02 novembro 2009

Simulacros de uma verdade rasurada

Guardo na memória
restos de uma cartografia simulada
simulacros de uma verdade rasurada
caminhos do efémero
onde não encontrei nada.

E.... como dizia, não Pessoa, mas David
"Por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes
encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos (...)"

Agora, quanto mais te desfaço, mais
a morte chega em mim.
é tempo de iniciar
este começo do fim.

8 comentários:

Arnaldo Norton disse...

Bonito, inspirado e profundo, como sempre!...

Anónimo disse...

A propósito da memória recordo distintamente que ela serve para ser recorada sem outra qualquer explicação e por isso recordo-me:

Aparelhado o galho com a bifurcação perfeita, num ângulo exacto de 45º, de braço esticado, metendo nesse buraco o horizonte delimitado pelo interesse da nitidez, volteou-se confirmando que fosse qual fosse o alvo em que acertasse a mira ele se oferecia limpo e claro.
Rodou o pau na mão fechada para que a pega se fosse alisando e criando a firmeza do gesto repetindo a operação enquanto regressava a casa, motivado agora pela dificuldade de saber como engendraria maneira de obter um elástico que daquela cruzeta de madeira fizesse uma fisga.
A coisa não era de fácil andadura e mais difícil se tornou quando a perscrutação da loja ia deixando de fora as sucessivas descobertas que julgara possuírem alguma coisa de possível.
Nenhuma borracha de câmara de ar de roda de bicicleta se encontrava sem atavio e não se atrevia a tirar um pedaço que fosse àquela que ligava a mangueira de rega, retesada sobre os tubos, num atilho tão economizado que tocar-lhe faria esbandalhar a espiral verde estriada e que ele sempre achara semelhante à traqueia de um dragão que, em vez de fogo, trazia a água da fundura dos poços.
A medida da sua procura revelava-lhe que o mundo que até então conhecia era mais feito de coisas duras e inextensíveis que das outras, das que esticam segundo a pressão a que as sujeitam.
Comido o caldo e depois de a contemplação do fogo da lareira lhe ter trazido a quentura do sono, desejou, já no frio dos lençóis, que a noite lhe trouxesse algum engenho, numa forma de prece sublinhada pela palpação que ia fazendo, junto do peito, do madeirame que naquele momento quase coincidia com uma cruz votiva.
O sono não se rendia e a cabeça fervilhava-lhe agora num clarão que antecede sempre o saber que estamos irremediavelmente suspensos sobre o abismo da impossibilidade, sem força de regresso, ou o encontro com a solução revelada por outro querer que nos acresce e nos sossega e, foi assim, que a ideia lhe veio.
Levantou-se, percorreu o escuro da casa até ao quarto da avó onde o resfolegar da glote assegurava que ela dormia um sono profundo e, aproximando-se da roupa deixada sobre a cadeira, retirou do espaldar as meias pretas e com a agilidade que os seus dedos pequenos lhe permitiam, desenrodilhou os elásticos das ligas que carregou consigo numa escapulidela rápida até ao quarto levando numa das mãos num equilíbrio inconstante a lata da costura.
O quarto era refúgio bastante e a candeia fornecia luz de sobra para que sem grandes demoras pudesse fazer o que lhe mandava o atrevimento, cortando com a tesoura um pedaço de elástico a cada uma das ligas e voltando, de imediato, com a ajuda da linha e da agulha a juntar as pontas, num esforço em que a vontade era bem superior ao mérito.
Pareceu-lhe que estava bem.
As argolas que reformara cumpriam a sua missão de agarrar as meias às pernas e no juízo dos seus olhos passou com louvor a confirmação de que pouco se notaria a falta do que retirara, pelo que se apressou a regressar ao quarto da avó e a recolocar nas meias, e na mesma situação em que as encontrara enrodilhadas, as ligas, agora apenas um nadinha mais encolhidas.

Anónimo disse...

