28 fevereiro 2011

Poetas


















 Óleo sobre tela : Rapariga à janela , Iman Maleki*Havia um poeta na minha rua 
Por quem  me apaixonei
Todos os dias passava
Ao lado da  janela
Esperando que notasse
Que eu seria aquela
para quem ele escreveria
Mas o poeta  tinha olhos
Para quem o não  queria
Assim  era  um poeta
Porque também ele assim sofria
Como eu sinto por quem sente
E tem a alma vazia
E procura preenchê-la
A escrever poesia.

*Iman Maleki (Teerão, 1976 - ) é um pintor iraniano do hiper-realismo.
Desde pequeno sentiu a vocação para a pintura; graduou-se na Universidade de Arte de TeerãoMorteza Katouzian, aperfeiçoando uma minuciosa técnica de realismo quase fotográfico. Foi galardoado com o prémio William Bouguereau e o “Chairman’s Choice” na II Competição Internacional do Art Renewal Center. como desenhador e estudou com o melhor pintor hiper-realista do Irão,
Pintor neo-clássico, considerado pupilo de Sir Lawrence Alma Tadema. Gozou de muita popularidade, mas seu estilo resultou-se superado, quando do surgimento de novos estilos pictóricos, principalmente o do pintor espanhol Picasso. Adepto da pintura de Frederick Leighton, mas seu estilo era mais próximo do de Alma-Tadema, com quem compartilhava uma forte paixão pela arquitetura clássica. Expôs na Royal Academy em 1887.
Sua família desaprovava sua carreira e,em 1912, ao mudar-se para a Itália com uma de suas modelos, rompeu qualquer tipo de contato com ele. Retornou à Inglaterra em 1919, ali permanecendo até sua morte, por suicídio (asfixia por gás), em 1922. Envergonhada, sua família, acabou queimando seus documentos e fotos. Não se tem conhecimento de ter restado alguma.
Fonte : Wikipédia

24 fevereiro 2011

Vogais e Consoantes


A origem da Via Láctea - Tintoretto
Escrevo para apontar palavras
Como quem aponta uma arma
E digo ao horizonte
Que levante o céu sobre os seus ombros
Como se o jugo mais leve fosse
Aponto baionetas ao sol e transformo-o
Em negrume azulado, para lá dos sete sóis
De opaca clarividência
Para que   possa ver a luz da lua reflectida
No  frio aço estilhaçado.
Com  palavras já construi um foguetão
Pela via láctea  procuro  um poeta
Senhor de impérios  de fogo
E  de vogais incendiadas em espasmos
e consoantes sonâmbulas.


Louco é o  poeta que vê
Para lá  do que não é visível
Que sente exacerbado
A alma a arder no corpo
E a vida inteira suspensa.







22 fevereiro 2011

A semente da Poesia


Há em mim  um profundo silêncio
Um segredo não revelado
Uma poesia oculta
um fruto desconhecido
um fim de tarde esperado
um poema não gerado
Quando te senti entrar
Soube-me quase a destino
Impaciente e revolto
Com secreta voz
Me olhaste
E sem conseguires ver
A semente que geraste
de onde nasceu a poesia
Filha deste cruzar
a tristeza e alegria
E eu morro aqui
A olhar os barcos
A imaginar que ainda é
A tarde em que tu chegaste.
Pela mão levo comigo
Essa mão tão pequenina
Que quando me toca assim
Faz das palavras  rima.

21 fevereiro 2011

Tédio



Leda e o Cisne - Tintoretto

Quantas mais vezes terei eu ainda
De desejar-te
E desejar não ter desejo?
Quantas vezes te olharei ainda
Com olhar de volúpia castrada
Não conseguir nunca
Realizar este ensejo?
Quantas esperas faço
De mágicas centelhas sem lampejo?
Já não ouso sequer tocar-te
Tanto o medo que me invade
E chamo-me a cada vez que passa
De inútil mente e cobarde.
Os meus olhos descem sobre ti,
Como aves de rapina
Abutres em espera divina
Olhando famintos
Esses rios azulados
Que correm nas tuas mãos
Sonham carícias de serpente
E o teu olhar feito de névoa encoberta
Esse está sempre presente!
Para não falar no silêncio bizarro
Das minhas noites em branco
É que já se me secou
No leito da lua cheia
Toda a fala, todo o pranto.
E o tédio avança
Com seu manto, cobre-me o corpo
Inteiro,
Como se fosse um quebranto.
Ai quem me dera poder descansar
Pousar a cabeça e não mais pensar
Que estou eternamente proibida
De te poder amar.

Verde e Azul



Pintura de Winslow Homer
Existe um oceano verde para lá da janela aberta, confunde-se em momentos de sonho com esse mar que tanto quero. Por cima das árvores vestidas de verde voam pombas brancas, pedaços de ondas, espuma que se solta no ar e refrigera.
Quando abro as vidraças, pela manhã, guilhotinadas por pedaços de madeira em rigorosa esquadria, deparo com bagas vermelhas alcandoradas nos galhos, pasto e repasto dos melros que se banqueteiam impunes. Atordoados esvoaçam ao mínimo sinal de alarme. Cruzam-se no ar com outros emissários marítimos, porte maior, asas abertas em cruz, lançando gritos que transportam consigo para lá da beira terra.
Revejo o verde esmeralda, horizonte das tardes sedentas em que os corpos seminus buscavam entre si o êxtase por sobre a rocha vulcânica. Não sei que formas se contemplaram, não sei que escuridão desceu ali; momentos abissais , palavras que desceram com a espuma enrolada no imenso e vertiginoso azul do mar. E por lá ficaram nos negros vales submarinos.
Soltas no areal cascos de embarcações perdidas no silêncio, arrebatadas ao sonho azul que nunca chegou a voar em nós.

18 fevereiro 2011

Sobre o Mar


Quadro do pintor romântico, Joseph Mallord William Turner, nasceu em Londres, 23 de abril de 1775. Precoce, Turner, com apenas 10 anos de idade, tinha um talento que impressionava. Turner gostava de pintar paisagens, principalmente, o mar (pier, Marinas, cais), rios, cachoeiras e abismos.

Hoje conto-te daquele mar que trás em si
Todas as sombras do mundo.
Cachos de azul profundo


Que nascem e morrem
No leve arco das ondas
São mil volutas, que num instante
Se detêm leves e airosas
Irrompem em cataclismos
Tragando para dentro de si tantas bocas queixosas
Consegue este mar beijar o céu, baixo e enegrecido
Arranca o sol do horizonte
Apaga-lhe o braseiro e leva-o
Para dentro desse imenso azul enraivecido
Com dentes de branca espuma cinzelados
Há uma caravela à deriva
Existem bosques de navios encantados
Misterioso triângulo que nos rouba
O sono, a vida e nos trás amaldiçoados.
O meu nome é azul, azul do mar a bramir
O verde na escuridão, negro verde sempre a pedir
que mergulhes no mar que trás em si todas as sombras.
Mergulha e sente devagar, nunca percas a consciência
De que nunca será nosso o mar.

17 fevereiro 2011

Musas

A Musa Euterpe 1752-Francois Boucher

Porque é que só me chamam Musa
E me condenam a não ser apenas mulher?
Porque fico eu aqui sozinha, entronizada
Como se fosse uma santa de um altar qualquer?

