06 setembro 2010

Marasmo

Já não sei de mim
Onde me perdi
Nesta réstia de saudade
Tanto enfado nas palavras
Que não saem a contento
Escorre-me negra a tinta
Da cor deste sentimento
Perdida me vou achando
No caminhar da pena
A fugir deste tormento
 Da ternura dos outros
Que observo em silêncio
Do toque que já não toco
Do grito que já não dou
De mulher bem comportada
Que não sente, que não tem
A quem roubaram a vida
E que não é de ninguém
Mais vale ficar calada!
Adormecer no marasmo
De viver esta existência
Com gritos mudos de pasmo.

02 setembro 2010

As palavras da Poesia










 



Calíope - Deusa da Poesia 

Quando aqui dentro me dói
Quando o silêncio me envolve
Num silêncio tumular
Peço baixinho ao anjo
Para a minha alma guardar.

Eis que nasce mais um dia
Num dourado alvorecer
Espaireço esta tristeza
Saudade que tenho tua
De nunca te poder ter.

Restam-me as palavras
Com que te estou a escrever
Faço delas a poesia
Com receio de algum dia
Poeta não vir a  ser.

27 agosto 2010

Uma história de encantar.


















(Imagem retirada da net)
Ao contrário de outras histórias de encantar, esta não se inicia com “era uma vez um príncipe...” ou com uma princesa adormecida, nem tão pouco  um príncipe com título herdado de seu pai que  possuía um reino imenso cativo nas mãos de um grão-vizir ou de um estranho feiticeiro ou mágico. Nada disso!
Parte da história  que aqui narro, tem inicio  num  dia em que o verão se preparava para fazer as malas e  rumar a outros horizontes, sem poder precisar o dia, mas algures em local secreto nasce o príncipe. Quando foi baptizado, vaticinaram-lhe longa vida e  coragem de guerreiro, sempre defendendo todos aqueles por quem se sentia responsável.
Na época ( e porque estas criaturas mágicas existem), uma fada tocou-lhe na fímbria do pequeno chambre bordado pacientemente pelas mãos da rainha sua mãe,  e murmurou numa fala quase inaúdivel, uma  quase oculta profecia : - Principezinho...  para encontrares o caminho da felicidade terás de olhar a planície e o sol a descer no acaso,  por muitos e muitos anos; todos os dias ele te dará conta de uma página do seu livro – ouve com atenção o que  tem para te ensinar! Depois, anos mais tarde, já adulto,  subirás a norte e encontrarás uma outra provação, mesmo que sintas receio, olharás o rio que passa por ti ao longe e, de novo,  saberás interpretar a missiva que as suas águas transportam.
Viverás num castelo, que as tuas próprias mãos construíram, mas que se tornará de dia para dia na tua própria prisão.
Tudo o que  confidencio aqui , nesta linguagem incompreensível para muitos, fará parte das provas a prestar para que te  tornes num digno representante de uma raça de  valentes guereiros, não pela linhagem de sangue , mas pela nobreza de carácter. Todo este percurso  será necessário para a  tua aprendizagem.
Haverá um fosso, de águas escuras e pestilentas, agitadas por demónios e criaturas horrendas, mas algo te será dado em determinado  dia, para que sintas confiança em ti mesmo e o atravesses seguro.
...
Passaram então os anos em voragem vertiginosa, o príncipe que já não era menino, tinha recebido da Senhora da Lua, pequenos fios de prata que lhe suavizavam o rosto, fazendo-o resplandecer pelo reino fora; a tal ponto que ofuscava as águas do rio e as ondas do mar. No seu peito vivia espelhado o brilho da  mesmo planeta e o aveludado da neve.
Num outro condado vizinho, havia uma princesa aprisionada, apenas tinha permissão de ver o brilho das estrelas, o sol tinha-lhe sido retirado por um homem vingativo e cruel que dominava todo território.
Todas as noites a princesa suspirava à luz da lua, desejando que o príncipe tivesse coragem para atravessar o fosso que rodeava o castelo. Quando havia lua-cheia, encontravam-se os  num tempo proibido aos dois. Era necessário ter cuidado com as forças que dominavam o príncipe! Só libertando-se um , o outro também poderia ser liberto!
Ambos cativos! Até que um dia, surgiu uma esperança renovada, uma espécie de criptograma para desvendar as páginas de um livro aberto, oculto numa praça a arder – chamavam-lhe a praça da Babilónia! Muitas gentes por ali passavam, mercadores, marinheiros, prostitutas , ladrões de almas e vendilhões do templo.
Havia que conservar a pureza e chegar ao mencionado livro sem  nenhum dos dois se deixar contaminar pelo chão lamacento que pisavam.
Muitas vezes a princesa deixava-se atemorizar, receando que o seu príncipe não conseguisse superar todas as provas. Mas sabiam que teriam de ter confiança um no outro.
Havia um espelho que os tinha visto aos dois, enlaçados e unidos como rocha e onda, como mar e terra, como planície e água. A princesa lembrava-se disso!! E queria voltar lá! Ouvir o príncipe dizer : - aqui é a minha casa, e tu és a minha princesa.
Vão rolar os dias, as semanas e os meses, um dia virá um dragão alado que entregará ao príncipe a parte restante da profecia, num tempo devido, sem descurar os que lhe são queridos e sob sua guarda e protecção; nesse dia o sol volta a brilhar para os dois e os risos e sentidos encherão quartos de tinta cor de laranja! Dormirão juntos no trigo dos campos maduros do verão.
E parte-se do principio que serão felizes para sempre....

19 agosto 2010

Voar

Há em mim um deus que dança
Que me anima, que me insufla
Este pedaço de querer
Este pedaço de esperança.
Quando entra e vem só ele
Fazendo jorrar as fontes
Quando do céu caiem gotas
Que lavam  os horizontes
A terra inteira ressoa
E se levantam dos montes
Os murmúrios ao ouvido
Do desejo renovado
De te sentir no meu corpo
O teu de seiva molhado
E renasces tu em mim
Eu por ti abro-me em flor
Quando és deus que dança
Esta dança do amor.
Somos do mundo senhores
Nessa frenética luta
De consumar o desejo
Que a só a nós  catapulta.
Eu sou arco e tu flecha
Disparada contra o vento.
Ergo-me ao firmamento
E tu levantas as mãos
E ensinas-me a voar
As minhas são tuas asas
E ficamos a pairar.



Un Parfum du Fin du Mond















A Morte do Pássaro de Fogo - Pintura à Óleo 1963 - Estilo: Expressionista ( pertença de Ivam de Almeida Garrett)
Dis, m'en veut surtout pas si ma chanson a un parfum de fin du monde.
Dis, on se reverra un café désert sans les cafés, les gares comment faire pour se retrouver demain
On s'endormira puisque tout sera le grand sommeil
Dis, T'en fait surtout pas si je vois déjà
Le premier oiseau d'un après guerre sur un fil de fer qui s'est barbelé au coeur des années
Now that I know your ins, that I guess my outs,
You're a part of me, couldn't do without you.
Dis, on se reverra un café désert sans les cafés les gares comment faire pour se retrouver demain.
Tu m'endormiras I may go to sleep
Je serai prêt
Hey don't you worry now
Si je vois déjà le premier oiseau d'un après guerre
Soon there'll be a pair lequel restera m'en veux surtout pas
Letra  de Michel Legrand

(Ah! Se eu fosse contar minha história....o mundo ficava mais triste. Mas há sempre um amanhã em que a alegria canta no galho verde de uma árvore.Hoje sou pássaro calado. Mal a madrugada chegue, visto as asas da cotovia e canto para te acordar.)

http://www.youtube.com/watch?v=zTtVFZOD_io&p=3A642C62F3646029&playnext=1&index=48

17 agosto 2010

Iniciação
















  
A Deusa Dionéia

Sinto-te agora  no aroma dos pomares!
Quando as minhas mãos saem para te colher
e te transformas em pantáculo.
E  trincas o verde doce da maçã.

