que se  dê, - continuas o mesmo ao não desejares perpetuar a ausência. E porque a ausência só é sentida quando não há vida, essa vida que te recusas a gerar.
Aqui, deste lado, essa tua ausência é uma constante. No  sofá continua a marca do teu corpo adormecido –lembras-te quando eu velava o teu sono , e ao acordares perguntava, ansiosa, se voltarias no dia seguinte? Respondias-me,  misterioso, que  virias sempre .
Mais tarde, numa outra carta escreveste que me  imaginavas ali, à esquina do luar  a pensar no futuro: mas o futuro é o caminho para o nada – acrescentavas tu,  quando te perguntava o que era o futuro, já que nem o presente eu sentia existir, porque,  nunca o foi - Presente.
No teu e meu silêncio feito de penumbras, há  uma chama  que brilha com  esperança, emergindo neste breve oceano da Palavra que me faz redescobrir o sentido mais profundo da Vida, fazendo de ti o elo de ligação entre o sonho e a poesia.
Só assim vives, e, ao contrário do que escreves, que não habito os teus sonhos,  tu habitas na minha poesia – um estado interior aberto ao imaginário, ao que é belo e ao que tento eternizar – tu !

6 comentários:

OceanoAzul.Sonhos disse...

"...emergindo neste breve oceano da Palavra que me faz redescobrir o sentido mais profundo da Vida, fazendo de ti o elo de ligação entre o sonho e a poesia..."
Magnifico!

E na poesia habitam silencios que falam sentimentos.
Um abraço
oa.s

Álvaro Lins disse...

Gostei:). Mas pode ser "perigoso" viver na poesia.Às vezes (o poeta/poetisa)fica só!
Abraço

Arroba disse...

OceanoAzul.Sonhos,
Sempre que o Homem sonha o Mundo pula e avança, lá dizia António Gedeão :)
Agradeço e retribuo o abraço.

Arroba disse...

AL,
Quanto não vale esse risco? O Professor Agostinho da Silva dizia que a Vida é a mais bela forma de poesia.
Sorriso meu :)

AC disse...

E há muita vida nesse estado interior, muita vida mesmo...

Beijo :)

Artes e escritas disse...

A vida bem vivida e bem poetizada dá nisso, tudo muito lindo! Um abraço, Yayá.