Foi Deus ou o Diabo que me condenou
A ser a mais solitária das mulheres
A resignar-me sem sentir, sem saber
Onde está aquele que me amou?

Porque me falas tu dela sempre?
Porque está o retrato dela
Tão vivo na memória , tão presente?

Estarei condenada assim eternamente?
Já me chamam Dona Musa por aí
Que condão tenho eu, que desconheço
A minha vida é uma viagem sem regresso?
Espécie de ampulheta sempre a inverter
A areia que conta as horas que padeço?

Ah , não me chames Musa, chama-me antes mulher
E leva-me para a tua cama, enrolar os lençóis de linho
Não me peças para os fiar, pede-me antes para neles
O teu corpo poder beijar.

15 fevereiro 2011

Resposta a um comentário anónimo e cobarde

A poesia não precisa de rimar para fazer sentido.
Viver só sente quem não despreza o ter vivido
Pois para aqueles que não vivem e nada sentem
É como se a vida nunca tivesse acontecido.

Moleza de espírito impressionante
“Inofensividade” que revela
Torna-se assim irritante
Quem opina, ele ou ela….
E plena de brutalidade sim,
Quem só reconhecer sabe
O brutal que é não saber
Um factor in-ofensivo
A mim não ofende quem quer.
Quanto à falta de moralidade
Conceito abstracto pelo meio
Volto a escrever só não sente
Quem da vida tem receio.
Quanto aos poemas omissos
Cada um vê o que quer
Lê e retira ilações
Eu apenas escrevo de acordo
Com as minhas disposições.
Sou livre de ir e vir, sou como uma pena ao vento
Se choro , rio ou sorrio,
Se faço da poesia passatempo
É comigo, e só comigo
E penas volto a dizer,
leva-as o vento também
Tal como as palavras vãs, ocas e desprovidas
De qualquer forma de sentir
Cada um faça o que quer
Dono do seu porvir.
"- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe"

A propósito de ter citado José Régio: aí vai...o Cântico Negro


Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,E nunca vou por ali...


A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...


Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...


Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...


Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.


Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!


José Régio in Poemas de Deus e do Diabo

13 fevereiro 2011

Caudal


Joseph Mallord William Turner (Londres, 23 de Abril de 1775 - Chelsea, 19 de Dezembro de 1851)
E lá está outra vez a folha branca
A desafiar esta raiva
Que brota rude no leito
grito rouco na garganta
Que sufoca e sai estreito
Este caudal de solidão
Esta forma de ser louca
A que sempre me sujeito.
As palavras ficam presas
E não me saem da boca
Tão cheias de incertezas
morrem dentro do peito.
E fico-me assim a olhar-te
No silêncio destas frases
A sentir o impossível
A imaginar o tudo
O que seríamos capazes
E não fomos nunca,
Tu não foste , e eu não sou
Estas palavras já gastas
A que eu tinha direito
E que o tempo já levou.
Resta-me a noite escura
Com aquela luz ao fundo
Que me está sempre a chamar
De segundo a segundo.
Um dia vou, juro que parto.
Para me poder libertar.

06 fevereiro 2011

Maresias a solo


Agora sim que é noite escura
Quase uma madrugada pura
Feita de silêncio e calma
E me tenho só para mim
Tendo-te a ti a sonhar,
Agora sim.
Que é negro e denso o meu olhar
Feito do desejo a nascer azul
Para que possas tu
Deslizar nas marés imensas
Quando o meu corpo se transforma
Em todas as coisas intensas
Feitas de espuma e corais
longínquos mares do sul.
Agora que te espero aqui
Invento-te sonhando
Mansamente , enquanto
correm as águas fundas
Na praia desta memória.
Onde as ondas te trazem para mim
E de novo tu me voltas a habitar
És maré, barco, avião, e vens sempre
De mansinho, esse sorriso de menino
Enlaças-me devagar
E dizes-me em tom baixinho
Maria, anda ver o mar…

05 fevereiro 2011

Convite...

Por falta de tempo , não coloco aqui, agora, qualquer texto de minha autoria,mas urgia no meu espírito poder comunicar algo, ainda que através do Mestre Almada Negreiros que muito aprecio.
Deixo-lhe a ele o Mestre a tarefa de me fazer chegar através deste convite.
A Taça de Chá

O luar desmaiava mais ainda uma máscara caída nas esteiras bordadas. E os bambus ao vento e os crisântemos nos jardins e as garças no tanque, gemiam com ele a avinharem-lhe o fim. Em roda tombavam-se adormecidos os ídolos coloridos e os dragões alados. E a gueixa, porcelana transparente como a casca de um ovo da Ibis, enrodilhou-se num labirinto que nem os dragões dos deuses em dias de lágrimas. E os seus olhos rasgados, pérolas de Nankim a desmaiar-se em agua, confundiam-se cintilantes no luzidio das porcelanas.

Ele, num gesto ultimo, fechou-lhe os lábios co'as pontas dos dedos, e disse a finar-se:--Chorar não é remédio; só te peço que não me atraiçoes enquanto o meu corpo for quente. Deitou a cabeça nas esteiras e ficou. E Ela, num grito de garça, ergueu alto os braços a pedir o Céu para Ele, e a saltitar foi pelos jardins a sacudir as mãos, que todos os que passavam olharam para Ela.

Pela manhã vinham os vizinhos em bicos dos pés espreitar por entre os bambus, e todos viram acocorada a gueixa abanando o morto com um leque de marfim.


Almada Negreiros, in 'Frisos - Revista Orpheu nº1'

04 fevereiro 2011

Pausa II


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A Praia do Paraíso



Abro-te assim por entre as mãos
És areia da praia, molhada
Esboroando-se o castelo
feito à tarde, sonho de criança
que por ali passou,
adormeceu cansada.
Diz-me que foi mentira
A eternidade que guardo dentro de mim
Em antevisão tenho o tempo
De todas as coisas presentes
O devaneio enrolado na onda
Espécie de enleio
Que me faz descer
Ao fundo do abismo fervente
Um Turbilhão em trajecto
Em tons de verde, azul e sal
Arrastando-se no delírio
Na lonjura do areal.
Invoco sombras interiores
Para as confrontar
Se no fundo dos teus olhos
Ainda existe aquele mar.

27 janeiro 2011

A Poesia



Stella Bianco - “Menina de vestido rosa” - Óleo sobre tela.
A poesia não têm coerência
É impaciente.
È uma espécie de fogo fátuo
Que aparece à gente.
A poesia é filha da revolta
Tendo por madrasta a mágoa
Não se lhe conhece o pai
Criatura detestável.
A poesia despreza
Tudo o que não é belo
E consegue por si só
Fazer da maldição
O prelo
Plano liso, mármore
Onde se coloca a composição
Que a poesia dá à luz
Fruto da solidão.
Mas não queiram ser poetas
Esses seres tão singulares
Heróis de quimeras perdidas
Em busca dos sete mares
Das mais estranhas alegorias.
A poesia têm um preço
Mil anos de solidão
E sempre a alma a pairar
Pelo vazio dos dias
E pela negra escuridão
E dói, sabiam?
É como espinho cravado
Sem o poder arrancar
E a poesia é de quem
Sempre soube o que era Amar.

Tu que foges das emoções,
Dos sentimentos mais nobres
Que jogas nas palavras
As acções já de si pobres
Não ouses pensar sequer
Que vais a algum lado
O futuro te condena
A seres alguém sem passado.