Juntos somos quatro rios, correndo livres
Vela branca a ondular.
E somos luz a viajar , profecia realizada
sem máscara, fantasia consumada.
Em cima estamos nós, em baixo
e no centro.
Bem dentro de mim, cá dentro.
Dentro de ti, eu sou.
 Isís celeste, coroada
pelas tuas mãos tocada ( pela gnosis)
Voando com asas de águia.
Em baixo és arco-iris,  núvem
coluna de fogo a arder dentro de mim
Pássaro, deus, eu columbina, tu
arlequim.
E juntos fomos tudo, dois e um!
E o três até ao infinito.
E na minha pele ressoa agora
o eco, a imagem, o som
e de nós fizemos templo!
E de nós fizemos rito!

16 agosto 2010

Ego sum qui sum.

Se fordes cegos como Sansão, quando sacudirdes as colunas do templo, as ruínas vos esmagarão.
Para mandar na natureza, é preciso ter-se tornado superior à natureza pela resistência às suas atrações.
Se vosso espírito está perfeitamente livre de todo preconceito, toda superstição e de toda incredulidade, mandareis nos espíritos.
Se não obedecerdes às forças fatais, as forças fatais vos obedecerão.
Se fordes sábios como Salomão, fareis as obras de Salomão.
Se fordes santos como Cristo, fareis as obras do Cristo. Para dirigir as correntes da luz móvel, é preciso estar fixo numa luz imóvel.
Para mandar nos elementos, é preciso ter dominado seus furacões, seus raios, seus abismos e suas tempestades.
  • É preciso saber para ousar.
  • É preciso ousar para querer.
  • É preciso querer para ter o Império.
  • E para reinar, é preciso calar.



"Câmaras de Consciência"
Na sequência, a disposição das 12 Horas de Apolónio de Tiana:

Primeira Hora: "Os demónios entoam em conjunto louvores a Deus. Eles perdem a maldade e a ira”.
Segunda Hora: "Mediante a dualidade, os Peixes do zodíaco louvam a Deus. As serpentes ígneas enrolam-se em torno do caduceu e o relâmpago torna-se harmonioso”.
Terceira Hora: "As serpentes do caduceu de Hermes se entrelaçam três vezes. Cérbero escancara sua tríplice goela e o fogo entoa louvores a Deus pelas três línguas do relâmpago”.
Quarta Hora: "Na quarta hora a alma regressa da visita aos túmulos. É o momento em que as quatro lanternas mágicas dos quatro cantos do círculo são acesas. É a hora dos encantamentos e das ilusões”.
Quinta Hora: "A voz das Grandes Águas entoa ao Deus das Esferas Celestiais”.
Sexta Hora: "O Espírito permanece impassível. Ele vê o monstro infernal vir ao Seu encontro e está sem medo”.
Sétima Hora: "Um fogo que dá vida a todos os seres animados, é dirigido pela vontade de homens puros. O Iniciado estende a mão e o sofrimento transforma-se em paz”.
Oitava Hora: "As estrelas conversam entre si. A alma dos sóis responde ao suspiro das flores. A corrente da harmonia faz todos os seres da natureza se harmonizarem entre si”.
Nona Hora: "O número que não deve ser revelado”.
Décima Hora: "A chave do ciclo astronómico e do movimento circular da vida dos homens”.
Décima Primeira Hora: "As asas dos Génios movimentam-se com um misterioso rumorejar. Eles voam de esfera a esfera e levam as Mensagens de Deus de mundo a mundo”.
Décima Segunda Hora: "Aqui se realiza, pelo Fogo, a Obra da Luz Eterna”
Estas doze horas simbólicas, análogas aos signos do Zodíaco mágico e aos trabalhos alegóricos de Hércules, representam a série das obras da iniciação.
é preciso, pois, primeiramente;
1.° — Dominar as paixões más e forçar, conforme a expressão do sábio Hierofante, os próprios demónios a louvarem a Deus.
2.° — Estudar as forças equilibradas da natureza e saber como a harmonia resulta da analogia dos contrários. Conhecer o grande agente mágico e a dupla polarização da luz universal.
3.° — Iniciar-se ao simbolismo do ternário, princípio de todas as íeogonias e de todos os símbolos religiosos.
4.° — Saber dominar todos os fantasmas da imaginação o triunfar de todos os prestígios.
5.° — Compreender como a harmonia universal se produz, no centro das quatro forças elementares.
6.° — Tornar-se inacessível ao temor.
7.° — Exercitar-se na direcção da luz magnética.
8.° — Aprender a prever os efeitos pelo cálculo de ponderação das causas.
9.° — Compreender a hierarquia do ensino, respeitar os mistérios do dogma e calar-se diante dos profanos.
10.° — Estudar a fundo a astronomia.
11.° — Iniciar-se pela analogia às leis da vida e da inteligência universais.
12.° — Operar as grandes obras da natureza pela direcção da luz.
Eis aqui, agora, os nomes e as atribuições dos génios que presidem às doze horas do Nuctemeron.
Por estes génios, os antigos hierofantes não entendiam nem deuses, nem anjos, nem demónios, mas sim forças morais ou virtudes personificadas.


http://hadnu.org/dogma-e-ritual-de-alta-magia/suplemento-do-ritual/o-nuctemeron-de-apolonio-de-thyana

Tejo

10 agosto 2010

O Ladrão de Estrelas

O Tejo tem esta noite uma gargantilha de diamantes.
Quem lha ofereceu foi a linha do horizonte, que se deitou sobre ele. Espécie de colo de novela negra, uma Auá ebúrnea.
Vaidoso,  calmo e vagabundo.
Todos o olham e não é de ninguém.
Das margens, avisto de quando em quando, um fino estilete a marca-lhe as entranhas, pequeno batel
de luz vermelha a fazer lembrar um  rubi
que desliza sereno, talvez uma ínfima gota de sangue que jorre dolorosa.
Reflexos ígneos de um Conde de Monte Cristo, uma mão de finado que se ergue  da escuridão.
Sei pela luz que passa, e que risca o firmamento,  que  alguma estrela cadente se enamorou do rio e desce rápida ao seu encontro. Outras há que brilham ainda seguras lá no cimo. Ainda  distantes, ainda longínquas. Não importa onde estejam; um dia  um tempo virá,  em que todas as estrelas do meu  infinito virão banhar-se nele e o Tejo será  um eterno luzeiro a brilhar no caminho- Solitário, vagabundo e  seguindo até à foz. Sempre de uma beleza que se fosse humana seria insuportável, guardando o brilho das pratas. É talvez por isso que ainda não sou estrela cadente. É talvez também e ainda por isso, que me assemelho mais a um fino estilete. E rasgo-te a espaços amiúde, tentando entender de que é feito o teu veludo aquífero. E continuo a não entender o porquê deste equilíbrio entre nós dois. Tu aí altivo a correres-me aos pés e eu na margem a tentar agarrar-te os sonhos que levas para o mar.

09 agosto 2010

Phantera




















A meu favor
Tenho o verde secreto dos teus olhos
Algumas palavras de ódio algumas palavras de amor
O tapete que vai partir para o infinito
Esta noite ou uma noite qualquer

A meu favor
As paredes que insultam devagar
Certo refúgio acima do murmúrio
Que da vida corrente teime em vir
O barco escondido pela folhagem
O jardim onde a aventura recomeça.

Alexandre O'Neill

05 agosto 2010

Tu exististe mesmo?

Este blogue está aberto apenas a leitores convidados:  - a marca da impiedade.