Acordou sem sobressalto e trazido à realidade pela luz que lhe entrava pela janela, trazia já consigo também a emergência dos afazeres inadiáveis.
Ainda com o sabor do centeio na boca e acobertado pela cumplicidade da cerejeira do quintal, retirou do bolso os dois pedaços de elástico obtidos com tantos apertos de alma e notou que atados com um nó seguro, quando agarrados a cada uma das pontas da cruzeta da fisga, aquela corda tensa pouco mais era que uma corda de harpa.
Não fosse a dificuldade e a pressa um indutor de regalias da imaginação, teria deitado fora naquele momento o pau e a baraça, mas não o fez e entrando de novo na loja, tirou das sacas das batatas um pedaço de cordel de sisal.
Atou um pedaço do nagalho a cada ponta do elástico e jungida a corda a cada uma das pontas cimeiras da cruzeta, satisfez-se de pronto com o facto de aquela geminação de matérias diferentes produzir o efeito desejado.
Tinha agora uma fisga e a passarada que se cuidasse que não faltava muito para lhe conhecerem o aprumo da vista e a certeza da mão.
Prantou-se nos degraus da casa, amorrinhou-se quieto rodando na mão esquerda a pequena pedra que seria testemunha do seu primeiro lanço e quando a piancada no meio da folhagem da amoreira, mesmo de fronte, lhe permitiu ver um bater de asas incauto, segurou entre o indicador e o polegar da mão direita o bazágrio duro envolto no elástico, onde se notava um nó firme assinalando a bissectriz perfeita de um ângulo angustiado até ao guincho; esticou o braço esquerdo limitado na tensão pelo cordame que resistia segundo a natureza do que era feito e fazendo a mira no meio dos costados da ave minúscula a uma distância não superior a 6 metros, suspendeu a respiração para que nada afectasse a solenidade do momento.
Soltou a mão direita deixando-a vir para trás, mas o que sentiu foi uma forte pancada na nuca, uma verdadeira "cachaçada", como se a pedra liberta de tensão tivesse caprichosamente descrito um semi círculo e o tivesse atingido na pescoceira.
Nem teve tempo de mais indagaduras.
Era a avó que ouvia agora atrás de si e que ainda de mão levantada e quente o apodava de diabo sem vergonha e de ginete sem trela, reparando ele que de dentro dos tamancos, bambas, sem firmeza e sem altura, saíam as meias que ele bem conhecia e de dentro delas, desenlaçadas, as ligas se encontravam desfeitas por não haverem resistido à grossura das pernas
Enfiado, de cabeça encolhida nos ombros, notou ainda que a pedra em que depositara tanta fé se encontrava quase aos seus pés, a menos de dois metros.
As desculpas à avó tinham a garantia do perdão e mais o tinham se deixasse correr umas lágrimas que sabia que desarmavam sempre a ira dos velhos, por isso, quando a mão dela desceu de novo sobre si, o gesto já não era o disparo de uma fisga de braço mas tinha a doçura de roçar de asa de anjo com o sabor das festas que ele bem conhecia.
A avó sorria agora e aquele sorriso confirmava que o segredo ficaria bem guardado entre os dois evitando que a mãe, ao saber da coisa, sublinhasse com actualidade serôdia uma memória que ele queria ver depressa esquecida.
Sentado nas escadas, na solidão da sua vergonha ainda com a pedra ali por perto e com a fisga na mão foi desfazendo os nós do elástico e do cordel e restituindo a pau aquilo que era apenas um madeiro mas que em tempos fora um apelo de horizonte e nunca mais se desfez dele, utilizando-o para medir a altura do sol e para circunscrever a sua atenção lembrando a gravura que no livro de história da escola representava um homem na proa de um barco, segurando na mão uma cruzeta metálica sem fios e sem baraços extensíveis, a que a legenda chamava de sextante e que se dizia ser um instrumento que media a altura dos astros.
Pois também ele, se tinha perdido os favores de uma fisga, pelo menos ganharia a lição de saber, de ora em diante, que nenhum elástico o levaria tão longe quanto a sua vontade de chegar, lá onde a bifurcação do seu sextante de pau lhe revelasse um horizonte limpo e desimpedido.

Arnaldo Norton disse...

De quem é esta prosa fabulosa ?
Diz-me qualquer coisa mas não sei o quê !...

Arroba disse...

E.... como dizia, não Pessoa, mas David
"Por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes
encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos (...)"
O poema entre aspas pertence a David-Mourão-Ferreira, apenas esse e só, o resto é muito meu.
Muito obrigada pela sua força, é dos poucos que me continua fiel. Tudo o mais foge cobardemente, porque incomoda certas mentes que se fecharam para a Vida.
Abraço com amizade
@

Arroba disse...

Caro Anónimo,
Fiquei encantada com a sua forma de escrever, parece quase fácil...e contudo não o é! A sua imaginação é , de facto prodigiosa, o que faz uma fisga e umas ligas da avó! ( Sorriso). Gostaria que me desse permissão de publicar em lugar de destaque.
Cordialmente
@

Anónimo disse...