E porque um povo,
Uma casa, uma pessoa
Que não saiba respeitar
E enterrar o passado
Nunca terá futuro
E viverá amargurado.


Deixa a poesia voar
Entrar livre pela janela
Faz da poesia o teu sol
Pinta a vida da cor dela.

Sorri, mesmo que chores
E que a tua alma seja
Um pedaço de cristal
Partido em mil pedaços
Abraça a poesia e diz-lhe
És a musa dos meus espaços.

* "Quando o real é incapaz de valer como tal, torna-se necessário desdobrá-lo num segundo sentido, para impedir a sua dispersão". escreveu Starobinski a propósito de Baudelaire

25 janeiro 2011

Alma ao Vento


Vincent van Gogh

Hoje sou a cidade inteira
Possuída por mil criaturas
Esventrada em passo lento
Praças abertas ao Tempo
Onde se cruzam amantes
E nos caminhos sombrios
Luz da lua aprisionada
Libertam-se os lamentos
De uma moura encantada.
Arvorada lá no alto
Ondula a minha alma ao vento
No torreão cimeiro
Da cidade em movimento
E em cada colina verde
Pontilhada de azul
Avista-se o rio imenso
A dirigir-se ao sul
Leva saudades minhas
A transpor a claridade
Brancas velas que flutuam
E partem para a eternidade


24 janeiro 2011

Diabólico


Dido observando Eneias a partir, Pintura a óleo de autor desconhecido
Descubro afinal que nada tenho de meu
A não ser esta dor fina que me faz sentir viva
Esta estranha louca à deriva
Este não meu sentir o teu
E depois?
Depois sonho ainda, com o gosto da tua boca
Em passo lento sonho
O toque da tua mão
Que me faz soltar a voz rouca
em momento de paixão
E semicerro o olhar, já de si tão quebrantado
Senhora sou de destinos vácuos
Simulacros
Corcéis alados
Anjos diabólicos.
Pactos escaldantes
Sinos, campainhas
Estas vozes rutilantes
Eternos peregrinos
Loucos amantes

21 janeiro 2011

O Grito


Munch - The day after : Exibido  no Museu Nacional da Noruega, em Oslo,  óleo sobre tela feito em 1894-95.

Ficaste assim adormecido
Em negro silêncio
Fundo animal ainda a palpitar
Enquanto o meu corpo descansa
Desse imenso velejar

Deitaste à terra a semente
E por lá ficou a germinar
Aninhou-se no casulo
De mil fios a tecer
Num vai e vêm sem parar
Acabou por perecer
Não sem antes ter gritado
Não sem antes ter vibrado
Erguendo as mãos para o céu
Para finalmente acabar
Num espasmo cor de bréu.

18 janeiro 2011

Tempestade

Sempre presente esta dor
insólita mistura ondulante
recordação poente
Misto de prazer evocado
em corpo perdido de amante

Um latejar latente
Uma solidão que invade
Na linha do horizonte
Avança sobre mim como a noite
Cai sobre o vasto poente
E não há estrela a brilhar
Que consiga por um instante
Essa memória apagar.
Obsessão surda que me possuí
Sem saber para onde ir.
Espero dia após dia
Que o tempo apague e me cale
Este delirio febril.
São assim as minhas noites
Toldadas e decadentes
Braseiro a arder na bruma
Ondas e ondas ao longe
vagas de mar sem espuma.

O Desejo

Abel-Dominique Boyé - 1864
Há uma outra em ti que te viveu,
Que te consome ainda,
Que te ocupa cada espaço,
Cada pedaço de existência
Que te deixou nostalgia, amarga
recordação,
Que secou no teu peito
O bater do coração.
Que ciúmes sinto eu, dessa outra
com quem viveste as noites quentes
de verão, o riso do sol a bater na vidraça
A luz do luar a bater no chão.
Esse chão onde se amaram em momentos infinitos
Sempre e até à exaustão.
Agora resta-me esta garra de águia presa na garganta
A sufocar-me , a calar-me, e a dizer-me não!
Já não há sorrisos no olhar,
A cidade já não canta
E o teu perfume está distante
Já nem o posso cheirar, proibida como estou
De assim te poder amar.

Faz-me tanta impressão olhar para aquele retrato
E ver-te aprisionado às memórias do que foste
Aprisionado de facto.
Que será feito de ti? Onde te escondes agora?
Atrás desse vidro frio que guarda vigilante
As memórias de outrora?
Deixa-me tocar-te um pouco, apaziguar o desejo
Quebrar essa moldura, rasgá-la em mil pedaços
Mandá-la prá sepultura,
É lá que ela deve estar, onde estão as coisas mortas.
Sai da fotografia e vive, antes que seja tarde,
e a morte nos abra a porta.
Há em mim ainda um leve restolhar de natureza
Uma espécie de terra molhada e ardente
Coberta de folhas de Outono
À espera da Primavera para fecundar a semente
Um chão sagrado pela dor
Um campo imenso a perder de vista,
Lá longe no horizonte estás tu e ela...
Sempre ela a chamar por ti
E tu a peregrinares, sozinho pela terra imensa
À procura do que foste, corcel em trote
à desfilada, na procura, do corpo dela
Dedos de veludo ânsia de doce desvario,
E eu adivinho, quase que pressinto
Nas tuas mãos que me acenam de longe,
Um triste fim de silêncio e frio.

08 janeiro 2011

Violões e cordas de ouro e guitarrinhas de prata

"A Tocadora de Alaúde", obra barroca pintada a óleo pelo italiano Orazio Gentileschi (1563 - 1639)


Enlaça-me com a corda do violino,
dá a volta e faz um nó
Um nó cego sem ter volta
Arrasta-me pelo chão,
Num apertar convulsivo
Toca-me, faz-me subir
Nesse teu tom compassivo
Rasga-me o peito com o arco
Como se de uma seta acutilante
Fino ariel, estilete
Me deixasse suplicante
E volta, uma vez mais e outra
E ainda e só mais uma volta
Sobram só mais duas cordas
Que cruzadas no meu peito
Fazem do meu coração
Um boomerang perfeito
Atira-o para bem longe
Que não volte nunca mais
Ao solitário leito.

Pausa


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05 janeiro 2011

Fadário -


Deixei-te à pouco, entre fios delgados de saudade, à mistura com a chuva
A única que me toca com piedade.
Entre mim e aquele sem-abrigo ali deitado, na escadaria esfarrapado,
pouca diferença haverá, ambos perdemos a alma , ambos a viver a vida
Por detrás do arame farpado.
Que perdoem os que  estiveram lá,  no campo de concentração,
Algures um qualquer sitio degredado
Há por detrás das grades muito mais ânsia de liberdade quando o espírito voa
Mesmo desalmado
Do que estando eu em campo livre, aberto, cheio de sol ou luar,
Mas não conseguindo despir  esta tristeza que me aprisiona
E me conduz a este fado, a este meu infinito pesar.

31 dezembro 2010

Homem do Leme - Xutos e Pontapés


http://olhares.aeiou.pt/st_foto3090447.html

Sozinho na noite
um barco ruma para onde vai.
Uma luz no escuro brilha a direito
ofusca as demais.

E mais que uma onda, mais que uma maré...
Tentaram prendê-lo impor-lhe uma fé...
Mas, vogando à vontade, rompendo a saudade,
vai quem já nada teme, vai o homem do leme...