"Há palavras que nos beijam como se tivessem boca" Alexandre O' Neill

Outras palavras há que nos queimam como brasa.
Na pele fica a marca indelével dosvidannia e na alma o desejo que a barca chegue e justifique a partida.  

Sonhei eu com versos dourados?
Poesia que vinha do além
Sonhei que Antero a tinha escrito
Que  os tinha destinado a mim.
Sonhei ontem,
Hoje procurei ansiosa, pelas páginas
Marcadas
Nada encontrei,
Será que enlouqueci
Ou então sonhei
Mas onde estão esses versos dourados
Que ontem certamente li?

"Antero de Quental suicidou-se porque a Vida se lhe apresentou indecifrável, nas tragédias, nas dores, nas desigualdades de destinos, que à sua filosofia positivista se afiguravam insanáveis injustiças. Depois do seu acto irreparável, verificou com assombro que a morte onde julgara mergulhar não existia e que a sua consciência continuava a viver com mais intensidade do que nunca (...) "

DEUS
(...)
Eu devia buscá-lo onde Ele mora:
Na sua perfeição da Natureza
E no esplêndido encanto  e na beleza
Do Céu, do Mar, da Luz, da Fauna e Flora.
Eu podia em cada hora
Nessa vida: no Amor e na Pureza,
Na Paz e no Perdão e na Tristeza
E até na própria Dor depuradora.

Mas eu andava cego e nada via;
E a Vaidade escolheu para meu guia
A Ciência falaz, enganadora!

Se o Guia fosse a Fé ou a Bondade,
Vê-lo_ia daí na Imensidade,
Como, em verdade, O vejo agora.
in  A Poesia do Espírito, Félix Bermudes , Lisboa 1958

03 agosto 2010

Sinais do Caminho - O meu muito obrigada a quem me trouxe de volta









Ilusões perdidas - Charles Gleyre.

O mar da Vida não está cartografado. Navegamos a maior parte das vezes à deriva. É um facto!
Neste  tempo que me foi concedido  a bordo, vivo  os dias e as noites que se sucedem sem interrupção. Noites de temporal , borrasca tamanha, alternando com noites  de brilho, lua cheia, redonda, imensa. Dias calmos, qualquer um diria,  dias arrastados, entediantes.
 No mês de Julho recebi sinais que não posso ignorar. Um deles foi o falecimento do Prof. Couto Viana. Introduzo aqui um dos seus poemas, convencida de que seja o ultimo. Na altura não soube ler os sinais...

Os poetas não deviam morrer no hospital. ( Digo eu)

“-Porque não chegas a velho,
Menino de mais de oitenta?
Nunca te vês ao espelho?
Essa imagem não te assenta?

-Não me assenta, na verdade.
Por dentro é que eu conto os anos.
Por fora o tempo e a saudade
Causam danos.

-Porque não sentes que vem,
Com passo lento e fatal,
Alguém
Lembrar-te os oitenta e tal?

-Sinto, sim! Mas com coragem:
Já tenho a mala aviada,
Pra iniciar a viagem
Ao tudo a partir do nada.

Na bagagem, o menino:
Que a velhice é para os velhos
E não se alcança o destino
De joelhos.

Não suporto nenhum se
( O coração não duvida)
E vou-me embora antes que
Me adiem mais a partida.

Poema inédito de António Manuel Couto Viana
(9.05.2010)
Viana do Castelo 24.Jan.1923 – Lisboa 08.Jun.2010

Em meados de 8 de Julho  Deus acordou-me – andava eu adormecida no batel.
Permitiu   que eu lesse para além do que está escrito. De que modo? Colocou-me um anjo no caminho para me abrir a mente. Esse anjo falou-me de sonhos, de viagens, barcos, caminhos a percorrer;  em simultâneo  mostrou-se  impiedoso, frio e distante. E eu não compreendia o sentido. Acreditava  que os anjos são seres benfazejos, surgem na nossa vida para nos proteger e alertar, quando partem não nos magoam e não deixam um rasto de destruição.
Em noite de lua cheia o anjo devolveu-me a minha alma, essa que eu tinha entregue algures. Tinha ficado combinado que na Eternidade ela me seria devolvida. Desejei no entanto que esse trato fosse anulado e, que de alguma forma, voltasse a reavê-la. Tal sucedeu de facto. Mas não foi tão linear assim. Ao receber de volta o que nunca deveria ter dado, tive de renascer com todas as implicações que tal processo acarreta.
Dei por mim a olhar a luz de um imenso candeeiro. À minha volta , caras ansiosas aguardavam que eu regressasse do limiar, do portal onde estive. É que eu tinha ido atrás do anjo. Ao contrário do poeta, ainda não estou pronta a partir. E também não quero esperar o meu destino de joelhos.
Depois desse regresso à vida, vieram-me parar às mãos os últimos livros de um caminheiro em final de trilho. Percebi a sua ânsia, a busca pela LUZ no CAMINHO.
Sou uma das fiéis guardiãs do templo que CV construiu. Muitos dos seus tesouros me passaram pelas mãos. Sinto o perfume dos seus livros envolvendo-me .
Para mim foi-me reservada a leitura da chave do caminho. Uma parte essencial do acervo está diante dos meus olhos.
No entanto, foi preciso que um anjo impiedoso me fustigasse com a ponta da asa.
Estou a começar a aprender que a vida é como uma ária musical. O intervalo entre as notas é que conta, não as notas em si.
Obrigada a António Manuel Couto Viana.
Obrigada ao anjo impiedoso.

22 julho 2010

Os sinais no caminho

















Descer......e.......subir amanhã.
Estou cansada.
O olhar fugiu-me  novamente.
Já passou pelos campos dourados,  pelo aroma da canela e do caril .

 Segue pela nuvem sinuosa  do asfalto azul e pousa num galho de árvore.
Deixa uma nesga da vidraça aberta
Se acordares de madrugada ouve-me a cantar. Se a minha asa continuar ferida, chegarei pela tardinha, transformada em canto de cigarra.
Chegarei sempre!
Conforme desço também subirei, a menos que a Eternidade chegue antes de mim.

20 julho 2010

Tese e antítese


A consciência torna-se num formigueiro doloroso, por vezes flui , mas acabo por a perder.
Já não posso ter a pretensão do absoluto – tomei consciência disso.
Cheguei ao limiar do templo, debato-me entre margens: odio e amor. Entrei em conflito, como se fosse barco sem remos.
Sofro hoje,  porque tudo ontem foi inútil.Continuo na senda, deixando um rasto no pó do caminho. Olho para trás e vejo as pegadas marcadas no chão. Estão lá!
Quis conhecer todos os teus segredos. Debalde.
Agora que não te conheço, sei-os de cor, finalmente. Libertei-me de ti.
Ousei dar. A cada gesto meu, fugias sempre mais e mais.  Amar-te para além do corpo,  sem artifícios , sem véu,  e  porque o corpo só, não importava. A alma, essa sim.Era tudo.
Encontrei sempre qualquer coisa tua nos outros; nunca tu me encontraste a mim.
Agora só me resta desmistificar o mundo. A fantasia tornou-se cruel. Dói-me, mas é a única coisa que de ti me ficou.
Escrevo-me assim, mas não sou eu, sou a outra que ficou perdida no tempo. Descobri que o amor foi um estranho vício,  por ti sou criminosa,  pago a pena de ter amado. Cumpra-se o destino que me foi destinado.
Fui tese, sou agora antítese. Sou dissonante sem síntese. Tu nunca existes!Não como eu te sonhava. .
É na incoerência que me fixo,   viver este  meu tempo, que  é também o teu, pese embora,  que não o vivas como é imperativo. A lei da Morte te libertará um dia, eternamente serás prisioneiro do que ficaste a dever-lhe a ela Vida. "Morre lentamente quem não vive...".

