21 junho 2011

Quarto 413


Quanto mais avançava pela vida fora, mais olhava para trás, vendo a vida por dentro, uma espécie de avesso da mesma; agarrando-se a maior parte do tempo, com desespero, às memórias que recusava partilhar. Agora  num momento de verdade extrema  olhava em redor e  via-se aprisionado, cheio de tubos e maquinetas  que lhe suportavam a vida. Havia  um estranho bip no compartimento, como se uma projecção de si próprio saltasse para o écran  esverdeado- aquilo era ele - ali representado num ondular, nem sempre constante. De tanto olhar acabava hipnotizado. Desviou o olhar que lhe saiu janela fora, em direcção à luz do dia.
Em contrapartida à lenta reacção física, a mente girava incessante, quase que atingindo velocidade supersónica.
Se fosse hoje...ah se fosse hoje e soubesse o que sei, as coisas que eu não faria,, o que eu não teria feito!- pensava ele.
A enfermeira  entrou no quarto à hora costumeira da medicação, a que ele se entregava dócil como se fosse  criança. Deixava-se conduzir sem qualquer oposição e olhava-a nos olhos, talvez procurando ainda uma réstia de verdade última –  olhando aqueles olhos negros , também eles habituados ao sofrimento, lembrou-se de um outro par de olhos que tinham ficado perdidos no tempo, perdição essa para que  também ele tinha contribuído. E a memória fixou-se aí, inteira como se pairasse  nela, na dona dos olhos negros.
Sacrificou-a em nome do egoísmo que o tinha pautado toda a vida, perdeu-se a si próprio e perdeu-a a ela. Agora já era tarde.
Desviou o olhar para o écran esverdeado e imaginou o relvado em frente ao rio.
Era lá que pairavam as suas lembranças.

5 comentários:

Álvaro Lins disse...

Gostei. Sem mais comentários!
Passa pelo meu blogue: não é publicidade! Mas há coincidências:)
Bjo

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Joãozitamiga

Faço minhas as palavras do Álvaramigo. Mas, com um só comentário: com este testículo (com x), matasteze-me com uma facadela no pêto.

Qjs

Artes e escritas disse...

Um texto que fala dos círculos viciosos a que estamos sujeitos involuntariamente, gostei de ler. Um abraço, Yayá.

Arroba disse...

Yayá,
Grata pelo seu apreço :)
Beijinho aqui deste lado do oceano.

Petrarca disse...

O que eu sempre digo (e para não me repetir fico calado): prosa poética e poemas que muitas vezes parecem prosa.
Já que há muito aqui não deixava rasto, uma pergunta: "aquele" projecto está a avançar?
Bjo.