E uma vontade de rir nasce do fundo do ser.
E uma vontade de ir, correr o mundo e partir,
a vida é sempre a perder...

No fundo do mar
jazem os outros, os que lá ficaram.
Em dias cinzentos
descanso eterno lá encontraram.

E mais que uma onda, mais que uma maré...
Tentaram prendê-lo, impor-lhe uma fé...
Mas, vogando à vontade, rompendo a saudade,
vai quem já nada teme, vai o homem do leme...

E uma vontade de rir nasce do fundo do ser.
E uma vontade de ir, correr o mundo e partir,
a vida é sempre a perder...

No fundo horizonte
sopra o murmúrio para onde vai.
No fundo do tempo
foge o futuro, é tarde demais...

E uma vontade de rir nasce do fundo do ser.
E uma vontade de ir, correr o mundo e partir,
a vida é sempre a perder...

16 dezembro 2010

O nome das palavras

        
   








A Criação do Mundo - Michelangelo
No inicio, ou deveria dizer no principio, ( e porque nem todos os princípios são inicios) deram-me um nome estranho, não sabia eu naquela altura o que significava ter nome, fui aprendendo ao longo da vida , primeiro as letras e, depois sim, eis que um dia dei por mim a escrever o meu nome. Então sonhei!
       Foi aí que aprendi de facto a sonhar. Estava orgulhosa do meu nome, e muito mais do que isso, orgulhosa de  saber e poder escrever o nome de todas as coisas e de todas as pessoas.
      Imaginei assim um universo justo, onde tudo era realmente o que parecia. Nada como a mulher de César, que  na altura nem conhecia. Hoje continuo a não saber quem verdadeiramente  foi Pompeia Sula, não só porque já partiu, passou a fronteira para um outro espaço , sei lá eu bem onde , quimera, ilusão, oceano de infinitas finitudes. Sei apenas que se deveria sentia sozinha.  Mas agora  não me interessa nada disso! Tantos outros depois dela já partiram, e falta muito pouco para também eu deixar este lugar onde aprendi a escrever  o meu nome. Tenho cá uma ideia que, possivelmente,  até irei conhecer a mulher de César e outras mais que aguardam por mim.
      Encontrei na poesia a nascente de uma água cristalina, rio de palavras a escoarem-se em tumulto, chegando  doridas à foz; muitos  de vós poderão nunca entender, isto apesar de saberem ler e escrever os vossos nomes. Nunca me compreenderão, porque não basta saber escrever, é preciso sentir também o que se escreve, e é só sentindo através das palavras que nos escorrem lestas da mão que conseguireis provar ao mundo o facto de estardes  vivos, que não morrestes ainda. Muitos dir-me-ão que não precisam de provar nada ao mundo! Mentira! – respondo eu irada - sabendo que todos nós precisamos de provar, quanto mais não seja que estamos vivos. E não me venham dizer que só têm de provar a vós próprios o motivo da vossa existência. Isolados e sós dos outros nenhum de nós existe ! Fenecemos qual vegetal  na horta, sem o precioso líquido que nos encharca as raízes e alimenta o caule.
      Outros há, que nasceram e foram morrendo devagar, aos poucos, com um travo amargo a escorrer pelas comissuras dos lábios. Acontece a esses tais que produzem uma escrita surda, oca, desprovida de recheio. Não escrevo para carpir mágoas, escrevo porque aprendi no meu nome o sabor de uma causa maior, provar a mim mesma que afinal o Amor também pode existir a partir de  mim  só - sem a necessidade premente de correspondência.
     Um segredo compartilhado : - Amar é na sua essência querer o bem –estar do Outro, ainda que dentro de nós o caos se instale como se  um furacão  invadisse amiúde, é  no entanto, a oportunidade suprema de nos superarmos a nós próprios e de honrarmos o nome que aprendemos cedo a escrever.
Quando cada um de nós  se supera a si próprio consegue atingir desígnios divinos, homenageando o principio do Verbo.

14 dezembro 2010

V Império



Ousei sonhar-te um dia
D.Sebastião envolto em bruma
Mal sabia eu , que não mais
Sairias  da penumbra!
Por mais interstícios de sol
Que no arrabalde doirem
Os cachos de uvas negras
Transformando-as em néctar
Nunca  ó rei poderás substituir
Esse calor , espécie de alquimia
Que a tudo empresta a cor
O mel e o poder  esvair-se
Bago a bago
Nesta dor.

Quem ousou cometer tamanho crime
De te esconder de ti
Como não arranjaste  caminho
Para poderes chegar aqui?
Chamar-te-ás Sebastião, outro
nome , todos os nomes
Que caibam neste canto
Reino da saudade
quinto do Império
Que virá um dia
Em glória
Erguer da bruma
Os que se foram libertando
De todos os impérios
Terrenos, imperiosos
No sentir das gentes
Que sol a sol
Ousaram porfiar
Cegaram um dia
De olhos postos no mar
Ainda hoje lá estão
Transmutados no velho
do Restelo guardando a entrada da barra
qual comandante na proa
qual tocador com mestria
nas cordas de uma guitarra
que vai tangendo na dor
profecias de Bandarra!







12 dezembro 2010

Dança - Berlioz


Espécie de vendaval, esta ária
Que me cerca, que me envolve
Num trote rápido,  certeiro
Dispara as semi-colcheias
Com mestria de arqueiro.
Lá do escuro correm céleres
Em catadupa assertiva
O mi , o sol e o dó
Em escala repetitiva
É desfile, tropel
Folhas em furacão
Vem o maestro e acena
Joga as folhas no chão
Tubas! Clarins
Rufam ainda os tambores
Ouve-se a vassourinha
A varrer os seus amores
Ritmo, pausa, silêncio
Ratatatata, tão tão
Partitura a voar
Semi-colcheias no chão.
De novo eis que se solta
Lá do fundo um passo leve
Primeiro um, depois outro
Sapatilha de cetim, enlaçada
Na passada, tábua corrida
Pax-de-deux
bailarina
em passo de  bela-adormecida.
Mas onde estará o príncipe?
Vamos todas procurar, ali na densa floresta
onde as feras nos espreitam, corram meninas
corram, ao som deste cavalgar
lá vêm a fada madrinha
a todas nos irá salvar.
Cuidado com o lobo mau
e todo o seu salivar
dentes de frio marmore
que nos querem trucidar
e o som....oiçam....
lá do cimo, céu azul...
a corda do violino
a enviar o sinal
rasgam-se os horizontes
e da cortina de núvens
em salto descomunal
Vem o rei do reino perdido
montado no seu cavalo
ao fundo ouve-se um bramido
O Bem a vencer o Mal .










10 dezembro 2010

Ausências

O Beijo”, do austríaco Gustav Klimt
Tenho ficado à espera
Daquele teu beijo
Que não veio.
Já cansada das ruas
Das casas vazias
Cansada dos motivos
Sem razão aparente
Sempre a continuar
E desde ontem que
Estou assim cheia
Deste vazio
Acalentei-o tão doce
A pensar no beijo
Sei lá , fosse como fosse!
Não chegou a vir.
E porque há coisas
Que os outros não sabem,
Nem ousam saber
Ignoram apenas
Todo este querer.
E fiquei à espera
Olhando o caminho
Ainda a percorrer.
Quem me dera que fosse
Sei lá, como é !
Andam para aí a dizer
Que o caminho se faz
Caminhando,
Mas quem não têm pernas
Como faz para andar?
E quem não têm boca?
Como vai beijar?
Todo este caminho
E ainda falta tanto
tempo, espaço
A preencher
Vida para trilhar.
Tenho ficado à espera
Daquele teu beijo
Que não veio.
Sobra o cansaço
Esta ausência imensa
Do não partilhar.
E quem não tem boca?
Como vai beijar?