17 julho 2010

Mozart : concerto n.º 23 para Piano, k488 - segundo andamento

























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A cidade de Pamina e Tamino .
Todas as cidades são feitas de desejo. E o desejo é a falta, a ausência, a carência. Cidades cheias/ cidades vazias. Esta minha vontade potencia o auto-estímulo e faz nascer em mim toda uma cidade construída, alicerçada neste  muito querer, neste almejar feito de mil sonhos, materiais de construção do inconsciente. É a cidade dos sonhos.

Em cada jardim da minha cidade, existes tu, feito um universo fantástico, és céu por sobre o meu corpo, templo, catedral que me abriga. É desta falta, desta ausência que me vou alimentando de ti. É assim , desde que me conheço, que te desconheço, que  desejo, que te imagino, que te vejo. Que sonho que te revejo.

Lago calmo beijando as margens, rio agitado galgando o leito. É assim de novo, e ainda uma outra vez, tantas as vezes assim em que te desejo, que te sonho , que te sinto .

Nas ruas da minha cidade, existem manhãs de sol claro, cheiros aos molhos, pão fresco e lírios acabados de colher. Nos varandins , flamejam lençóis de linho bordados com desenhos de girinos prateados. São colchas, dosséis, tecidos adamascados a ondular na brisa leve e morna que, por instantes se detêm no parapeito a namorar o varandim. É o desejo que voa, através do sonho, e vem pousar manso e doce dentro de mim.

São todas estas cidades que imagino, não as muitas de Calvino, estas são sonhados por mim.

E há uma praça, dormindo à sombra do arvoredo, onde nos encontramos, onde deixamos de andar sós, que não é exacta ciência, nem é tão-pouco um segredo, é o caminho a percorrer o preço de uma existência a pagar para sermos nós – hoje e aqui, sem condição de degredo. É, olhando-me de um outro modo; aqui e agora, conseguir chegar, após uma busca imensa na procura do lugar; sim – a praça, onde sinto, onde sei que é lá que a nós vou encontrar.

Vejo um sino, no alto da torre sobranceira, não chora, não tange, mas canta a alma de uma cidade encantada, em tons de azul e ouro fino, dióspiro e colibris. Chegou o passarinheiro Papageno….dá-me a tua mão enfrentemos juntos a Rainha da Noite !

Na minha cidade não há trevas.

16 julho 2010

Sobre o Amor...

Tenho em mim, a firme convicção, de que em tempo devido,  nunca mais serás o mesmo; assim como  também eu o não serei. Uma percepção subtil diz-me que,  de hoje em diante,  a seiva fluirá dentro de ti e não mais serás o morto de quem não há memória:
O homem que se não domina interiormente, é presa fácil de tentações. Diz-me,  que viste tu em algum lugar que permaneça muito tempo debaixo do sol?
Sabes o que o Bernardo dizia.....que tinha nascido “em um tempo em que a maioria dos jovens haviam perdido a crença em Deus, pela mesma razão que os seus maiores a haviam tido – sem saber porquê. E então, porque o espirito humano tende naturalmente para criticar porque sente, e não porque pensa, a maioria desses jovens escolheu a Humanidade para sucedâneo de Deus. Pertenço, porém, aquela espécie de homens que estão sempre na margem d’aquilo a que pertencem, nem vêem só a multidão de que são, senão também os grandes espaços que há ao lado. Por isso nem abandonei Deus tão amplamente como eles, nem aceitei nunca a Humanidade”.

Mas, mais forte que a Vida e que a Morte,  é o poder do Amor, só ele nos mostra a Fé e a Graça; só através desta poderás renascer. Não importam os mil e um renascimentos físicos, se a tua a alma não tiver a pureza do riso cristalino das crianças, poderás dar vinte voltas em redor do mundo que nunca encontrarás a Verdade.
Assim :

“Grava-me sobre o teu coração, como uma tatuagem;
Põe-me como um selo sobre o teu braço,
Pois o amor é forte como a morte
E o ciúme, cruel como o inferno.
Não podem apagar o amor rios nem oceanos
E se, com suas riquezas, alguém tentasse comprá-lo, seria objecto de zombaria e desprezo.”
Cântico dos Cânticos 8:6,7
.......
"Eu sou para meu amado,  e seu ardente desejo o traz a mim. Vem, ó meu amado, saiamos ao campo, passemos as noites nas aldeias. Levantemo-nos cedo de manhã para ir às vinhas; vejamos se já florescem as vides, se se abre a flor, se já brotam as romeiras; dar-te-ei ali meu amor." Cântico dos Cânticos 7:11,13


15 julho 2010

Preâmbulo

Acordei e percebi de imediato, aliás soube, e nem sei de que forma, que estava um corpo morto debaixo do sofá do salão. O sofá era baixo e o corpo imenso – mas cabia por lá e, não sei explicar como foi ali parar.
Ignorei-o e sai, fechando a porta atrás de mim.
Havia uma barcaça que me levou até junto de ti, era comprida e estreita com tábuas pintadas de vermelho; os meus pés eram os remos que a faziam avançar, enquanto olhava a água esverdeada com limos no fundo. Lembro-me que havia um estranho aparelho metálico a brilhar por entre o marmoreado das ondas.
Cheguei à ilha vi-te perdido entre risos e gargalhadas, no entanto,  começo já  a ver a tua imagem a ficar cada vez mais difusa. Já nem sei se é miopia aquilo que não consigo ver.
Horas antes, tínhamos estado juntos e a sensação com que fiquei foi estranha, porque me lembro de dois fios de cristal que saiam de mim como se fossem gotas de chuva - finas varetas - congeladas num beiral. Por ti deslizaram os meus dedos e havia na ponta deles um pequeno lago seco que me fez lembrar uma pequena anémona morta na beira do mar.
Antes de sair de casa, coloquei o saca-rolhas no saco – estas tuas manias de queres desfrutar momentos fora de tempo, sempre me tiraram do sério! È por tua causa que os meus pés são remos, é por tua causa que aquele corpo jaz debaixo do sofá, escondido. Começo agora a intrigar-me...quem será que o matou?
O barulho da cachoeira está cada vez mais perto de mim, estou confusa; o inconsciente lança-me sinais que não consigo entender.
Afinal onde estás tu? Ando há uma eternidade à tua procura e só te encontrei no sonho – fazia tempo que não te tinha assim, mesmo sendo tu um pedaço de anémona.
O motor de rega deslocou-se do centro do relvado e bate inútil na parede. Mais desperdício, sempre o desperdício a rondar à minha volta.
Tão pouco posso ir fechar a água, como consequência serei inundada, arrastada pelo vale abaixo...lá onde não estás....

14 julho 2010

Gosto das palavras, e gosto sobretudo de as tocar.