Autorização concedida (embora não fosse necessária porque quem lê uma coisa e lhe dá um sentido único e seu, faz do que lè coisa sua)

Anónimo disse...

Em boa verdade ninguém escreve por si, embora possamos escrever para nós, e se tantas vezes julgamos ver noutras escritas aquilo que queríamos nós mesmos escrever ou, então, nos outros, um "jeito" que julgamos que nos escapa nesses vestígios de quase decalque, apercebemo-nos de que todos usamos as mesmas palavras, pela mesma ordem ou por ordem inversa.
E porque sei o segredo de tal acontecer disponho-me a contá-lo...
Era uma vez há muitos anos, quando as pessoas ainda
viviam fora dos ecrãs.
Habitava numa colina um povo minúsculo de gente quase invisível e de poucas falas.
A cada um, pelo mágico do reino, eram distribuídas ao nascer do dia 100 palavras. Nem uma mais nem uma menos.
Por isso eles apenas diziam coisas acertadas, directas e inteligíveis.
A vida corria com a exactidão com que as palavras (iguais para todos) eram distribuídas como uma ração preciosa.
Mas houve alguém que se revoltou um belo dia...
Invejando a forma com que muitos faziam render os seus vocábulos e, ainda mais, o que conseguiam obter com eles, o inconformado começou a engendrar um plano de revolta mas, lamentavelmente tinha apenas 100 palavras por dia para se revoltar.Nem uma mais nem uma menos.
No fim de muito pensar, e pensar sem palavras rendia muito, descobriu que se escrevesse as palavras da revolta, elas não valiam mais mas duravam mais tempo.
Afinal vale mais aquilo que dura mais tempo...
E assim fez.
Começou a grafitar nas paredes o desacordo de as palavras serem iguais para todos e em tal número.
E incitava à revolta convidando à recusa em utilizar as palavras distribuídas.
Afinal, pensava ele, que se todos poupassem as suas palavras e se as pusessem em comum, poderiam como um todo ter muitas mais para usar...
Ao fim de 3 dias e depois de ter regimentado alguns habitantes do reino tinha ele já mais de 1500 palavras e então resolveu fazer um manifesto.
Mas, embora tivesse 1500 palavras tinha muitas repetidas pois que apenas 100 eram diferentes.
A solução seria fazer um manifesto curto mas repetido muitas vezes.
Ao fim de um tempo o conjunto dos seguidores somava-se e, com ele, o poder daquelas palavras repetidas sincopadamente como as horas, na torre do campanário.
Alertado pelo crescente alarido o mágico do reino começou a levar a sério aquele movimento sonoro e resolveu tomar uma atitude.
Daria de futuro apenas metade das palavras a cada um.
E se o pensou melhor o fez.
Surpreendidos pelo emagrecimento da ração comunicante, os habitantes tomaram-na consigo e lá abalaram vergados ao peso de uma autoridade incontornável.
Alguns deles chegaram a semear as palavras nos campos mas ou porque a terra era avara ou porque a semente de má qualidade, nenhuma colheita tiveram.
No segredo do anonimato o contestatário magicava uma resposta.
Se as palavras eram menos teriam de ser gritadas mais alto...
E assim fizeram.
Às horas estabelecidas, o cortejo percorria as ruas zonzando e vozeando aquela prosa irreverente de quererem mais palavras para lá das palavras.
Cada dia que passava a multidão aumentava e com ela a força do som que se expendia.
O mágico atordoado via a população unir-se em volta do pouco que tinha e aquelas 50 palavras distribuídas tinham afinal o peso das palavras únicas, como um tiro de canhão.
A solução era apenas uma...Dar-lhes o que queriam e assim se decidiu a abrir os cofres do reino e a deixar que todas as vogais, todas as consoantes e todos os acentos fossem distribuídos sem reserva e sem critério.
E foi desde esse dia, para espanto do mágico e desdita do revoltoso, que mais ninguém foi capaz de dizer ou de entender as mesmas coisas.
Deixou de haver cortejos pelas ruas do país e possuídos de tantas palavras ninguém mais se entendeu.
As palavras, essas foram aos poucos perdendo o significado e diz-se que esse país distante, foi definhando até ter desaparecido, precisamente pela abundância das palavras ter inundado os corações das gentes e esvaziado o sentido dos gestos...