17 novembro 2010

Outono

Rolos de folhas caídas
Secas, velhas, esquecidas
Entrincheiram o asfalto
A terra deste passeio
Onde adormecem sós
Os que ficaram no meio
Da tempestade passada
Do rasto da noite escura
À espera da madrugada
Do som da cotovia
Do cantar da alma
Encantada
Do canto da moura perdida
E no banco do jardim
Aquele ali solitário
Que espera um dia a visita
De um pássaro ensolarado
Que pouse, que descanse
Do seu voar fatigado.

Ana,
Vou voltando, devagar, conforme me dói cá dentro onde um estranho designio que me causa este sofrimento.
Alguém um dia me tocou e me deixou assim, neste sentir sem sentir, a esperar da vida a morte que  tarda em vir.
Talvez aí eu encontre a paz que há muito tempo perdi, talvez na morte encontre a vida que na vida não vivi.

09 novembro 2010

Pausa


Tenho mantido algum silêncio, pelo tempo exaustivo de trabalho que me desgasta, e também pelo tempo de reflexão que me acompanha.

Este blogue começou por ser uma 'folha de afectos'... marcas profundas de sentires e sentimentos que me doíam e me asfixiavam.

Assim, mesmo sem eu querer, tornou-se um lugar de culto. Aqui escrevi em noites tantas vezes do amanhecer, fragmentos de muito de mim... alegrias, tristezas, saudade, morte, prazeres estéticos, e tantos outros aspectos de que me rodeio nas noites de invernia ou de outono, como esta de luar escondido a anunciar que os tempos de bruma se aproximam.

Vários ciclos de vida se fecharam ao longo destes anos. Alguns aceitei ou optei por fechá-los... outros se fecharam abruptamente, deixando marcas de mágoas no meu âmago que necessito 'curar' ou apenas 'fingir' que esqueço!

Não vou dizer que termino por aqui... para depois voltar! Tenho visto isso e não quereria deixar passar uma falsa mensagem!

Prefiro dizer que não sei... com fortes probabilidades de não voltar.

Mas aqui virei, carinhosamente, algumas noites, tal rito de amor sentido, reler o que escrevi e os afectos que despertei nos que me visitaram.
Alguns depositaram promessas de grandes amores que deixaram rapidamente morrer... mas mesmo assim, eu guardo em mim tais íntimas e doces palavras. Pertencem-me porque me foram dadas!

Afinal, eu preferiria a vida, lá fora! Pessoas, as que me gostariam, um olhar nos olhos, um tocar, afagar... quando assim se sente e necessita! Sinto-me bem quando demonstram que 'me' gostam!


"Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr de sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janella.

[...]



Alberto Caeiro, 'O Guardador de Rebanhos', 08.03.1914

19 outubro 2010

Fórmula Secreta

Terei eu alguma vez ofendido a morte
Que foge de mim deste modo?
Insiste a vida em apostar
Neste sopro, réstea de fulgor
De inspiração
Se expiro é porque vivo e sinto
Ainda o bater do coração
Máquina que me consome oxigénio
E me faz rolar em auto-estrada.
Lá atrás fica o risco branco
Marca indelével da ofensa
Que faz com que fujas de mim
E me obrigues a viver.

Nas bermas amontoam-se agora
Pedaços de gente que nunca nada ofendeu
Nem tão pouco a morte.
Esta,  tratou de as levar , célere.
Enfeitam-se  com frios pedaços
De mármore, por cima das almas
Encaixotadas em branco e negro.

Ah! Mas o sol brilha em fiapos de ouro quente
Eu sinto que as minhas pálpebras  se fecham
Com doçura,
É tão bom sentir-te no meu corpo!
Cadência de inspirar e expirar, lenta
Morna,
Esta sensação de estar bem comigo e contigo
Saindo de mim, aprendi a dar-me.
E não espero nada  - fórmula secreta - 
Da vida, que ela não me queira dar.

18 outubro 2010

Declaração

"Porque os versos não são, como as gentes pensam, sentimentos ( esses têm-se cedo bastante), - são experiências. Por amor de um verso têm que se ver muitas cidades, homens e coisas, têm que se conhecer os animais, têm que se sentir como as aves voam e que se saber o gesto com que as flores se abrem de manhã. " (...) in Os Cadernos de Malte Lauris Brigge, Rainer Maria Rilke, pref e versão portuguesa de Paulo Quintela, 1955, Coimbra. 
Certifico que todas as palavras aqui escritas
Foram antes testadas,
Mesmo que a rima não rime
Que fique despedaçada
Em cada palavra que escrevo
Existe por detrás dela
A consciência plena
De um punhado de vontade
Que luta e sente
Sofre , e se dá
Em cada hora de vida
Por si própria e pelos outros
Que deixam ficar o rasto
Nas palavras aqui escritas
Certificando-me a vida
Por entre alegria e desditas
Das tais palavras que aqui deixo
Assim deste modo escritas

Alma

Alguém ontem  me disse
Que gostava mais da minha alma
D’outrora.
Fiquei a meditar, sem saber que responder
A minha alma mudou-se?
Ou mudou?
Assim como se não sente a morte
Quando vem
Alguém me matou a alma
E eu não dei por nada?
Ainda me vejo ao espelho.
Ainda lá estou.
Mas a minha alma, essa...
Nem a respiração lhe adivinho
Queria tanto ter os teus olhos aqui
Sem ter que perder os meus.
Talvez  assim a poesia fizesse sentido
E a alma não se perdesse
Num espelho embaciado de gelo.

16 outubro 2010

Constelações
















Fizera com que ela se Imaginasse  com corpo de animal . Há seres brutos e há criaturas brutalizadas. Existem animais e bestas. Seres humanos bestiais, sem conotação positiva e animais humanizados. Ele tinha alturas em que se bestializava de tal forma que só lhe apetecia a ela socar até à exaustão as estrelas das Híades distribuídas em forma de V e que representavam o seu nariz .
Respirou fundo, colocou no prato do cd o concerto nº2 para piano, de Chopin, esta era com certeza uma boa opção, o único bálsamo possível para tentar esquecer quem,  em tom inconsequente,  lhe dizia que a espicaçava, sem ela compreender o porquê de tamanha sorte. Sentia as farpas cravadas no dorso. Nesse momento tinha abandonado a postura de canino fiel e submisso e sentia uma estranha revolta a invadir-lhe a mente.
Na sua imaginação desferiu-lhe um golpe directamente na Aldebaran, ignorava onde ficava a outra estrela, aliás nunca tinha conseguido ver o animal em toda a sua plenitude. Sabia que estava obliterado, seccionado, cortado em partes e , tal como uma vulgar sardanisca, regenerava parte da cauda, sempre que lha cortavam. Mas não tinha coração! Estranha besta esta que possuía no alto da sua cabeça um objecto chifrudo, feito de consecutivas calcificações que dava pelo nome de Alnath tinha-a  este atingido no ponto mais vital do seu ser, estava pronta a morrer mal viessem as primeiras chuvas, emprestaria o seu corpo ao rio e seguiria margens abaixo, nem chegaria a esperar pelo equinócio da Primavera.
Decidiu enrolar-se me si própria e ficar sozinha a chorar a desdita, afinal ninguém era digno de possuir o melhor que dentro dela existia.  Os capotes abandonados na arena ensanguentados de tanta luta eram bem o exemplo que o homem não compreendia  o sofrimento que causava ao seu redor; egoísta criatura criava barreiras, e sempre que pressagiava o perigo, refugiava-se atrás de meia dúzia de tábuas de madeira.
Mas pior do que isto era a ilusão…a transferência de emoções e sentimentos para outros animais que nem sequer eram do seu clã. Ela sabia, afinal como mulher que ainda aparentava ser, que o que restava de Aldebaran, apenas se dirigia para outras constelações…lamentável…mas é assim a vida planetária de certas bestas que por cá proliferam.