A criação de Adão - Michelangelo Buonarroti , 1511
Decidi finalmente mudar as cores e os nomes . Doravante o céu será , todo ele, verde, matizado de cor de meloa madura.
O mar , não mais se chamará mar, porque não quero que se chame assim; será saudade em tons  lilás, com maresias imensas , enovelando-se  as rochas no seu perfume.
Gosto das palavras,  e,  gosto  sobretudo de as tocar. Hoje transformo a areia da saudade em mil grãos de sementes que germinarão quando o teu corpo, ardendo chegar à praia.
Plantarei um imenso laranjal na linha do horizonte, amarelo será o seu nome.
Vou aprender a perder-me em ti, ( tu que és eu) sem me importar , sem querer sentir que penso.
 Existo aqui e agora a olhar-te do alto da escarpa, ao longe voam  cem aves  ( demorei um dia inteiro a contá-las),que me trazem o canto das cotovias. Desejo  que a cotovia cante de dia.
Ontem o violinista partiu as cordas do arco, tal foi a paixão com que se entregou à sua musa .
E porque o violinista  transpirava,  havia  um cadinho feito de cristal que um homem estranhamente deformado, cego e surdo,  teimosamente  segurava- guardando-lhe  todas as gotículas de suor que lhe escorriam da fronte.
Veio pela manhã tocar-me à porta e ofertou-me o orvalho guardado no cadinho.
Logo mais , quando o verde do céu escurecer, passar de verde esmeralda a verde escuro, quando o  se transformar sob o  laranjal do horizonte, vou regar com esse orvalho um vaso de palavras por inventar .
Quando nascerem, transformarei  o que ainda resta do mundo, farei com que todos os dias haja cheiro de terra molhada e dos olhos das crianças brotem brilhos de hortenses acabadas de colher.
O hortelá, a alfazema  serão as páginas do meu livro de instruções. Passarei então a realizar o sonho e  não mais sonhar  a realidade irreal.
Houve um tempo em que a rosa, e o tempo que se lhe dedicava, fazia com que ela fosse importante. Hoje é tempo de podar o roseiral e limar os espinhos  que significam  as inúmeras feridas por cicatrizar. Nunca mais existirá uma única  rosa  sem aroma e com espinhos.
A eternidade não existe ! o Amor já sei o que é, ( e não devia chamar-se assim ) falta-me decorar o resto do sentido da Vida.
O Bernardo dizia que  a Decadência é a perda total da inconsciência; porque a inconsciência é o fundamento da vida. O coração , se pudesse pensar, pararia..........

12 julho 2010

Voo picado

Hoje ao ler-te   desejei ter asas. Voar mais alto que uma águia- real. Sinto-me imperfeita nesta minha condição de existir como ser humano. Não tenho asas, nem do tamanho das de uma andorinha . Não sei o que significa mas depreendo que não estou ainda pronta para partir. Só as andorinhas partem...
( Os meus braços não servem de nada...)


Estranha ironia esta, pudesse eu abdicar deste meu corpo e ser só alma. Ontem tudo me parecia estranho, eu já não queria habitar mais este planeta. Sei que é azul, pelo que dizem até consigo acreditar, mas os verdes que o matizam já não habitavam em mim. Tão pouco sei se quero habitar outros. Diz-se que existem outras galáxias, mas percepciono e entendo que não conheço uma ínfima parte desta.

Hoje sinto assim!

Amanhã , um amanhã feito de “hoje”, sentirei como? Voltarei a não querer ter asas?

Tenho medo de não saber voar. Um simples brevet custa caro, qual será o preço do meu?

E o preço de reaver a minha alma de volta? Mais caro será certamente, pagar um preço tão alto para ter um par de asas e elevar-me no espaço.

Agora se fosse águia mudaria de rumo, deixaria o alto das cercanias, os penedos isolados, as fragas aquecidas pelo sol e voaria....

Voaria por entre o azul e verde; por instantes não ter esta voz humana e soltar dentro de mim o grito que tu tão bem conheces.

Lá em baixo, um fino fio de fumo ergue-se....vertical....

Cheira a terra molhada pela chuva !
Consegues ouvir-me?

09 julho 2010

Thanatos II

O canto gregoriano ecoava através do mármore fendido pelos calores do incêndio que tinha quase destruído toda a igreja.

Próximo dali ouvia-se o tilintar de chaves, uma delas rodava na fechadura, cruzando-se este som com o sibilar discreto dos fiéis que vinham para a oração. M. sentou-se no banco de madeira corrido e ficou ali, parada, a olhar para a imagem de Cristo ressuscitado.
Suplicava com os olhos, mas a fé fugia-lhe a cada instante que passava; Não sabia porque tinha ali entrado, ocasionalmente fazia-o, sem saber qual o impulso que a levava ali.
Fora da igreja, fazia sentido entrar nela, mas passado que era o enorme portal, deixava de entender o porquê de lá estar.
Naquele dia, em vez de desfiar das contas do rosário por entre os dedos das mãos, M. desfiou outras contas, uma a uma, das mãos passaram para a boca...
Ao fim da tarde jazia inerte, de olhos fixos na imagem do Cristo Redentor.
Não sei se foi Deus ou o Diabo que a vieram buscar...

07 julho 2010

Thanatos













Egina andava cansada, cansada de tudo e de todos. Olhasse para onde olhasse, apenas via injustiças e, apesar de tudo,   tinha a pretensão de querer mudar os outros, o mundo ao seu redor. Sonhava tornar alguém feliz.
Anos e anos de um casamento desfeito tinham-lhe fragilizado a mente e o corpo. Esperava ela que,  saindo e cortando esse laço,   a sua vida melhorasse.
Foi o principio do fim, crónica de uma morte anunciada , bebendo gota a gota cada dia transformado em fel.
Doía-lhe dar-se sem sentido, sem retorno.
Via claramente que a sua abnegação e  o altruísmo com que se dava,  de nada serviam. Sentia-se  inútil.
Egina continuava sempre a persistir na busca da felicidade, todos os dias se propunha com firmeza, revestia-se de paciência; havia quem lhe dissesse que tinha um ar seráfico. Nem era nada  isso que ela pretendia!!
Bem no seu  íntimo nutria pequenos sentimentos de vingança, sempre que as coisas , as pessoas não se lhe apresentavam a jeito.
Legitimamente, pensava ela, sentia-se no direito de pedir alguns pequenos gestos de carinho e de afecto. Mas, à partida, eram-lhe linearmente recusados. Egoisticamente negados!
Egina passava fome, fome no corpo e fome na alma; havia dias em que comia apenas pão com manteiga e alguma água de  café para enganar uma das vozes que lhe roíam no corpo, Chegava à noite e bebia água, muita água ou , então mais uma chávena de café , uma espécie de mistela com açúcar sempre  era algo quente que metia na boca.
Evitava movimentar-se em demasia para que o apetite não lhe aparecesse de rompante e a fizesse cegar de desespero, tal as dores que lhe apertavam o estomago.
Já não chorava, de nada servia. Tinha perdido tudo na vida, apenas por ironia ainda conservava a vida que teimava em não a deixar. Olhava-se no espelho, e dentro dos seus olhos escuros como bréu, tinha deixado de se conhecer; dizia para si própria :- amanhã acabo com isto, escrevo uma carta e deixo as minhas ultimas instruções.
No dia seguinte novo alento que lhe servia de desculpa para mais um dia de tormento e que permitia viver mais umas horas. Eram ainda os três filhos que a impediam de se acabar por ali,  e a esperança que ele a olhasse de uma forma especial e entendesse que o drama maior  dela,  era ele mesmo. Chamava-se Narciso.
Narciso era um ser egocêntrico mas , em simultâneo encantador, manipulava a seu bel-prazer, servindo-se dos outros como e quando queria; mas de uma forma subtil. Era um sugador de energias! Das positivas claro está! Das outras não queria nem ouvir falar. Todos à sua volta tinham o dever de estarem  alegres, felizes e de bem com a vida. Se assim não fosse , de imediato se afastava, dizendo que não queria problemas – já tinha tido tantos na vida que se recusava a ter mais um, por mais ínfimo que fosse!
Optando por essa lógica, subtraia-se à vida , fugia dela , refugiava-se no seu castelo, algures no meio da serra e das fragas, pelas quais o vento passava ululante e o calor deixava secas; abriam estas,  grandes brechas quando a trovoada se abatia nos montes a perder de vista. Toda a vasta penedia era abalada como se um gigante a calcasse, acendendo um luzeiro imenso.
Na aldeia  consideravam-no um ser estranho, misógino. Altas horas da noite, já madrugada fora, observando o seu castelo, brilhava no escuro da noite uma luz no torreão, era Narciso acordado, rilhando as mágoas e ignorando a vida a passar entre as ameias.
Egina tinha consciência de tudo, sabia que ele era explorado pela criadagem, sabia como faziam pouco dele, apenas o serviam por interesse , tentando subtrair  tudo o que fosse possível, dando tão pouco ou quase nada em troca. Narciso pensava no futuro, em troca de algum pecúlio, tomariam conta dele. Como estava enganado! Os afectos não poderiam nunca ser comprados, apenas existiriam simulacros, gestos dissimulados e interesseiros de falsos sentimentos,  enquanto o dinheiro corresse pelas mãos untadas de uns tantos,  aparentemente servis.
E ela? Não ousava sequer apontar-lhe a crua verdade, com medo de o tornar  mais irascível, medo que se afastasse ainda mais e que cortasse o débil fio que os prendia ainda.
Calava-se e sofria.
Esgotava-se em si própria, sem força anímica para continuar, chegou um dia em que Egina desistiu da vida.
Na manhã seguinte, num banco de jardim, frente ao rio que corria sereno, um corpo esquelético e vazio jazia abandonado. Na mão segurava ainda um sobrescrito fechado, que dificilmente lhe conseguiram arrancar...
Histórias de vidas desperdiçadas, que nos levam a pensar que a vida é apenas e só uma, não temos o direito de a desperdiçar, mas arrogamo-nos no direito de acabar com ela...
Levei a vida inteira a recolher o testemunho de Egina. Aqui deixo à luz do dia o inicio do mistério que se encerrava no sobrescrito fechado, retirado das mãos crispadas pelo estertor da morte...


Na Grécia Antiga,  na  mitologia, entende-se que Tânatos (Thanatos), filho de  Nix (noite) e Érebro (escuridão do mundo inferior) era irmão gêmeo de Hípnos.
 
Thanatos era a personificação da morte, que nascido em 21 de agosto, tinha essa data como o dia preferido para arrebatar as vidas enquanto Hípnos era a personificação do sono.
 
Os irmãos gêmeos habitavam os Campos Elíseos (País de Hades, o lugar do mundo subterrâneo).
 
Segundo Homero, o deus Hipnos vivia em Lemmos e casou-se com Grácia Paitea que lhe fora concedida por Hera, em troca de seus serviços realizados. Hípinos era representado em foma humana e se transforma em ave antes de dormir. Também aparece representado na imagem de um jovem com asas que toca uma flauta cuja melodia faz os homens dormir e ao se locomover, deixa atrás de si, um rastro de névoa.
 
Thanatos era representado por uma nuvem prateada que arrebatava a vida dos mortais. Também foi representado por homem de cabelos e olhos prateados. Seu papel na mitologia grega é acompanhado por Hades, o deus do mundo inferior.
 
Thanatos é um personagem que aparece em inúmeros mitos e lendas, assim como a parece na história de Sísifo e do rei Midas, que por serem as mais importantes se dispersaram com maior facilidade.
 
THANATOS NA HISTÓRIA DE SÍSIFO
 
Uma grande ave sobrevoou os céus de Ephyra, uma cidade que veio a se chamar Corinto mais tarde. Depois de um mergulho vertiginoso a águia se foi levando em suas garras fortes, a jovem Egina.
 
Sísifo, o rei de Ephyra a reconheceu e interpretou a águia como mais uma das metamorfoses de Zeus, o deus dos deuses, que tinha por hábito transformar-se em animal para procriar com as mortais.
 
Asopo, o deus-rio, lhe perguntou sobre o destino que teria levado a filha e Sísifo, famoso por sua astúcia e maestria em truques, propôs ao velho deus-rio preocupado com sua filha, que lhe daria todas as informações, mas em troca, queria uma fonte de água na cidade de Ephyra.
 
Fecharam o acordo e depois de feito a fonte, que recebeu o nome de Pirene e foi consagrada às Musas, Sísifo lhe deu todas as informações sobre Egina.
 
Com isso Sísifo despertou o ódio de Zeus e Thanatos foi designado para levar o rei ao mundo dos mortos.
 
Sísifo com toda a sua maestria em truques elogiou Sísifo por sua irresistivel beleza, tocando-lhe todas as vaidades e ofertou-lhe um colar para enfeitar seu pescoço.
 
Depois de colocado o colar, este serviu a Sísifo como coleira com a qual aprisionou o jovem Thanatos.
 
Assim o grandioso rei Sísifo manteve a morte aprisionada, evitando que qualquer pessoa ou ser vivo viesse a morrer.
 
Não recebendo mais almas em seu reino, Hades, o deus dos mortos e Ares o deus das guerras que precisava da morte para findar as batalhas manifestaram-se quanto ao aprisionamento de Thanatos por um mortal.
 
Hades libertou Thanatos, ordenando-lhe que lhe trouxesse o rei Sísifo para o mundo  dos mortos.
 
Segundo a lenda, Sísifo morreu de velhice.
 
THANATOS NA HISTÓRIA DO REI MIDAS
 
O filho de Zeus, Dionísio (para os gregos) ou Baco (para os romanos), ao reaver Seleno, seu pai e mestre, que fora salvo por Midas depois de ter se perdido, concedeu-lhe um dom (que mais pode ser encarado com uma maldição), transformar em ouro tudo o que tocasse.
 
Midas já estava sendo levado por Thanatos (morrendo), quando o herói Héracles (Hércules) é recebido em seu palácio e expulsa o deus da morte para fora do castelo.
 
Opondo-se a Thanatos que representa a morte, o termo final da existênica de todos os mortais, aqueles que não escapam à sua visita cedo ou tarde, encontramos Eros, o deus do amor, que promove as paixões e provoca a vida.
 
Atualmente dá-se o nome de Tanatoloiga à ciencia se ocupa da morte e dos problemas médico-legal relacionados com a medicina legal.