15 outubro 2010

Trindades

Tu és o mistério de nós dois
Que me condicionas a ser
Existindo neste excesso
Que me vai fazer perder
Esta estranha loucura
Da forma como me sinto
Vou morrendo entediada.
Vendo deslizar as sombras
Em cada dia que finda
e as tardes ensolaradas
Que se vão tão lentamente
Vestindo  de anoitecer.


14 outubro 2010

Coisas simples

Quando alguém como eu é confrontado com o branco de uma folha de papel, sente, mesmo sem querer, a responsabilidade de a impregnar de vida. E porque nas palavras existe vida. Letra a  letra, mau grado a comparação, funciona aqui a caneta, ou o teclado, como uma estranha agulha que norteia e vai bordando com delicadeza. O trabalho final que se pretende pode resultar bem, o inverso também poderá acontecer.
É das teias da alma, das vivências, do caminho percorrido que vamos buscar o fio condutor, poderá ser material singelo, ou ( ocorre-me agora)  fio de ouro ou prata tal como aquele com que antigamente se bordavam os paramentos. Resultava sempre bem, belas peças de arte que ficaram religiosamente guardadas  nos arcazes das sacristias.
Pois tal como esses delicados paramentos, existem aqui ideias bordadas , gravadas nas mais diversas cores e que correspondem a emoções e sentimentos que guardamos na nossa matriz como seres humanos.
Hoje quero falar de gestos simples. Quero sobretudo agradecer desta forma um testemunho de amizade singela que me chegou de terras de Alcobaça, uma espécie de sinal, quem sabe um emissário de Pedro e Inês para que eu não esmoreça, que por muito que a vida seja escrita com fio de burel, haverá sempre quem nos traga uma encomenda de novelos da mais pura seda para que possamos trabalhar as letras e as palavras dessa forma quase acetinada.
Desta forma, ergo em cadinho de cristal, um delicioso néctar  que me embalou docemente  pela tarde fora,  compartilho o sorriso e as palavras, que teci com amizade, agradeço ao emissário e desejo, mais diria, antes sonho, que um dia  consiga eu bordar na folha singela de um livro o meu obrigada pela força que me transmitiu.
Nem sempre a vida faz sentido, outras sim. Gestos simples, como tal perfeitos e isentos,  são gratificantes  para quem dá e para quem recebe. Aqui fica,  não o equivalente a um lenço de namorados, mas a uma alva toalha de chá, repleta de finas iguarias, chávenas de porcelana, e bolinhos de gengibre e canela .
Obrigada Petrarca

12 outubro 2010

As tuas mãos















Olho-te sem que tu saibas
Esses rios azulados
Que passam  nas tuas mãos
Pedaços de vida marcados
Gosto de me demorar
Baixinho
Sem que tu saibas
Os meus olhos
Nessas marcas
Que tanto queria tocar
Crescem-me os olhos
A alma
A dor
O silêncio que já guardo
De te amar em desamor
Subo ainda um pouco mais
E vai pairar  meu olhar
Como águia no espaço
Na curva do teu pescoço
No desenho que aí fica
Imaginário perdido
De me deixares aninhar
Num desejo sem sentido.
Volto triste deste dia
Sempre que a tarde cai
Fico-me assim rendida
Sem poder soltar um ai.

11 outubro 2010

Diga bom dia com....SICAL

Este mundo é, de facto, um mundo de contrastes. Diariamente constato tal facto.
Eis aqui um exemplo por mim presenciado; poderia ser um simples acto isolado, mas acontece deste modo que vos relato  nas mais variadas circunstâncias, em diversas escalas e níveis, no tempo e no espaço.
Estamos em crise, crise de valores, crise financeira, crise...crise...crise; mas não para todos!
A REDEESPAÇO, S.A, é a designação comercial para os quiosques que publicitam e vendem a conhecida marca de café SICAL onde, todos os dias  passo a determinada hora para tomar o meu café acompanhado do folhado de Chaves – pequenos vícios que me insuflam um pouco de energia pela manhã. Muitos dias, muitos meses a frequentar o mesmo local e acaba-se sempre por ter algum convívio com os empregados do estabelecimento em questão. Eu gostava de ser atendida pelo  Igor, um brasileiro de 18 anos , sempre alegre e bem disposto que sabia já de antemão qual o meu gosto ao entrar no referido espaço. Pois o Igor foi transferido para uma outra dependência , parece que do Campo Grande. De quando em vez fazem rotação dos funcionários, não sei se será para não criarem “maus” vícios, não cheguei de facto a entender. Mas vou amiúde observando , neste meu exercício rotineiro, quase tudo o que me rodeia.
Hoje pela manhã vi, com alguma discrição, não fosse o meu olhar atento, um tabuleiro de bolos e outros géneros destinados ao  consumo alimentar a irem para o lixo! Fiquei atónita e questionei, mas será que vão mesmo para o lixo??? Numa época de crise, de pobreza envergonhada, de fome que a cada dia que passa mais se faz sentir, existe por aí tanta gente que de bom grado aceitaria as ditas sobras . Quantas crianças vão de manhã para a escola sem um único pedaço de pão no estômago? Quantos velhos estão em casa apenas com uma magra côdea e um café aguado?
Desperdiça-se comida desta maneira, nem os próprios empregados a podem levar para casa, tudo ali é racionado, que eu bem vejo, a sopa tem determinada medida para ser servida ao cliente, mas se...no final do dia sobrar...deita-se fora!!
Então é assim, deste modo,  que nunca chegaremos a uma sociedade equilibrada, seja de consumo ou não! É este mais um exemplo, a uma pequena escala, de desaproveitamento dos bens e dos recursos à disposição , não equitativa, do ser humano. Não me refiro aqui à fome em África, á guerra no Iraque, aos desequilíbrios gerados pelo Homem, não preciso de sair muito fora de portas, basta estar atento e perceber que nós somos os maiores predadores existentes à superfície do planeta, Até se justificaria se, apenas matássemos para comer; mas não – matamos por prazer e desrespeitamos tudo e todos ao nosso redor. A cada dia que passa,  desaparece mais e mais a noção de que os valores e princípios são essenciais para uma melhor qualidade de vida. Seja numa loja da SICAL, seja em outro qualquer espaço, vale tudo menos tirar olhos!