30 junho 2010

Fantasias

















Hoje apeteceu-me escrever formas e conteúdos diferentes dos constantes aqui, contrariando bastante a orientação deste blog. Tem alturas que escrever poesia cansa, apenas porque a inspiração nem sempre me visita.
Enquanto tomava um duche que pensaria ser  rápido M.  confrontava-se com ideias contraditórias que lhe afluíam ao pensamento. Quase tantas quantas as gotas de água que lhe escorriam pela pele morena.          
      Deixou que o banho se prolongasse, e enquanto encostada ao painel de azulejos,   sentia  o jacto de água quente que lhe desenhava rios imensos a espraiarem-se pelo corpo. Não havia dúvida que o gel de banho e a sua mão faziam milagres, uma espécie de estranho exorcismo acalmavam-lhe os sentidos e preparavam-na para  a noite que parecia adivinhar-se  fascinante.
     De olhos fechados, tacteou a toalha felpuda e macia que lhe abraçou o corpo  quase por inteiro. Por breves segundos sentiu-se hesitante, não sabia o que fazer, seria capaz de arriscar jogar aquele estranho jogo, que há tanto tempo se arrastava? Olhou-se finalmente no espelho e perguntou em voz alta:
-         Quem és tu? Que queres fazer da tua vida? – dentro dela existiam agora duas vozes, uma delas desconhecida  por sinal.
-         Vai! Segue em frente! Estou cansada de te dizer que só “se perdem as que caiem no chão”!
-         Sim, mas essa frase, esse conceito é banal,  vulgar ! Tu sabes que não sou assim!.
-         Ora, não és, dizes tu! mas tens por vezes pensamentos que te impelem a isso !!
-         Não, não, sabes que não, sabes que no fim me arrependo e penso que é tempo perdido que me vou   conspurcando nesses momentos que , no fim me deixam vazia!
-         Olha !...faz como melhor entenderes, a decisão é tua, como é costuma dizer-se,  “quem faz a cama nela se deita”, é contigo, decide-te mulher!!! Já não me ouves mais hoje!
      Abri a porta do  armário branco da casa de banho,  retirei de dentro  as  poções mágicas, um creme de textura maravilhosa,  e , sobretudo aquele gel  malicieux do Thierry Mugler que me fazia crepitar, que me fazia despertar e insuflava ânimo para prosseguir.
      Vesti-me.
       Um vestido preto um nadinha acima da curva do joelho, todo ele em franjinhas que dançavam em redor de mim; meias pretas e cinto de ligas, sapato alto e nada de bijutarias, colares ou brincos - nada de brincos  porque nem as orelhas tenho furadas, um orgulho meu, sentir-me assim diferente de muitas mais – estranha moda essa de ter orifícios não naturais no corpo, como se fosse uma espécie de tribo africana .
      Gosto de coisas simples e discretas, um leve toque aqui e ali,  uma leve exuberância contida. O perfume sim! Algo que é importante, mas não mais do que eu por inteiro. Tal como a maquilhagem, sem ser montra ou cara de palhaço  – tanta mulher que não sabe aplicar uma sombra ou mesmo uma base. Enfim!
     Em mim levava apenas o vestido, nada mais do que isso; ah! E as meias pretas com costura atrás,  presas nas coxas com o tal cinto de ligas da Victoria’s Secret uma peça de lingerie fabulosa.
     Chamei o elevador, entrei, olhei-me ao espelho –  gostei de ver um inesperado brilho nos meus  olhos escuros. Algo enigmático, nem eu sabia o quanto.       Desconhecia-me por inteiro.
     E parti com destino ao desconhecido que me aguardava algures. Era uma noite cálida de verão que nos trouxe um ao outro para junto do rio, após um convite há tanto tempo sonhado. Trocámos o primeiro olhar e tu de imediato sorriste  desse jeito que só tu sabes, como menino travesso que olha de soslaio algo que lhe agrada e que não sabe se pode ter. Estremeci interiormente, um pouco insegura pelo inusitado da situação. Não sei se tomámos café ou chá, ou uma qualquer outra bebida, par ao caso é irrelevante.
     Lembro-me, isso sim,  que caminhámos juntos conversando sobre tudo e sobre nada. Toda eu, por inteiro, tomava consciência  do meu corpo, de cada centímetro de pele, de cada gesto, de cada olhar indirecto.
Vigiávamo-nos mutuamente, num jogo de rato e gato.
E o prémio éramos nós dois.  E sem saber de onde, nem quando, o beijo surgiu ali mesmo -  atrás de mim já não existia espaço para recuar - em pensamento rápido optei por  enfrentar e, em simultâneo entregar-me . Era aquele beijo com que eu sonhava, doce, misturado com o aroma da tua pele que  inebriava e me deixou anestesiada.
Dei por mim a sentir as tuas  mãos; mãos que subiam, mãos que exploravam num vaivém lento que contribuía para que a pulsação subisse de igual modo; as minhas coxas já não eram apenas parte de mim, eram o preâmbulo da loucura, num misto de boca e língua, ambos partimos à desfilada com um caudal que já não nos permitia parar mais. Algo mágico, uma espécie de botão , de interruptor tinha sido dedilhado, corda de viola, tecla de piano, ignição – a chave tinha sido descoberta.
A porta abriu-se e tu entraste devagarinho em mim - fui casa, fui abrigo fui movimento no espaço, foguetão, vai e vem cada vez mais frenético.
Juntos subimos todos os possíveis patamares,  olhando sempre  nos olhos um do outro. Demos as mãos e soltámos os corpos para além do rio, e fizemos do mar o êxtase e da areia da praia o descanso merecido.
À beira da  falésia, clareava o dia, o mar acordava preguiçoso;   do interior do carro vinha aquela música do Johnny Nash -   I can see clearly now..
Até hoje guardo esta memória, ou desejo de a concretizar, já nem sei bem !
Ficaste-me a dever a realização desta minha fantasia. Tantas vezes te pedi que fosse assim.
Talvez por isso te busque incessantemente, Quem sabe um dia eu saia de casa rumo ao desconhecido e te encontre algures.
Por agora....deixo apenas que a água me escorra pela pele morena. Quando sair do duche, vou espraiar-me nua no sofá à tua espera. Perder-me por aí... sem rumo.





29 junho 2010

Pulsar
















Nascem estes versos meus
Deste sentir tão profundo
Que transforma assim em dor
tudo que me chega do mundo.
E só sinto quando vivo
A dor que não quero sentir
Mas é neste caminhar
Que está todo o meu porvir.
E cismo, quieta, olhando
o vasto mundo em redor.
Ergo os olhos para o espaço
E nesta estranha empatia
Chega-me o pulsar das estrelas
Que traduzo para Poesia.

19 junho 2010
















A Morte é a única regra para a qual não existe excepção.
Saramago dizia que  a  nossa maior tragédia é não saber o que fazer com a vida.
Eis o exemplo de um homem Inteiro que cumpriu o seu designio, vivendo em plenitude todas as excepções que a Vida lhe concedeu - tornou-se assim num ser verdadeiramente  excepcional.
Soube parar o Tempo. "A vida é assim, faz-se muito de coisas que acabam, Também se faz de coisas que principiam, Nunca são as mesmas."
"Quero encontrar a ilha desconhecida, quero saber quem sou quando nela estiver." - Partiu em paz, submetendo-se  à única regra para a qual não existe excepção. Hora de chegada à ilha : 12:45 do dia 18 de Junho de 2010.

16 junho 2010

Palavras aos meus ouvidos.



















Ninfas e Sátiro - Adolphe William Bouguereau
Viveria eu eternamente
se te soubesse em mim
um corpo sempre presente.
Só para ti viveria
este tudo, e muito mais
nunca de ti ser ausente.
Toda eu me daria
inteira
ao que nunca mais virá
Estranho desígnio este
viver assim só
morrendo,
aceitar sem esperança
tudo aquilo que não entendo.
Ah! Se te pudesse acordar
com gestos simples, sentidos,
e olhasses para mim.
E se te visse a sorrir,
a murmurar de mansinho
palavras aos meu ouvidos.
Levantarias o véu,
a seguir confessarias
que no fundo deste abismo
encontrarias o céu.

14 junho 2010

Fomos tão poucas vezes Um...


Cortesia de  TerritorioScuola


Fomos tão poucas vezes um
Que me perdi a pensar
Que nunca soube contar
Quantas vezes fomos dois
E agora o que somos?
Vais-me dizer depois?
Diz-me, porque já não sei
A cada noite que passa
Espreito pela vidraça
Invento-te nos meus braços
Sozinha no meu regaço
Com as minhas mãos vazias
Cheias deste cansaço.
Fomos tão poucas vezes um
Que me perdi a pensar
Que me perdi a chorar
Vais-me dizer depois
O porquê deste compasso?

10 junho 2010

Quanto não daria eu...
















Giordano Luca: O Rapto da Europa
Os dedos escorrem lentos
Pela textura do corpo
Dunas imensas
Areal extenso, seco
Ardências febris
Sem tardes nem manhãs
Quanto não daria
Por uma chuva de mel
Noites de lascívia doce
Em que cada poro
Bebesse com avidez
O que vindo de ti fosse.

Tudo menos esse fel.

27 maio 2010

Do Blogue da Patricia - http://tita1989oliveira.blogspot.com/ - um textinho cheio de ternura sobre a minha "heroína fofinha!


"Hoje tinha que escrever, não por ti, mas em tua honra (pois sei que não és nada destas tretas lamechas =D) mas como eu comecei este blog numa de elogiar as coisas boas da minha vida, TU mereces estar aqui! Acompanhas-me no meu dia-a-dia, fazes papel de irmã, és o meu braço direito, a minha muleta ='DD que será da Patrícia de Oliveira sem a Inês Nunes de Oliveira?? Sim consigo viver sem ti, mas não quero =)
És das pessoas mais fortes que conheço e ver-te a fraquejar mexe comigo, não és desistente, nunca foste, és uma heroína fofinha!
Tem sido contigo que tenho aprendido muito, rido mais ainda e sorrido nem se fala =DD
Tens força, és linda fofinha!"