30 setembro 2010

Retratos de Lisboa

Tardes lisboetas na zona da Baixa são um pouco o espelho da Nação. Largo de S.Domingos pejado de estudantes caloiros em praxes sem sentido, embriagados em sonhos e copos de ginginha, à mistura com emigrantes oriundos das sete partidas do mundo. Estes últimos transaccionam de tudo um pouco, (passaportes,  diamantes,  telemóveis e cartões furtados,) ao incauto que por ai se movimenta. O sol vai bafejando estas gentes, tornando-lhes a vida menos penosa, não obstante a dívida externa que diariamente aumenta,  em cerca de 100 euros por cada português aqui nascido e criado.
Chega-me  os sons da rua das Portas de Santo Antão, um grupo de quatro cabo-verdianos toca e encanta os passantes com mornas que adoçam a pedra da calçada à portuguesa; desta feita o mais jovem, filho de um dos elementos do grupo,  uns 4 anos  de existência, marca o ritmo e ginga ao som do batuque. Não deixo de sentir ternura e sorrio ao ver ao a sua espontaneidade de criança, num mundo de adultos sem  nexo aparente. No entrada  de certa instituição das redondezas, sentados nos degraus de pedra , em amena cavaqueira decorre a  conversa entre vários elementos: um "segurança", o vendedor  de castanhas  e  gelados,  (embora no mês de Setembro intercale com férias, fruto da mudança de estação, não demorará a chegada de Outubro e o cheiro da dita castanha assada), juntam-se-lhe o motorista do edifício ao lado, o construtor civil e o empregado de mesa que saiu às quatro da tarde – falam de futebol e da politiquice rafeira.
Alguns turistas  imobilizam-se em    frente ao estabelecimento da  ginginha das Portas de Santo Antão, num círculo alargado,  copo de plástico na mão, assistem atentos ao concerto improvisado distingue-se o som de “Angoláaaaa.... angoláaa”. Melodias plenas de nostalgia, alguns, parcos euros caiem nas caixas das violas, onde uma t-shirt aberta com os dizeres “Cabo Verde” convida a deixar o  contributo.
As esplanadas estão cheias de gente ociosa, desfrutando não sei que belezas arquitectónicas citadinas,  porque esta mesma  cidade continua  decrépita e suja.
Deambulando pelo Largo de S. Domingos, cruzamo-nos com gentes ligadas ao debate público, uma espécie de “Corredor do Poder” popular,  de microfone na mão com a finalidade de convidar a população a participar e a dizer de sua justiça  apresentando ideias e sugestões para melhorar a vida política do País;  há mendigos dormindo placidamente um sono que seria de justos, não fosse as injustiças da vida, obrigando a  que qualquer pedaço de chão sirva de leito.
E existem os pombos às centenas, sobrevoando tudo e todos em busca de cada migalha milimétrica, fazendo uma guerra silenciosa com os pardais da cidade.
Dia após dia a cidade vai sobrevivendo, um marulhar imenso de gentes que  entra e sai para trabalhar. A Praça D.Pedro IV , por volta das sete da noite começa a ficar vazia e à noite as ruas da Baixa tornam-se isoladas e perigosas,  abrigo de marginais, toxicodependentes  e sem-abrigo que todos os dias aumentam por aqui.Também deste lado do Rossio um grupo de músicos da América-Latina costuma animar as tardes, em frente à entrada da estação do Metropolitano, findando a tarde, fazem as malas e carregam a carrinha para outras paragens.  São estes alguns dos muitos retratos de Lisboa.

29 setembro 2010

Formigas








O Metro já não é só o que era. A tradição também o não é. Nem Bruxelas é apenas uma couve, nem o metro é apenas uma unidade de comprimento.
Aliás ocorre-me dizer que são várias unidades de comprimento, neste caso estandardizado,   ligadas entre si, imagino que por uma espécie de ganchos que encaixam uns nos outros. Quem movimenta todas estas unidades é o maquinista, espécie de toupeira que saí em de x em x tempo à luz do dia para carregar as baterias.
Mas não quero falar nem das toupeiras, mas  sim,  do carreiro de formigas, animais diligentes e que a maior parte da espécie humana decidiu imitar a nível comportamental.
Assusta-me a formatação a que assisto diariamente, transformamo-nos em formigas no carreiro, num vai e vêm constante; socialmente não interagem, mas multiplicam-se em centenas de conversas abstractas através de pequenos aparelhómetros que os colocam , aparentemente, em contacto com outras formigas do clã. É esta a sociedade que o homem moderno criou: rotinas diárias através de trilhos que, observados com um certo distanciamento,  me levam a pensar que a passos largos nos afastamos do equilíbrio natural,  e do meio onde durante milhões de anos,  evoluímos, rumo a um futuro cada vez mais escravizante.
Poucas crianças se vêem no Metro, muitos imigrantes das mais diversas origens, uma amálgama de chineses, paquistaneses, indianos, negros e ciganos – sem qualquer ordem discriminatória – para além disso uma classe média, enfraquecida, derrotada, tristemente empobrecida e envelhecendo precocemente .
Obedecemos a sinais sonoros em curto espaço de tempo, respondemos ao estímulo do abrir e fechar portas; já não existem revisores e sim fiscais, que com ar ameaçador nos fazem frente em alturas inesperadas pedindo-nos o santo e a senha para continuar no carreiro das formigas. Tudo isto é vagamente Kafkiano, sociedade civil em mutação. Um dia acordamos prisioneiros de nós mesmos,  feras de circo destinado a meia dúzia de privilegiados. Longe vai o tempo dos cristãos atirados às feras. No presente momento cada um de nós é uma pequena fera encarcerada no corpo de uma formiga. Muitas juntas poderiam devorar o sistema!
Hoje vi um adolescente a cantar sozinho, acho que treinava para ir aos Ídolos, tal era a cantoria, em redor algumas formigas riam cochichavam entre membros da tribo. Hoje também vi alguém de olhos vazios perdidos sabe-se lá onde. Velhos exóticos, adultos fora de moda, trajes feios e sem qualquer gosto. Não existem aromas de conhecidas marcas de perfume. No Metro há uma atmosfera pesada e suja.
Gosto apenas de sair e entrar na estação do Saldanha, onde corre uma ligeira brisa através das palavras do Mestre Almada Negreiros, autor das restantes frases espalhadas nos painéis da estação  “Em mim se cruzaram finalmente  todos os lados da terra”que pode continuar a ler-se, no poema Rosa dos Ventos.  

23 setembro 2010

Outono

Tarde mansa de Outono. O  casario de paredes caiadas de branco a ferir a vista. Os murmúrios das gentes a povoar a cidade. Um risco de som na atmosfera. Calmaria imensa. A paz, a pacatez de um sítio onde a cada passo se nasce e se morre.
O céu coberto de pequenas nuvens de algodão. Tudo parece feito de equilíbrio.
Até o som do berbequim algures ecoa em mim  sons meus velhos conhecidos. Trazem-me o aroma dos pomares carregados de fruta madura, dos fios de água a passar na horta, cheiro de terra molhada, o zumbir das abelhas, a quinta do velho senhor que acumulava embalagens vazias ao monte. No velho solar havia uma janela que dava para o tanque onde nadavam carpas gigantes à mistura com enguias, também ali as gentes da aldeia lavavam alguma roupa, tendo por sombra os lilases que se esboroavam lentamente à medida que o verão avançava. Tardes mansas, tão diferentes das de agora. Hoje já não sou a criança de tranças negras que tecia sonhos imensos. Os contos de fadas tem uma época na nossa vida que nos fazem sentir que o mundo inteiro nasceu para nós; está ali inteiro,  apenas à espera que lhe estendamos a  mão para o tornar nosso. Uma brisa do tamanho do sobro de asas de borboleta invade-me, pequenos frios, pequenos medos. Como será o amanhã?
Recordo o aroma das uvas maduras,  formigas polvilhando o solo seco e arenoso. Ao longe o imenso brilho da prata convidava-me a adormecer na areia, sonhava eu com uma cidade assim, como a de hoje. Não contei foi com o golpe de asas e o desvio de rota das andorinhas. Há muito que partiram e levaram a minha alma com elas.

Aço

Sentindo o  aço frio da faca, da navalha, da adaga, escolho qual dos instrumentos quero.
Um deles será temperado de modo diferente,  cavando profundo sulco de agonia. Instante decisivo entre vida e morte. Pergunto-me porque é a vida tão frágil, que depende assim de uma lâmina pequena e afiada. Fronteira ténue entre o grito e o gesto. A  mão é uma arma, constato. ( também a palavra, dizem outros). Em tempo contado, certo mesmo, acrescento,  nasci humana, e  uma vez mais, o fino estilete me libertou da morte e para a vida! Seria possível nascer eu, apenas se me abocanhasses que nem animal ferido? Rasgar-me-ias nesse instante. Talvez mais valesse tal modo? Pergunto-me! Estrangular-me-ias?
Desde aí passei a gritar, oscilando entre o silêncio e o murmúrio das vagas alteradas; há quem lhe chame muitas coisas, mas o seu nome acaba por nunca ser um nome, nem tão pouco lhe chamo de ninguém.
Só eu continuo aqui a sentir-me dia a dia mais surda aos apelos, aos chamamentos ignóbeis dos outros que desejam lacerar sem o convencional frio do aço. Matem-me! Mas façam isso rápido, como quem corta o cordão umbilical; façam-me soltar o grito novo, que me insufle  uma alma inteira. A vida , essa já a conheço. Façam com que renasça na morte! É pedir muito?
Fino bisturi este que me modela o corpo, passeia-se docemente neste invólucro tépido.
Eras tu que ousavas, pobre louco, desfazer a minha vida em ti?
Muitos são os que em jeito de desgraça iminente, ousam sonhar com as certezas – lembra-te agora que os rios continuam a correr indiferentes à agonia da terra.
Assim eu vejo-te como um rio, estreita linha de água, aço destemperado sob a minha realidade que se escoa.
Vai, segue, desagua na linfa e faz-me espraiar numa imensidão de vermelhos rubis a mancharem a tua vã consciência.   

21 setembro 2010

Encanto

Não me deixaria eu desencantar se encanto não houvesse.
Quando deixar de acreditar no encanto, desencantar-me-ei. Este estranho movimento de vai-e-vem constante, se existe é porque assim sinto, entre cálculos menos certos que me vão preenchendo a soma dos meus dias. Cresço agora a um ritmo diferente, já não sou a pequena célula que luta para se multiplicar, faço de mim o possível para que dos teus gestos nasça um poema, único fruto deste despojo que é o amor.
És carne e anjo que alvoroça e alvorece  em frémito dentro deste profundo poço onde eclode o raio de luz nocturna.
E assim me vou encantando, à tua espera. Sempre!

20 setembro 2010

Desde ontem que já morri e renasci mil vezes. Neste dia em que me espero encontrar, perco-me sempre que me procuro. Andam meus olhos vendados, mal nasce o sol adormeço cega do brilho de tanta luz laranja.
Ontem eu não queria mais viver e pensei  que o melhor era mesmo fechar a cortina e deixar os outros continuarem sem mim. A vida é um eterno equívoco, metamorfose de embrião em crisálida, seguindo-se-lhe o nascimento da bela borboleta que vai fenecer breve.
Enquanto vou voando, olho aqui de cima, deste tapete  de pólen – não estás em lugar algum, tudo perece menos as ondas do oceano que  vão submergir o colorido veludo das minhas asas.
Como consigo eu possuir-te sem que te dês? Algures, nesta meia-fusão já não sei se sou eu, ou se és tu que existes.
Outros voos amanhã realizarei; serás um pedaço de tudo, carlinga, nuvem, açor, talvez até parte de mim que não sei se também existo.
E no céu, riscado de branco, passa um super sónico que agarro com a ponta dos dedos. Efémero como tudo o mais!

18 setembro 2010

Meu menino de oiro vieste até mim .

O meu amor por ti manter-se-à para além da vida e da morte - Imutável porque és parte de mim, enquanto um de nós existir, nenhum dos dois morrerá e por que tu vieste... em Setembro aninhar-te no meu coração.

17 setembro 2010

Palavras aradas

Este cansaço de tudo
esta vida tão sem rumo
este arado com que lavro
o pensamento soturno.
Porquê, perguntar-me-ão?
Nem eu vos sei responder
Apenas vou lavrando  terra
para a semente crescer.
Algures em alforge escondido
guardo um pouco de alento
quando chegar a primavera
deitarei por minhas  mãos
um pouco dessa ilusão
que a terra fará florescer.
E ganhar novo sentido.

06 setembro 2010

Pingo de mel

È  de manhã cedo, acordo com o alarido na rua.  Meto a cabeça de fora, pela pequena janela de guilhotina da cozinha. A porteira do prédio onde vivo, pensa que é dona da única figueira que existe no bairro, zela que nem cão feroz, receia que lhe roubem os figos pingo de mel que nascem durante o verão. Imagino que mal deve dormir de noite. Implico com esta figura de olhar sinistro, arredondada – como os figos -,  cabelos brancos, bata de cornucópias e chinela prateada no pé. Senta-se no banco do pequeno terraço e lê  revistas cor de rosa e azuis, outras manchadas de vermelho, falam por vezes da vida de outros figos.
Hoje de manhã decidiu embirrar com o homem que vende figos à entrada do centro comercial, este faz uma constante ronda pelas cercanias,  limpando as figueiras todas. Desta vez  apenas tinha colhido  meia dúzia de folhas da árvore. 
-         Para que quer você as folhas?
-         Ora! Para os figos ficarem mais apresentáveis, mais bem embalados, com estas folhinhas verdes , que lavo na casa de banho do centro comercial. As minhas freguesas gostam de olhar a mercadoria bem embalada.
-         Você anda-me mas é  a roubar os meus figos!!
-         Ó senhora!! Então não sabe que vou pela linha do caminho de ferro fora, quase até Braço de Prata, junto à linha, é daí que trago os figos madurinhos e bons.
     ( velha rabujenta)  - exclamou entre dentes, mas que eu ouvi,  e sorri interiormente, de cabeça esticada fora da janela de guilhotina da cozinha, enquanto observava a tentativa , desta vez gorada.
Passaram mais uns longos minutos e  assistindo eu ao combate pela posse dos frutos apetecíveis, era ver qual dos dois era mais manhoso. Já a dona da bata de cornucópias dizia que chamava a policia.
- Então chame! Os figos não são seus!
- Ó homem largue-me a porta!
Jurei que, só para chatear , nessa noite também eu iria aos figos!! Ao bater da meia-noite, eis me de prontidão, acompanhada pelo meu cão, fiel escudeiro e confidente das horas boas e menos boas, saquinho de plástico na mão. Deu-me um prazer enorme roubar os figos da porteira! Ainda bem que ela só lê revistas cor de rosa...