Senti-me mãe babada!!

26 maio 2010

Silêncio, solidão, tempo

Quantas vezes dizes ao silêncio
Que se cale?
Que não mais se faça ouvir
E que contigo fale
E que te faça sentir

Quantas vezes dizes à solidão
Que saia
Que não mais se faça sentir
E que te deixe fugir.

E ao Tempo?
Que te diz o Tempo a ti?
Que fujas com o silêncio
Com que me envolves a mim.

Tudo se gasta, mesmo a pedra
Só o silêncio não tem fim
Numa sempre eterna espera
Que tu olhes para mim

A solidão não tem fim
O pensamento também não
É como o infinito
Quando ergas os teus olhos
E deixas voar no tempo
E fazes das tuas mãos
Asas,
Que te libertam a voz
Que voa no firmamento

25 maio 2010

O Sonho

Algures numa vila perdida num país da velha Europa decorre a inauguração de uma capela tendo como padroeiro o mais recente santo, canonizado pela Santa Madre Igreja.
Foram meses de azáfama para preparar o espaço que em épocas remotas, entre outras utilizações, foi estúdio de revelação fotográfica, com as paredes impregnadas de substâncias tóxicas, que causaram a morte a vários empregados da família Abranches .Mortes misteriosas das quais nunca se conseguiu averiguar as causas,
Destinado que foi o espaço para fazer nascer a capela já em pleno séc.XXI, diziam os entendidos que só desta forma se poderiam apaziguar as forças do maligno que por toda a quinta se tinham espalhado.
Na vila, juntavam-se diariamente centenas de pessoas, confluíam dos mais variados pontos, para comercializar estranhos objectos servindo de móbil para o tráfico de passaportes e diamantes, já para não falar do tráfico de influências que se faziam dentro dos portões da quinta. A confusão era geral, mas havia sempre quem se orientasse em proveito próprio.
Após meses de carpintaria, pintura e retoques, foi chamado o Bispo para abençoar o espaço, congregando no pátio fronteiriço os fiéis que entoavam loas à Virgem; estes rezavam baixinho o Pai-Nosso, ao quatro pontos cardeais voltando-se sistematicamente, não para Meca, mas para trás e para os lados, para ver as modas, observar quem estava e subjacente a tudo isto um bixanar constante, quase que impedindo de ouvir o que o Bispo e seus acólitos diziam; o ar impregnado de Tabú e Chanel 5, as senhora nos mais ricos trajes domingueiros, não significando que fossem sempre de bom gosto, olhares finamente acutilantes para as vizinhas mais próximas(faziam lembrar o olhar de uma raposa), observando entre si quem era a mais bela do rebanho. Os cavalheiros cochichavam com voz baixa de matraca as últimas mudanças no regime que tardava em cair a muitos quilómetros dali.
No momento da benzedura, agitavam-se inquietos , como se incomodados com borrifos de água que se adivinhava fervente. O mal pairava no ar, a atmosfera estava pesada. Não obstante, a cerimónia continuou, algumas vezes interrompida pelo porteiro da quinta que se via aflito , em palpos de aranha para coordenar as viaturas que se queriam já estacionadas no interior da quinta e que tinham chegado fora de horas. Já não havia mais lugares, nem para uma carroça sequer, os burros já tinham entrado, acomodados nas cavalariças com a ração certa de palha, ruminavam na calmaria das grossas paredes de granito.
Depois da inauguração do oratório, seguiu-se o repasto, não gastronómico, mas um repasto de palavras que a todos foi servido; era um gáudio vê-los beber cada frase até à última letra, sempre de sorriso nos lábios, nunca perdendo a compostura, aguentaram firmes até ao fim da cerimónia. Se bem que eu conseguia vislumbrar alguns esgares de enjoo e quase vómito, derivados a tanta abundância de literacia que estava a ser servida. O discurso era fértil em adjectivos e também lugares comuns que acabavam em redundâncias.
A tarde chegou ao fim , deu lugar à noite e cada um, sentindo a seu modo, seguiu o seu caminho inchados de bem-estar e bençãos do santo padroeiro.
No dia seguinte, no pátio principal, a capela permanecia de portas abertas, com o santo padroeiro assistindo a uma estranha procissão , algures um alarido, que redundava em quase discussão. As gentes vizinhas ao saberem do oratório vieram visitar a quinta e deparavam-se com um insólito cenário: o ensaio de uma companhia de teatro africana que tinha sido construído com palmeiras e coqueiros em acrílico ocultavam a estátua do senhor de Abranches, ( antigo proprietário da quinta), que teimava em espreitar por de trás de uma longa folha verde e recortada! O batuque fazia-se ouvir, mas mais alto do que batuque, o sons nada distantes dos vendilhões de passaportes e diamantes ecoavam dentro do pátio principal; na minha memória ecoavam ainda os cânticos das Avé_Marias da véspera! Sentia-me tão confusa que já nem sabia de que terra era!!
Para meu espanto eis que surgiu de rompante um mercedes prateado, de alta cilindrada, conduzido por motorista, que avançou decidido , largando uma alta patente militar, neste caso um general de 5 estrelas, mesmo em frente ao oratório; e o senhor de Abranches querendo espreitar teimosamente entre o verde acrílico das palmeiras.
O batuque acelerou!! O general saiu do carro, espantado, não sabendo já muito bem se estava em África a entrar na sanzala do Gugunhana, a guerra parecia estar iminente, um calor sufocante fazia destilar os corpos. Acordei quase que sufocada, não sabendo muito bem distinguir a realidade da ficção. Fui espreitar o pátio.... e não é que as palmeira se o tambores estão espalhados pelo chão??! Do santo padroeiro não vi vestígios, acho que foi roubado durante a noite por uma qualquer seita praticante de magia negra.

17 maio 2010

Fantasias









Impression du Soleil Levant - 1873
(Museu Marmottan, Paris)
Quadro de Claude Monet que deu início ao
Movimento Impressionista

Para além da fantasia
Existem lagos azuis
Carregados de maresia
Minaretes a brilhar
Sempre que nasce o dia.
Cidades à beira-mar
Enluaradas de prata
Rios enevoados
A galgar o horizonte
Laranjais de sol poente
Brisas perdidas no monte
E no silêncio perfeito
O leve cantar da fonte
Que transbordando o negrume
Vai deitar-se no caminho
Desfolhando gota a gota
O teu suave perfume
O teu riso de menino.

12 maio 2010

Poetisas

Como pode alguém chamar
A este país, de Florbelas e Adílias?
Sem sequer saber sentir
Que nas nossas veias corre
Aroma de jasmins e buganvílias.
Sou passageira em viagem
Sempre em constante busca
Uma espécie de voragem
Uma estranha inquietação
Pouco me interessa quem chame
Se me sinto Gaspara Stampa
Irmanada na nudez e solidão.
Posso ser quem eu quiser
Fedra, Mariana ou só mulher
Auto-determinada para o Ser
Nesta errância da fatalidade.
Tenho assim por desígnio
Dolorosa e imensa tarefa,
Aperfeiçoar a arte de
Morrer Soror Saudade.
Não sem antes, ousar sonhar
Que sou Safo, que me corre
No corpo um frémito,
O coração bate apressado
Desfaleço e caio
E continuo a viagem
Sem ao fim ter já chegado.
Ah Soror Saudade,
Soror das Mágoas
Neste país a quem chamam
Das Adílias e Florbelas
Soubessem amá-las
E seria sim um jardim
À beira mar plantado.
Cheio das flores mais belas!